UOL Cinema

19/01/2010

Rohmer, o libertador

 

A primeira vez que gostei, realmente, do cinema de Eric Rohmer foi vendo "O Amor à Tarde", isso nos anos 70.

Na minha frente havia alguém se mexendo, inquieto com tudo aquilo. Na saída descobri que era o Khouri, o bom Walter, grande diretor, mas a antítese do que Rohmer poderia propor.

No Amor à Tarde, uma velha e bela amiga de um homem hoje casado se põe a paquerá-lo.

Em qualquer outro filme, de qualquer outro diretor, o cara iria direto para a cama com a garota. Não no Rohmer. Ele resiste, pois tem um compromisso. Mas ela é o máximo... E insistente...

E nisso as coisas vão.

E o Khouri furibundo na saída com esses filmes em que se fala fala e não acontece nada.

Bem, nesse dia eu entendi que esse filme ia na direção contrária da idéia do francês erótico. Mas o que mais importou para mim foi descobrir que quando uma paquera não dá certo isso não se deve necessariamente a nós e a nossas deficiências, nem a qualquer outra questão psicológica. O mundo é assim, meio surpreendente, meio estranho quando tende a ser óbvio e, talvez, vice-versa.

Mais algum tempo e, quando a modernidade e a poesia eram deusas veneradas por mais ou menos todo mundo no cinema, leio uma entrevista dele com o pessoal dos "Cahiers" e quase esborrachei de rir.

A horas tantas um deles dizia mais ou menos o seguinte: O que a gente aprecia no seu cinema é que não existe transparência, a gente sente todo o tempo o trabalho da câmera.

E o Rohmer: Ah, então eu devo estar fazendo tudo errado. Eu quero que minha câmera seja imperceptível.

E ia por aí. À idéia de que os filmes não podiam mais ser lineares ele opunha a cronologia; quando lhe falavam de poesia, ele respondia falando de prosa; quando falavam em filmar pensamentos, ele dizia que isso não existe.

Não é preciso concordar com tudo. A independência, a audácia, o dar de ombros às modas era a lição fundamental: nunca correr atrás dos outros.

Anos mais tarde eu mostrei um projeto de tese que havia escrito ao Jean Douchet, que era muito próximo do Rohmer. Não serei modesto a ponto de dizer que ele não me elogiou (não sei se foi sincero, é outra história). Ele falou mais ou menos o seguinte: Oxalá todas as teses fossem assim!

Depois virou e completou: Agora, essa parte de semiologia que você colocou aí, é melhor jogar tudo fora. Está provado que não funciona no cinema".

Também acho que estava certo.

Bem, Rohmer morreu agora em janeiro. Já escrevi muito sobre seus filmes e admiro muito certas idéias, que trombam com todas as facilidades que o cinema toma para si.

Por exemplo, dizia ele: ao adaptar uma obra clássica, a única maneira de ser moderno é permanecer o mais fiel possível à época representada.

Se Guy Ritchie tivesse dado ouvidos a ele não faria um Sherlock Holmes idiota como fez.

Enfim, o que quero dizer: não tenho mais nada a dizer sobre Rohmer. Queria ler idéias outras, outros pensamentos, como uma vez li um texto muito bacana de uma moça cujo nome não me lembro na revista do Sergio Alpendre, a Paisà.

Queria sobretudo que alguns de seus filmes recentes pudessem ser vistos aqui, como Agente Triplo, que eu achei espetacular (espionagem falada!).

Boa posteridade!

Por Inácio Araujo às 18h52


18/01/2010

"Avatar" ou o elogio da liberdade

 

Aqui e ali leio que "Avatar" não passa de uma coleção de clichês. O filme mais desinteressante do mundo.

O que são esses clichês? Coisas como: o homem tem mais a temer da sua ciência e de si mesmo do que da natureza.

O militarismo é a ponta de lança das grandes corporações e tem na ciência uma espécie de subalterna um tanto inconsciente.

Algumas dessas coisas são evidentes e estão no filme de James Cameron. Todo filme grande precisa de formulações evidentes, às quais o espectador possa se identificar para funcionar. Todo bom filme grande os reinventa, os mostra sob uma ótica diferente, fresca.

Na verdade, em geral quem reclama desses clichês são reacionários. Reacionários só admitem dizer coisas como "não há almoço grátis". Isso não lhes soa como um clichê. Parece-lhes uma verdade que se repete eternamente, só isso.

Os clichês pertencem sempre ao outro. E o outro é necessariamente de esquerda, nesse caso. Essa direita só é capaz de raciocinar em termos de caça às bruxas.

Os comunistas desapareceram, todos pensávamos.

Não, eles estão apenas disfarçados, moitados, esperando para atacar. Tornaram-se perigosos ecologistas, prontos a colocar a natureza acima dos homens, a preservação acima do progresso etc. etc.

Bem, eu acho tudo isso uma grandíssima bobagem. Ou por outra, a relação militarismo/corporações/ciência me parece muito bem descrita no filme.

A ameaça maior não é a natureza, é a ciência. Ela é que cria os meios de destruição e em dado momentos os torna quase ilimitados.

No filme, existe um planeta ameaçado pelos homens, por possuir uma fonte de energia fabulosa, cobiçada pelos homens (ou seja, por uma grande corporação).

Na expedição vai também um soldado (Jorge Coli a comparou a uma expedição contra Canudos, o que faz todo o sentido). Esse soldado esteve, presumivelmente, numa dessas guerras inglórias em que os americanos se metem e ficou sem os movimentos dos membros inferiores. Mas ainda é um soldado.

Ora, quando se vê no novo planeta, duplicado, dotado de uma segunda vida em que tem seu corpo vivo integralmente, ele se verá maravilhado. Seu corpo se confunde com a visão que tem do planeta, Na'vi, se não estou enganado. Ele pode andar e pular.

Não será difícil, portanto, trair seus semelhantes, passar para o outro lado, defender esse planeta atacado em sua beleza e integridade.

Ali vive uma civilização primitiva. Em que é primitiva? Ela se conecta de maneira enérgica com a natureza. Seu grande desafio é sobreviver à natureza. Existe ali um animal alado que deve ser dominado para que se submeta ao sujeito. É preciso domá-lo como, no século 19 e no faroeste do século 20 se fazia.

É uma civilização da liberdade que se confronta com uma civilização da técnica irrestrita, ilimitada, acrítica, arrogante e destrutiva.

Não é tão diferente do "Titanic", afinal de contas: essa mesma autoconfiança sem fim, essa mesma crença na eficiência, essa mesma incapacidade de observar a realidade sob outros ângulos que não o da estrita competência (e de uma competência limitada, localizada, tacanhamente especializada) é que leva ao desastre.

Em "Avatar" não é tão diferente assim. É claro, existe uma civilização-espelho no filme. Mas essa civilização é, em grande medida, a própria América. Encarna certos valores da América (digo, EUA), como o culto à liberdade, bem mais do que os militares e cientistas, que são degenerações desse espírito.

E já que não existe natureza por aqui, ou quase, busca-se em outro planeta, onde a sobrevivência na natureza parece expressar a própria natureza dos seres: são feitos para viver numa natureza que é preciso dominar, saber dominar sem destruir. Porque o bicho em que voam (que é como o cavalo do cowboy) é seu meio de transporte. Não pode ser aniquilado.

Cameron não é um cínico. É um moralista na tradição americana, como John Ford. Ele não acredita em grandes homens, ao menos não naqueles vendidos como grandes homens. Seus grandes homens são obscuros, mas são de um modo ou de outro incorruptíveis. Não sabem fazer senão o que lhes parece certo. Eles não degeneram. A ciência hesita, porque a ciência já não conhece moral: ela só sabe caminhar, sem refletir sobre o caminho ou o destino. É o que faz Sigourney Weaver no filme.

Um filme que se descobre aos poucos. Que se entrega a nós aos poucos. Um elogio da liberdade contra uma civilização onde a liberdade tornou-se apenas uma palavra vazia. Um clîchê.

Um filme belo, livre.

Ah, mas então tudo isso é oportunismo para ganhar dinheiro às custas da floresta, da liberdade, etc. E daí? Só se pode ganhar dinheiro fazendo o elogio do militarismo? Isso está escrito em algum lugar? Trata-se de uma lei? Não há. Tudo isso não passa de mero juízo de intenção. Então toca o bonde.

Por Inácio Araujo às 00h23


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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