UOL Cinema

14/10/2010

O Retorno a Ford

 

Uma das histórias de John Ford (ou lendas em torno de?), recontada com todas as imprecisões que vêm ao caso: Carrol Baker insistia para que fizesse uma cena à maneira de Ingmar Bergman. Ford escuta calado. A horas tantas vira-se para ela e pergunta: "Mas quem é Ingmar Bergman?". Carrol não retruca, claro.

No dia seguinte, Ford chega ao set e vai direto para ela: "Já sei quem é Ingmar Bergman. É aquele sueco que me considera o melhor diretor do mundo".

Assim era nos idos de 1960: ninguém duvidava da grandeza de Ford.

Não que hoje se duvide. Mas o surgimento dos cinemas novos, a preocupação com a linguagem, o simples correr do tempo, as mudanças tecnológicas, as simples novidades, tudo isso acabou por deixar Ford um tanto na surdina.

A mostra o traz de volta.

Volta é modo de dizer. Ele tem uma quantidade enorme de filmes em DVD no Brasil (ainda que uma parte seja da Continental...). Mas uma mostra dessa extensão faz de Ford, outra vez, objeto crítico.

A retrospectiva, aliás, tratou de não dar ponto sem nó: editou um catálogo magnífico, desses dignos da Cinemateca Portuguesa. Artigos de origem francofone (Serge Daney, sobretudo), anglofones (Ted Gallagher tem uns três títulos, notáveis), lusófonos (João Benard da Costa, mas também a introdução de Ruy Gardnier) compõem um conjunto fascinante que propõem a atualidade de Ford.

Na ótica dos autores (ou da parte deles que eu já pude ler), Ford deixa de ser um "ilusionista clássico" (o que, nos tempos da semiótica se tornou quase um xingamento). Gallagher (se não estou enganado), por exemplo, propõe que observemos como os cortes de John Ford devem ser sentidos pelo espectador como cortes.

Mas isso é quase um detalhe. O conjunto de textos dá conta, analisa, reconstitui aquilo que para o espectador é quase da ordem da evidência: Ford é um monstro.

Não importa se para cada um de nós em particular o "Homero do Oeste", como o chamou Sergio Augusto, é o melhor, o segundo ou o décimo melhor cineasta. Isso não importa nada.

Só a análise de como trata o roteiro (texto de base a partir do qual suprime diálogos e formula idéias em imagens) é uma aula insubstituível do que seja cinema, de como observá-lo, de como fazê-lo.

Marlene Dietrich, a Tanya de "A Marca da Maldade", diz uma coisa inesquecível a respeito da pianola que toca em seu bar, algo como: "o velho é o novo".

O velho Ford que se oferece a nós hoje é novo em folha, como um bom clássico, como grande autor clássico que é.

 

Por Inácio Araujo às 18h36


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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