
Começou a Copa do Mundo.
Começou e eu estava em Goiás, a cidade de Goiás, dita Goiás Velha ou Vila Boa.
Lá estava o XII Fica, o Festival Internacional de Cinema Ambiental. Estranho: aqui ninguém dá bola, mas sai até no Le Monde.
Lá se respira um outro ar, já que é o festival internacional de cinema ambiental. A cidade é aquela que sofreu uma inundação enorme no começo deste século, entrou um monte de água na casa de Cora Coralina etc. Mas está hoje como se nada houvesse acontecido e, garantem alguns, até melhor.
Surpresa: por estranho que seja o conceito de "cinema ambiental", a seleção trouxe muitos filmes realmente bons ou, no mínimo, interessantes.
Lá eu vi a Copa do Mundo começar e, com ela, um tremendo exibicionismo da TV: não sei quantas câmeras, não sei quantos ângulos.
Para quê?
Aparentemente, para melhor não ver.
No primeiro ou segundo dia joga a Argentina, faz gol e tal, ganha o jogo.
Mais tarde, no canal SporTV uma moça levanta a lebre "Sabia que o gol da Argentina foi irregular?"
Não. Ninguém sabia. Ela foi, aparentemente, a primeira a reclamar.
Toca a passar o tape de mil ângulos.
Um deles repete-se indefinidamente.
Lá uma câmera lentíssima mostra um atacante argentino fazendo barreira para que um defensor da Nigéria não tome posição para escorar o centro.
Aos poucos, os comentaristas vão sendo convencidos de que viram um bloqueio digno de futebol americano.
Mais ou menos unânimes, consentem com a garota: o gol foi irregular.
O rapaz ao lado da mocinha já adianta que, talvez, o juiz não tivesse feito a diagonal corretamente, seja isso o que for.
Mas, azar do canal, eis que algum espírito de porco bota no ar o teipe da jogada em velocidade normal.
Vemos então que aquele bloqueio interminável não durou mais que um átimo. O tempo de a bola centrada do escanteio se aproximar da área.
Revisto por aí, o bloqueio de futebol americano não existira: apenas uma disputa por espaço dessas que acontecem às dúzias todos os jogos.
Mas o "erro de arbitragem" estava decretado.
Nem me lembro se houve um desses "pênaltis" que os comentaristas especializados vivem decretando e que ajudaram a consolidar um tipo de arbitragem único no futebol brasileiro: ele é o único jogo de contato onde não pode haver contato. Esbarrou e os Wright, como sempre wrong, já acham que é pênalti.,
Por sorte, a influência da TV brasileira sobre a Fifa é mínima e ninguém está nem aí.
Mas já se pode prever que depois da Copa essa novidade virá para cá.
De certo modo já temos a arbritragem eletrônica. Feita à distância, por veteranos e amadores, mas que atrapalha os juízes o bastante para que qualquer esbarrão, qualquer tropeção já seja pênalti (isso quando não a simples aparência de esbarrão já justifique a marcação, de tal modo os caras se sentem pressionados).
Pelo jeito, a ilusão de óptica balizará, em todo caso, as conversas do dia seguinte em todos os botecos. O jogo, os jogadores, os gols etc. são, afinal, mero apêndice da arbitragem.
(P.S. - Para alegria de uns, andei sumido. Eu não tinha computador em Goiás.)