UOL Cinema

19/06/2010

Arte se faz na contra-corrente

 

Voltando de Goiás, no aeroporto, lá está Andrea Tonacci.

Poucos dias depois, embarco para Ouro Preto, para o CineOP, o festival mais querido.

Voltarei a ele. O certo é que a Tonacci devemos "Serras da Desordem", um dos dois ou três melhores filmes brasileiros do século.

E outro dia ele dizia que estava pensando em fechar sua produtora, a Extrema, por não ter trabalho.

Eu não ganho um concurso, nunca - ele disse.

O que é um sinal dramático de que algo está muito errado no cinema brasileiro. Como um cara sério, inteligente, talentoso, honesto, fica sem filmar, enquanto as nulidades de sempre atravancam o caminho?

Bem, foi em Ouro Preto, que é de certa forma uma capital do talento surpreendente, contra tudo e todos, que me lembrei do que ele disse.

Parece que alguma coisa aqui caminha na contra-corrente (não na conta corrente), que é o único caminho saudável em arte.

Também aqui abro o "Estado de Minas". Com uma página inteira de Cyro Siqueira falando, com muita classe, de "The Phenix City Story" ("Cidade do Vício"), de Phil Carlson.

Temos que ir atrás, Juliano.

Por Inácio Araujo às 15h27


16/06/2010

O que é cinema ambiental?

 

Depois de alguns dias em Goiás, a cidade colonial que já foi capital do Estado de Goiás, depois de ver 21 horas, mais ou menos, de filmes ambientais no XII Fica, a dúvida para mim, que não sou militante, é inevitável: o que é um filme ambiental?

Fica quer dizer, oficialmente: Festival Internacional do Filme Ambiental.

Para mim e outros convidados é o festival do Lisandro Nogueira, o professor de cinema da Universidade Federal de Goiás.

Voltando ao assunto. No festival há de tudo: desde o documentário chinês, o ganhador, notável, que trata de pessoas que separam as sobras de antigos computadores japoneses até os catadores de material reciclável nas ruas de SP, passando por ambientação de humanos no espaço e índios caçando capivaras (filmado por eles mesmos e de cortar o coração devido à destruição do seu meio natural).

Pelo menos entre os escolhidos, raramente se viu algo proselitista.

Não que eu seja contra. O filme do Al Gore, por exemplo, é que me despertou para o fato de que a coisa estava muito mais feia do que a gente podia imaginar.

Despertou muito mais gente do que eu, tenho quase certeza. Era um filme chato, uma conferência ilustrada, mas as ilustrações eram eficazes pra caramba.

E pra quem costuma ver filmes, quando o Kilimandjaro aparece sem neve, pelado, é um choque. Onde estão as neves do Kilimandjaro, afinal?

Sem elas, não há o filme, que aliás é chato pra caramba. Mas a música é demais.

Enfim, e para resumir, não sei como se define o cinema ambiental.

Mas talvez seja um cinema que se preocupe com a nossa respiração, com a sobrevida humana, às vezes de alguns humanos apenas, às vezes de todos.

É bem vasto e, sobretudo, não se limita a um gueto: são filmes que podem passar em qualquer lugar.

Para completar: a qualidade da seleção, nacional e internacional, era muito interessante.

Por Inácio Araujo às 13h19


13/06/2010

A Copa das Ilusões (de óptica)

 

Começou a Copa do Mundo.

Começou e eu estava em Goiás, a cidade de Goiás, dita Goiás Velha ou Vila Boa.

Lá estava o XII Fica, o Festival Internacional de Cinema Ambiental. Estranho: aqui ninguém dá bola, mas sai até no Le Monde.

Lá se respira um outro ar, já que é o festival internacional de cinema ambiental. A cidade é aquela que sofreu uma inundação enorme no começo deste século, entrou um monte de água na casa de Cora Coralina etc. Mas está hoje como se nada houvesse acontecido e, garantem alguns, até melhor.

Surpresa: por estranho que seja o conceito de "cinema ambiental", a seleção trouxe muitos filmes realmente bons ou, no mínimo, interessantes.

Lá eu vi a Copa do Mundo começar e, com ela, um tremendo exibicionismo da TV: não sei quantas câmeras, não sei quantos ângulos.

Para quê?

Aparentemente, para melhor não ver.

No primeiro ou segundo dia joga a Argentina, faz gol e tal, ganha o jogo.

Mais tarde, no canal SporTV uma moça levanta a lebre "Sabia que o gol da Argentina foi irregular?"

Não. Ninguém sabia. Ela foi, aparentemente, a primeira a reclamar.

Toca a passar o tape de mil ângulos.

Um deles repete-se indefinidamente.

Lá uma câmera lentíssima mostra um atacante argentino fazendo barreira para que um defensor da Nigéria não tome posição para escorar o centro.

Aos poucos, os comentaristas vão sendo convencidos de que viram um bloqueio digno de futebol americano.

Mais ou menos unânimes, consentem com a garota: o gol foi irregular.

O rapaz ao lado da mocinha já adianta que, talvez, o juiz não tivesse feito a diagonal corretamente, seja isso o que for.

Mas, azar do canal, eis que algum espírito de porco bota no ar o teipe da jogada em velocidade normal.

Vemos então que aquele bloqueio interminável não durou mais que um átimo. O tempo de a bola centrada  do escanteio se aproximar da área.

Revisto por aí, o bloqueio de futebol americano não existira: apenas uma disputa por espaço dessas que acontecem às dúzias todos os jogos.

Mas o "erro de arbitragem" estava decretado.

Nem me lembro se houve um desses "pênaltis" que os comentaristas especializados vivem decretando e que ajudaram a consolidar um tipo de arbitragem único no futebol brasileiro: ele é o único jogo de contato onde não pode haver contato. Esbarrou e os Wright, como sempre wrong, já acham que é pênalti.,

Por sorte, a influência da TV brasileira sobre a Fifa é mínima e ninguém está nem aí.

Mas já se pode prever que depois da Copa essa novidade virá para cá.

De certo modo já temos a arbritragem eletrônica. Feita à distância, por veteranos e amadores, mas que atrapalha os juízes o bastante para que qualquer esbarrão, qualquer tropeção já seja pênalti (isso quando não a simples aparência de esbarrão já justifique a marcação, de tal modo os caras se sentem pressionados).

Pelo jeito, a ilusão de óptica balizará, em todo caso, as conversas do dia seguinte em todos os botecos. O jogo, os jogadores, os gols etc. são, afinal, mero apêndice da arbitragem.

(P.S. - Para alegria de uns, andei sumido. Eu não tinha computador em Goiás.)

Por Inácio Araujo às 18h48


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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