UOL Cinema

23/09/2010

"Lula" nos levará ao Oscar?

 

A primeira reação pode ser paranóica: se "Lula, o Filho do Brasil" vai ao Oscar (enfim: é indicado pelo Brasil para concorrer) seria por interferência política, etc.

Duvido.

Entre os que concorreram à indicação é o com melhores condições de emplacar no Oscar de filme estrangeiro.

Primeiro, aborda um personagem reconhecível universalmente.

Mais, que faz unanimidade fora do Brasil como pessoa admirada, antes de tudo, por sua trajetória pessoal.

Aqui, apesar de ser um presidente muito popular, há muitas pessoas que fazem ressalvas a Lula em vários níveis, do cultural ao político.

Esse aspecto emocional (e que nos dias atuais chega à demência, o que é de certo modo compreensível) inexiste no exterior.

E é essa trajetória de vida que o filme, aliás, explicita, da infância até os tempos de sindicalismo em São Bernardo e ao combate à ditadura.

Portanto, é também uma história de vencedor.

Pode até não ser o ideal para levar o Oscar ou, eventualmente, chegar a ele (causas humanísticas mais genéricas são sempre muito bem vistas), mas é de longe o melhor que temos. Eu diria que é o melhor que temos desde "Central do Brasil" como concorrente.

Alguém poderá dizer que "Cinco Vezes Favela" tem a vantagem de ser feito por jovens da própria favela etc.

Mas isso é muito abstrato. O Oscar não gira em torno disso.

Pode-se sempre alegar que "Lula" é quadrado como "Gandhi" (e bem produzido, guardadas as proporções devidas).

Mas isso é preocupação de crítico, não de eleitor do Oscar.

Só para efeito de lembrança, "Gandhi" ganhou oito Oscars em 1982.  

Por Inácio Araujo às 12h56


20/09/2010

Duas semanas em outro mundo

 

Lembrei o nome original daquele filme, o "Two Weeks in Another Town", do Minnelli.

Passei duas semanas em outro mundo.

 

Fora de tudo. Escrevi algumas linhas sobre o Chabrol, porque não podia não fazê-lo, e porque não precisava usar nenhum raciocínio: apenas o que consegui lembrar da conversa com o cineasta mais cinéfilo com quem já conversei.

 

Um espanto: era como se vivesse dentro da tela.

 

Falava do Fritz Lang assim (meio que reinvento a conversa, mas o sentido era esse).

 

Eu – Mas vocês achavam mesmo que o Fritz Lang americano era melhor que o alemão?

CC – Claro que não. Mas é que falavam cada coisa tão absurda sobre ele, que a gente tinha que pegar pelo inverso, falar que “M” não era bom.

Eu – Mas era, claro.

CC – Lógico, é o melhor dele.

Eu – Sério? Melhor que “O Segredo de uma Alma”?

CC – Éste é um filme admirável, mas quase uma abstração. Ele não tinha os mesmos meios que na Alemanha.

 

E por aí ia.

 

Resumindo: eu estava sem forças para refazer esse diálogo.

 

Mas li um artigo muito bonito do Giannini, aqui no UOL.

 

Não li, ainda os do Zé Geraldo e do Cacá Diegues, que eu vi que saíram.

 

Não li o Estadão.

 

Quem terá escrito?

 

Olha, foram 15 dias mais ou menos. Duas semanas.

 

Desculpem, isso tudo é muito pessoal. A delícia da doença é que você lê o livro que não conseguia ler, vê o filme que precisava rever há muito tempo e está na TV, ou ainda melhor: o filme que não precisava rever, mas que no estado de doença se torna uma delícia.

 

Desta vez eu fiquei jogado. Sem comer, sem dormir.

 

Não vi o 5 X Favela. Não vi os Dzi Croquettes. Os que me parecem mais essenciais. Nada.

 

Não segui sequer o noticiário da TV a cabo.

 

Minto: li, ou quase li, nos momentos de vigília, a nova edição da “A Revolta da Vacina”, que é um livro de juventude do Nicolau Sevcenko.

 

Talentosíssimo, inteligentíssimo, como ele sempre foi.

 

Ele vê a revolta como um Canudos urbano, mais ou menos.

 

Ou seja, a revolta de pessoas que, estando no Rio, podiam não sentir-se parte da nação, parte da república. Porque não eram mesmo, porque a elite não conseguia compreendê-los. Porque a elite delirava em Canudos, não era o exército apenas, era a elite toda que se mostrava incapaz de entender o que eram aquelas pessoas, contra o que estavam, porque estavam. Só o Euclydes compreendeu e escreveu, no meu entender, o melhor livro brasileiro até hoje. Porque o Machado é uma outra coisa. Um livro só, único, que transforma um monte de pedras, de deserto, de rios secos numa épica shakespeareana, bem, esse é “Os Sertões”, o livro imperdível.

 

O Nicolau toma o Lima Barreto, outro outsider. Faz um belo trabalho. No Rio, a Revolta era das pessoas que só tinham o corpo. E que experimentavam a vacina, a idéia da vacina, como uma violação desse único bem, o corpo. E ninguém na elite, nem Oswaldo Cruz, tinha como perceber o significado disso.

 

A crueldade da reação ao episódio da "elite branca", como definiu o político Claudio Lembo certa vez, foi tão inacreditável quanto característica, uma coisa demencial.

 

Bom, chega por agora. Já falei demais e todo mundo tem mais o que fazer.

 

Por Inácio Araujo às 11h38


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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