UOL Cinema

07/10/2010

"Tropa de Elite 2" tem muito a dizer à nação

 

Ao sair da sessão de "Tropa de Elite 2" não pude evitar de pensar em alguns filmes.

O caminho escolhido pelos autores, desta vez, me pareceu próximo ao dos grandes filmes político-policiais italianos, como Elio Petri e Damiano Damiani, sobretudo, fizeram.

No policial italiano, quanto mais um crime é investigado, mais se sobe na hierarquia, mais se adensa o mistério: topa-se, no fim da linha, com a Máfia.

No novo "Tropa", o agora tenente-coronel Nascimento é elevado à categoria de subsecretário da Segurança Pública.

De certa forma, é encostado num gabinete.

Só que estamos falando, ainda, do velho Nascimento. De maneira que ele, dali, consegue mexer seus pauzinhos para controlar o tráfico.

O problema é que aí já não se trata mais com os renegados de Canudos, da Revolta da Vacina, com os pretinhos, pardos e mulatinhos que o Bope costumava arrebentar sem dó.

Não se trata mais dessa imensa população que o Brasil culto não entende, não quer entender e tem raiva de quem entende.

(Daí Euclydes da Cunha ser, a rigor, tão pouco lido e uma das frases mais desinteressantes do livro inteiro ter se tornado lugar-comum).

Agora são os que ou passaram daquela faixa para outra, tornando-se policiais, ou mesmo os beneficiários da corrupção endêmica no país.

Ou seja, isso que o coronel chama de "o sistema".

A polícia, corrupta, transforma-se nas Milícias e garante "a paz" nas favelas ao mesmo tempo em que pratica a extorsão livremente.

A mídia (representada por um programa de TV tipo Datena) adora isso e fatura em cima. O governador, que quer se reeleger, acha ótimo.

E assim vamos.

Mas Nascimento se mantém intacto e puro.

A pureza contra a política?

Bem, aí entra o outro filme que me veio à cabeça: "Arquitetura da Destruição".

Esse magnífico ensaio sustenta que Hitler não aspirava senão a criar um mundo de beleza, livre de impurezas como retardados mentais, ciganos e, claro, judeus.

Acho que isso pode ser um paradigma: o caminho do excesso, no caso, não leva à sabedoria, como dizia William Blake.

Leva ao desatino.

Então, penso, todo esse excessivo combate à instituição política que vemos em "Tropa" leva a quê?

Terror em Paulínia

Não sei dizer, com franqueza, se o que me assusta é o filme ou uma parte da população brasileira.

Essa parte que, na sessão em Paulínia, aplaudia em cena aberta no momento de um brutal espancamento.

Talvez o filme esteja certo e nossa política seja mesmo uma porcaria.

Mas eu me pergunto se vivemos num país de imaculada pureza dominado por um núcleo de desviantes corruptos ou coisa parecida.

O Congresso Nacional, por onde o filme passeia a horas tantas, não seria então representativo do que é o Brasil, do que somos nós?

Somos todos bons e os políticos são ruins? É isso, então? A idéia é consoladora, é verdade, mas é uma pena que não seja muito realista.

O filme sustenta, talvez com razão, que levará muitos anos para solucionarmos problemas como a corrupção, porque não é corrupção de uma pessoa, mas de um "o sistema".

O que é "o sistema"?

A idéia de impunidade está vinculada a ele, claro.

O cara que tem a arma na mão pode fazer o que quiser.

Ele é o começo e o fim das coisas.

Na verdade, não existe nenhuma diferença ontológica entre o Bope e os tiras corruptos das Milícias.

São duas faces da mesmíssima moeda. Ambos dispõem de um poder absoluto.

(Os políticos ficam, quase naturalmente, por trás de ambos, se equilibrando: o negócio deles são os votos.)

O fato de o Bope representar "o bem", "a pureza", não altera nada. Nunca se ouviu dizer que Stalin era desonesto (e tal seria: se dissesse alguma coisa, era eliminado no ato), mas fez o que fez e a coisa deu no que deu.

Nascimento é direito? Puro e duro? E daí? E se, com as armas e a corporação que tem na mão, ele não for direito?

Quem diz que o Bope é essa ilha de perfeição e pureza que o filme sustenta ser?

Isso não será apenas uma outra ficção?

Pela "Tropa"

Isso pode parecer que estou contra o filme, o que não é bem verdade.

Filmes como ele me parecem necessários por vários motivos, inclusive por olhar coisas que o filme brasileiro não costuma olhar, por um ângulo que costuma evitar.

Com isso, e com a ambiguidade que caracteriza, de maneiras diferentes, os dois filmes, algumas questões podem ser colocadas.

A primeira, mais urgente, é a da herança da tortura, ou seja do desmando do aparelho repressivo durante a ditadura.

O Brasil paga caro por isso em matéria moral.

Todo mundo fica em cima do cara que rouba umas galinhas, como se fosse o fim do mundo. Tudo bem. Não é certo.

Mas a carnificina que houve por aqui, a tortura, tudo isso é como se não tivesse existido.

Enquanto o Brasil não acertar contas com essa história (a Argentina fez, até o Chile fez) acho difícil derrotar "o sistema".

Enquanto não acertar as contas com Canudos, não compreenderá a si mesmo e os seus.

Fundamentalismo 

Só para terminar: o culto ao Bope e ao capitão Nascimento pode servir muito bem para catarse.

Mas não resolve nossos problemas.

Acho que foi o Simão, que vê tudo antes, quem falou que já estamos numa república em que os dirigentes são civis, mas obedecem aos religiosos.

Então,vamos parar de falar mal do Irã, de Israel.

A gente está igual.

Essa história em torno de aborto é  vergonhosa. Até Portugal, que é aquela coisa atrasada, já aceita. Até a Itália, com o Papa plantado lá dentro.

Só o Brasil... Bem, a catolicidade não se incomoda com a carnificina anual de mulheres (pobres, naturalmente) que fazem aborto e morrem ou sofrem problemas seríssimos.

A catolicidade (e acho que uma parte dos evangélicos também) se incomodam com os fetos, com os "puros" (com aqueles que certos padres e bispois tentarão transar, dali a uns anos, poderiam acrescentar).

Não acredito, francamente, que Dilma Rousseff deixou de ganhar no primeiro turno por conta disso. Mas o fato de estar no debate, como está, beira o assombroso.

Para resumir: há muitas coisas que, querendo ou não, "Tropa 2" tem a nos dizer. Não sei se o público quererá escutar.

Por Inácio Araujo às 13h36


05/10/2010

"Wall Street" e a cultura das reviravoltas

 

Quem viu "Wall Street 2" sabe do que estou falando:

é a maldita cultura dos "consultores de roteiro", dos leitores, dos produtores incompetentes.

Isso tudo aliado a certa decadência de Oliver Stone, claro.

O fato é o seguinte: todo o filme é construído em torno dos oito anos de prisão de Gordon Gekko, o magnata que havia dado mil e um golpes no primerio filme.

Aqui, desde que ele sai, é um cara crítico, escreve livros sobre a ganância, dá a entender que ninguém precisa dessa ganância para viver etc.

Claro, resta nele o fascínio pelo mercado financeiro, mas é uma coisa de natureza muito mais teórica, agora.

Bem, na última "virada", tudo vai mudar.

Ora, tudo isso que muda vai contra tudo que o personagem demonstrou ser até então.

Daí o filme desanda total. Gordon Gekko pode ser um ganancioso, um jogador ou um sentimental.

Tanto faz quanto tanto fez.

O final do filme, que ia bem até aquele momento (é um assunto que, visivelmente, mobiliza O.S., o primeiro "Wall Street" é seu melhor filme), é lamentável.

Por Inácio Araujo às 13h46


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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