UOL Cinema

27/03/2010

Nardoni: um julgamento e um linchamento

 

O que me impressionou realmente nesse julgamento do caso Nardoni foi a existência de, digamos, dois juízos.

Um se realizava lá dentro e desse eu não entendo bulhufas.

O segundo, e mais impressionante, andou pela televisão, e diz respeito ao lumpesinato que ficou na porta do tribunal, ora aplaudindo o promotor, ora agredindo o defensor, ou ainda xingando os réus etc.

Uma coisa meio circense, não há dúvida, mas muito sintomática da exasperação das pessoas e do tipo de percepção que se tem da Justiça.

Em poucas palavras: o que se pensa é que não há justiça. Ponto.

Não há como dizer que estejam muito errados, nesse particular.

Ao mesmo tempo, não era justiça que pediam, era vingança. Ou seja, aparência de justiça.

Não se tratava de julgar os réus, mas de condená-los.

O linchamento é um pouco isso. Está no "Fúria" do Fritz Lang.

À custa de instituições que não funcionam, que são cheias de desequilíbrios, à custa de exasperação, acabamos virando um povo de linchadores.

E o linchamento é a massa solta com toda irracionalidade solta.

O que significa, hoje em dia, uma massa que cultua as aparências, a epiderme, aquilo que aparece na TV.

Um que seria linchado, se pudessem: o matemático russo que resolveu a Hipótese Poincaré e nem por isso mostrou a cara, não foi receber seu milhão, mandou todo mundo plantar batata, não aceitou empregão. Esse foge ao padrão. Total.

Por Inácio Araujo às 21h01


25/03/2010

A cultura e seu déficit

 

Como tudo que vem da Inglaterra carrega um arzinho de superioridade, o chefão da cultura do Reino Unido não podia fugir à norma.

O que eu mais gostei dele foi o nome: Michael Elliott.

Ele chegou e disse em outras palavras que achou tudo meio exótico no nosso modo de financiamento da cultura (por renúncia fiscal), sendo que lá o sistema é de financiamento público.

Também achou muito estranho esse negócio de termos um ministério ou secretaria só para Cultura.

O que importa nisso tudo é o que podemos aprender com ele.

Primeiro: cai o mito de que os adiantados anglo-saxões financiam toda sua cultura a poder de iniciativa privada.

Nos EUA os fundos privados prevalecem.Os milionários morrem e doam fortunas a museus e faculdades.

Até aqui vendia-se a idéia de que o financiamento público era mais um atraso de vida que herdáramos da Revolução Francesa e dos franceses ultrapassados.

Bem, essa conversa mole vai por terra.

O que Elliott nos ensina, basicamente, é que cada país vai criar sua própria linguagem, sua própria maneira de ser, aquela com a qual funciona.

Pelo que entendi, para ele e para os ingleses educação e cultura são uma coisa só. Aqui já foi assim.

Aliás, mais remotamente, houve até o Ministério da Educação e Saúde - uma coisa e outra não se distinguiam (como educar sem saúde de base?)

Houve um tempo também em que Turismo, Cultura e Esporte estavam no mesmo saco. Aí já é francamente surrealista.

Ou antes, esse último, do tempo dos militares, expressa bem a desimportância que se dá à cultura.

Porque o fato é o seguinte. Os ingleses têm um jeito, os franceses, outro, os americanos outro.

Mas só o Brasil tem uma lei de incentivos fiscais em que os filmes, se a coisa fosse para valer, deviam ser proibidos pela Lei Cidade Limpa, porque é uma coisa ridícula aquele início dos nossos filmes trazendo lá Eletrobrás, Petrobrás, Casas Pernambucanas, gasolina Shell.

Não dá para levar a sério o que vem depois.

Agora, me parece que o Michael Elliott (não me conformo, o nome dele parece pseudônimo de ator italiano do tempo do western spaghetti), a visita dele, nos lembra de que o mundo, ao contrário da ordem ministerial, não se faz por fatias. Muito bem que educação, saúde, cultura sejam ministérios separados.

Mas o fulano, o cidadão, precisa dessas três coisas de uma só vez.

Michael Elliott está batalhando para que cada criança tenha direito a cinco horas de atividades culturais por semana.

Bem, é formidável. O problema é que, para aplicar uma idéia dessa por aqui, seria preciso prover os educadores de uma formação cultural que eles próprios não possuem, a maior parte deles, porque também foram educados num sistema capenga.

Seja como for, é absolutamente necessário enterrar idéias que não correspondem à nossa experiência, por um lado, acabar com esse palhaçada de que mercado e cultura são a mesma coisa. Não são. Você pode passar um século sem pôr os pés na Pinacoteca. As coisas continuarão a existir. Já se você perder o BBB aquilo vai desaparecer, bum, como se nunca tivesse existido, porque é feito para isso mesmo, para a inexistência. Então as coisas têm naturezas diferentes e têm de ser  vistas assim.

O fato é que a cultura pode estar no ministério próprio, junto com a educação, a saúde, o planejamento, o que for: o que não se pode é continuar permitindo que as pessoas não tenham acesso a bens culturais, quer dizer, nem saibam o que é isso, vivam desprovidos disso e, quando o país precisa de gente que saiba interpretar um texto é aquela coisa.

Porque a corda vai apertar no pescoço já do próximo governo, se tudo der certo, seja ele qual for. O déficit das elites em relação à cultura das pessoas, que em outras palavras é a disposição a propiciar felicidade às pessoas, é brutal.

Por Inácio Araujo às 12h49


23/03/2010

O caso Nardoni: julgamento sem imagens

 

Até onde me lembro, os tribunais nunca permitiram imagens.

Recentemente, os tribunais maiores (STF) começaram eles mesmos a patrocinar essa aproximação entre os juízos da justiça e o dos leigos.

E aí virou uma coisa estranha, com cara no botequim falando mal do Gilmar ou bem da Ellen Gracie, ou vice-versa.

Nos tornamos todos juristas instantâneos.

Mas no julgamento dos Nardoni prevalece a tradição. Apenas relatos dos repórteres e uns míseros desenhos, imperfeitos, parciais, para saciar a enorme sede de imagens do público.

Eles estão do lado de fora, carregando cartazes etc. e tal.

Mas ver que é bom não se vê nada.

De repente, a população se vê em estado de privação.

Nosso hábito da novela, do big brother, do replay em câmera lenta, da mesa redonda: tudo, absolutamente tudo foi suprimido.

E isso considerando que tudo já chegou aqui como o capítulo final de uma novela em que temos vítima e culpados, maquinações, ciúmes, amores clandestinos.

Só é certo que não há herói, ao menos por enquanto, para ser homenageado no fim.

Não se pede pena para os talvez culpados.

Vingança é a palavra de ordem nesta ordem cega, sem imagens, em que, em compensação, as imaginações trabalham febrilmente.

Por Inácio Araujo às 14h49


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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