UOL Cinema

23/08/2010

"A Origem" é um falso brilhante

 

 

“A Origem” me pareceu basicamente uma versão pedante e intimidatória de “Onze Homens e um Segredo”.

 

Pedante porque onde “Onze Homens” se apresentava como uma saudável diversão, para nós, e alegre aventura, para os personagens, desta vez existem vários aspectos cuja intenção é colocar o espectador na defensiva e colocá-lo em posição de ou gostar do filme ou se sentir uma besta.

 

Se assemelha muito, nesse sentido, daquele “Memento”, que alguém chamou, em boa hora de “Desejo de Matar de trás pra frente”. Ou seja, tratava-se de tomar uma questão simples (a vingança de um homem cuja mulher foi assassinada) e acrescentar-lhe alguns falsos problemas (no caso, a memória curtíssima do homem).

 

Aqui temos um grupo de seis ou sete pessoas, sendo uma mulher, cuja profissão consiste em penetrar no sonho dos outros, torná-lo compartilhável, e roubar segredos que existam ali (tipo segredos industriais ou de comportamento a serem usados em guerras corporativas e tal e coisa).

 

Nesse nível, “A Origem” se apresenta como uma metáfora do próprio cinema, que é uma espécie de sonho socializado, ou compartilhado.

 

Ao mesmo tempo, os sonhos, mantendo sua natureza de fenômeno psíquico, ganham uma dimensão operacional. A ciência de Freud, hoje substituída por parte da psiquiatria por drogas da felicidade, ganha assim uma função prática no mundo da competição industrial.

 

Por fim, algo bem hollywoodiano, pois não poderia faltar. Leonardo DiCaprio é o especialista em invadir sonhos que não pode voltar aos EUA, por ser acusado pela morte da esposa, nem, em decorrência, ver seus filhos.

 

Ele aceita uma última missão que vai limpar seu nome e reaproximá-lo dos filhos (todo o ar de “avant garde” do filme sucumbe à velha tradição do criminoso que precisa realizar uma última missão, por dinheiro ou para se livrar de uma chantagem etc.).

 

A missão consiste aqui não em roubar algo do inconsciente de alguém (o inconsciente é um cofre, em geral com sistema de defesa não raro armado etc.), e sim em inocular algo: uma idéia.

Operação delicadíssima, presume-se.

 

Estou suprimindo aqui dezenas de etapas intermediárias que são devidamente explicadas pelos personagens ao longo do filme e que fazem dele um filme basicamente falado, isto é: tudo o que há de mais essencial é falado e não visto.

 

2)

Ao mesmo tempo, o filme opera a herança de Jorge Luis Borges, o grande fabricante de labirintos, aquele para quem uma biblioteca seria a depositária do verdadeiro mundo, da vida real. Estou simplificando grosseiramente, mas essa relação entre realidade e imaginário é muito vinculada à obra borgiana.

 

Por fim, a lingüística tem uma presença importante nos pensamentos que Christopher Nolan agita. É dela que procede a idéia de que o mundo só é conhecível quando nomeado. Sua natureza é simbólica, ligada à linguagem.

 

Também estou simplificando brutalmente, mas daí procede o hábito contemporâneo de acreditar que não existe real, ou que qualquer camada de real, de coisa, é dominável pelo uso da linguagem. Entenda-se: já  que o branco, em si, não existe, o que existe é a palavra branco, se eu disser que azul é branco tenho alguma chance de emplacar esse sentido como realidade.

 

Estou fazendo uma espécie de caricatura, mas não é muito diferente disso que as coisas acontecem no filme.

 

3)

Christopher Nolan me parece fazer parte desse grupo de artistas que buscam questões contemporâneas, que se encontram no ar, a fim de colocá-las num figurino vendável.

 

São uma bela penca. Não raro são premiados e, com maior freqüência ainda, são incensados pela crítica (ao menos a anglo-saxã). Em vez de tornarem simples (isto é, visíveis) as complexidades da existência, tornam obscuro o que poderia ser claro (ainda que complexo).

 

Daí “A Origem” me parecer muito mais complicado que outra coisa e os atores terem que ficar se explicando uns aos outros o que acontece.

 

Entrementes, rola um monte de imagens de síntese raramente interessantes ou memoráveis. Não é que falte habilidade: essas imagens, a exemplo do filme inteiro, são muito mais feitas para impressionar do que para nos entreter, estimular, esclarecer ou enriquecer.

 

É um desses falsos brilhantes, que no primeiro momento podem prostrar o espectador, mas no instante seguinte desaparecem de suas preocupações, de suas lembranças, de seu mundo. No meu caso, pelo menos, essas imagens cheias de coisas serviram para dar sono.

 

Por Inácio Araujo às 10h17


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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