UOL Cinema

05/06/2010

Os que vivem no pelourinho: Chavez e Israel

 

Não faço nenhum acompanhamento sistemático de política, mas, como em geral me guio pelas imagens que vejo, certas coisas me espantam.

São, sobretudo, aqueles que vivem no pelourinho.

1) Cada vez que abro a televisão vejo que o noticiário encaveira o presidente Chavez da Venezuela.

Não sei dizer se é bom ou mau, no fim das contas, o seu governo. Mas me parece das coisas mais legítimas receber alguma informação favorável a ele, que é o que faz "Ao Sul da Fronteira", o documentário de Oliver Stone. Refresca o ar, quando a informação vem de outra direção.

Por isso não entendo muito bem quando se observa seu filme como se fosse um anátema, como se estar contra Chavez fosse algo da ordem das coisas.

Ou antes: eu entendo quando isso parte de ideólogos. Entendo muito menos quando parte de críticos de cinema.

2) Cada vez que acontece alguma coisa no Oriente Médio aparece alguém para queimar a bandeira de Israel.

Também entendo que Israel faz horríveis. A maior parte da minha vida estive contra as políticas de Estado israelenses.

Mas vejo outros países fazerem coisas horríveis e ninguém queimar a bandeira.

Por exemplo, o Irã prende um monte de gente, bate, violenta e tortura presos.

Mas não me lembro de ver alguém queimando a bandeira do Irã.

Isso tem um significado, me parece. O Irã, sua existência, sejam quais forem os pecados de seus líderes em algum momento, tem direito a existir.

Israel, não.

Se isso não é anti-semitismo me pergunto o que seria.  

Por Inácio Araujo às 07h25


03/06/2010

Godard vs. Truffaut ou: O fim da nouvelle vague

 

Depois de Clint eu queria voltar um pouco à nouvelle vague, a esse documentário muito interessante que aqui se chama "Godard, Truffaut, Nouvelle Vague".

(Não sei onde está passando, mas como estamos entrando em fase modorrenta do cinema - leia-se: Copa do Mundo - vale a pena dar mais uma atenção.

O que importa muito no filme (e na vida dos caras, e no grupo em geral), a partir de determinado momento são as transformações políticas.

Ou, para resumir, 1968 é uma fratura enorme que vai separar essas pessoas de maneira irremissível.

Não importa nem que briguem ou não.

Quem vai mais à esquerda é Godard, que vira maoísta. Mas tenho a impressão de que ele ir para esse lado é uma maneira de ser coerente com a evolução de seu pensamento cinematográfico e de seu cinema.

É o fim do autor, para ele, e a instauração do coletivo: Grupo Dziga Vertov.

É o questionamento do cinema como divertimento e talvez até como arte. Ou antes: a arte só tem sentido se servir à revolução.

Essas coisas que, vistas de hoje, parecem delírio, pura alucinação.

Truffaut manteve uma posição cinematográfica menos ousada. Não que fosse errada, mas me parece que ali, depois de "Beijos Roubados" ele entra na fase menosn interessante de sua carreira. (Vamos convir, a fase militante de Godard, até onde eu aguentei ver, é insuportável).

Desde 1968 ele e Godard já não se falam.

Mas é depois de  "A Noite Americana" que a briga eclode pra valer. Godard escreve uma carta desaforada a Truffaut. Este responde com uma violência assustadora.

Tenho a impressão, muito pessoalmente, de que ambos tinham coisas a dizer há muito tempo, que estouraram ali. Godard, que não gostava dos filmes de Truffaut. Truffaut, que Godard não era boa pessoa.

Para além disso, aqui os caminhos diversos escolhidos pelos autores da nouvelle vague se desenham com muita clareza.

Não só os dois. Também Rivette, Rohmer, Chabrol têm modos de pensar e filmar próprios, pessoais, que passam a se mostrar com toda evidência.

O grupo, como tal, acabou de vez. A nouvelle vague não pode mais ser vista como tal.

Isso afeta mesmo os que estão próximos, como Demy, Varda, Resnais.

Da mesma forma, o mundo em que a NV se criou, o do gaullismo, deixa de existir após 68.

A história incide aqui, pesadamente, sobre a história do cinema. A ruptura do grupo, a percepção de que não existe unidade nenhuma ali, vem a partir de 68.

Antes tinham acontecido brigas sérias, como a demissão de Rohmer da direção dos Cahiers e sua substituição por Rivette. Mas mesmo essa mudança na revista foi encarada mais sob o ponto de vista da continuidade do que da ruptura.

O rompimento entre Godard e Truffaut, no entanto, envolve menos convicções políticas (Truffaut também mudou muito com 1968) do que cinematográficas. O fato de "A Noite Americana" ser uma espécie de elogio da ilusão cinematográfica me parece que tem um peso grande nisso.

De todo modo, ainda que correspondesse a um desejo, de Godard sobretudo, essa ruptura me parece muito dilacerante. É um fim de juventude, em todo caso.

Por Inácio Araujo às 13h59


31/05/2010

Clint Eastwood chega aos 80 anos, íntegro e coerente

 

E hoje, nem bem eu havia acordado, o Giannini me liga em estado de euforia: “Sabia que hoje o Clint faz 80 anos”? E daí?

O Manoel de Oliveira está com 102. E este parece ser o ano dos 80 anos. Chabrol em junho. Godard em dezembro.

Mas, ok, existe algo especial no aniversário de Clint.

Ele me lembra uma coisa que disse Rossellini: o mais importante para um diretor de cinema é manter-se livre.

Diante de um colega que se queixou da falta de liberdade que sentia, Clint respondeu mais ou menos o seguinte: ninguém te obriga a nada.

Quer dizer: a liberdade é uma batalha. Não tem essa de ficar reclamando pelas costas e dizendo sim senhor ao produtor.

Isso é o que mais me impressiona no Clint. A imensa coerência. Ok, ela é maior e mais irretocável hoje. Mas as coisas em que acredita ou acreditou estão em seus filmes desde “Play Misty for Me” (Perversa Paixão), sua estréia como diretor, em 1971, por aí.

Ora, elas estão de forma ainda mais intensa.

“Gran Torino”, para ficar com sua obra-prima mais recente, é uma retomada de parte considerável de sua vida. É uma espécie de Dirty Harry renascido num subúrbio de Detroit, mas agora incapaz de conceber a salvação do que quer que seja por sua ação.

Nada. Existe decadência, desindustrialização. Existe perda de um espírito que fez a grandeza da América e que o veterano de guerra acredita que está dita cuja, na guerra, na discriminação, na negação do outro.

Mas é o perfeito contrário: é na aceitação da convivência que está esse espirito, porque o americano puro que ele julga ser não passa de um Kowalski, de um polaco. Não é tão diferente de chineses, latinos, coreanos.

O que existe agora, para esse moralista que é Clint, é uma derrota da civilização.

Não há herói que reponha as coisas nos eixos, a não ser nos filmes 3D, nas HQs, nessas fantasias.

Ser fiel a si mesmo, ser fiel ao mundo que conheceu, ser fiel ao cinema, evocar essa grande tradição da imagem na América, essa é a tarefa a que Clint se designou.

Não, não é fácil chegar íntegro aos 80, não nos EUA, onde a indústria existe para boicotar cada autor, para dobrá-lo. E Clint chega com a força de seus pistoleiros.

Por Inácio Araujo às 15h15


30/05/2010

Godard + Truffaut = nascimento do novo cinema

 

É uma longa, intensa, estranha amizade, a de François Truffaut e Jean-Luc Godard, apresentada em “Godard, Truffaut, Nouvelle Vague”.

 

Mais do que a amizade, no entanto, é do cinema moderno que se trata. Dele, os dois são nomes fundamentais, assim como o movimento de que foram os nomes mais destacados.

 

O filme os mostra desde o fim dos anos 40, tempo dos cineclubes, depois quando eram críticos da Cahiers du Cinema, e quando passam à direção.

 

Truffaut destaca-se primeiro, com “Os Incompreendidos”, filme que lança a Nouvelle Vague. Godard vem a seguir, com “Acossado”.

 

As diferenças entre ambos talvez já estivessem aí. Truffaut é mais clássico (será sempre o mais clássico na NV). Godard, de uma inquietude assombrosa.

 

Mas ambos estão, nesse momento, unidíssimos. Inclusive é Truffaut (com Chabrol) quem avaliza a aventura de “Acossado”. O que os une é a idéia de autor, que desenvolviam desde os tempos da revista, e que vai trazer uma mudança profunda na maneira de encarar o cinema.

 

Não mais uma arte de conjunto, mas a arte de um, de um artista total: aquele que toma as decisões, que escreve o filme.

 

O melhor do documentário vem quando trata do curta que fizeram juntos, “História da Água”. Mas não fizeram juntos, a rigor. Houve uma grande enchente. Truffaut decidiu filmá-la. Mas depois não sabia o que fazer com o material. Godard pegou e montou.

 

De certa forma está aí desenhada a personalidade artística dos dois e suas diferenças. Truffaut precisava de um ambiente mais “sob controle”. Godard, ao contrário, dava o melhor de si, o sentido último das coisas, na articulação entre as imagens, na sala de montagem. Godard precisava trabalhar como trabalhava: sem roteiro, escrevendo os diálogos pouco antes da filmagem.

 

Em 1968, as diferenças afloram com violência. Godard se engaja à esquerda, maoísta. Renega a idéia de autor como burguesa. Os dois se afastam. É a fratura da nouvelle vague. Godard sai do circuito, mas, paradoxalmente, aí vira uma espécie de popstar, ainda que à revelia, das universidades americanas. 

 

Vamos ficar por aqui. Repito, trata-se de um documentário sensacional.

 

Depois eu volto ao assunto, que é amplo, que envolve nossa compreensão de todo o cinema moderno.

 

Só para fechar, convém lembrar que Antoine de Baecque, o roteirista, é biógrafo de Godard e de Truffaut, além de ter escrito a história dos Cahiers du Cinema, o que lhe dá uma posição privilegiada para tratar do assunto.

  

Por Inácio Araujo às 12h46


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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