Rohmer, o libertador

A primeira vez que gostei, realmente, do cinema de Eric Rohmer foi vendo "O Amor à Tarde", isso nos anos 70.
Na minha frente havia alguém se mexendo, inquieto com tudo aquilo. Na saída descobri que era o Khouri, o bom Walter, grande diretor, mas a antítese do que Rohmer poderia propor.
No Amor à Tarde, uma velha e bela amiga de um homem hoje casado se põe a paquerá-lo.
Em qualquer outro filme, de qualquer outro diretor, o cara iria direto para a cama com a garota. Não no Rohmer. Ele resiste, pois tem um compromisso. Mas ela é o máximo... E insistente...
E nisso as coisas vão.
E o Khouri furibundo na saída com esses filmes em que se fala fala e não acontece nada.
Bem, nesse dia eu entendi que esse filme ia na direção contrária da idéia do francês erótico. Mas o que mais importou para mim foi descobrir que quando uma paquera não dá certo isso não se deve necessariamente a nós e a nossas deficiências, nem a qualquer outra questão psicológica. O mundo é assim, meio surpreendente, meio estranho quando tende a ser óbvio e, talvez, vice-versa.
Mais algum tempo e, quando a modernidade e a poesia eram deusas veneradas por mais ou menos todo mundo no cinema, leio uma entrevista dele com o pessoal dos "Cahiers" e quase esborrachei de rir.
A horas tantas um deles dizia mais ou menos o seguinte: O que a gente aprecia no seu cinema é que não existe transparência, a gente sente todo o tempo o trabalho da câmera.
E o Rohmer: Ah, então eu devo estar fazendo tudo errado. Eu quero que minha câmera seja imperceptível.
E ia por aí. À idéia de que os filmes não podiam mais ser lineares ele opunha a cronologia; quando lhe falavam de poesia, ele respondia falando de prosa; quando falavam em filmar pensamentos, ele dizia que isso não existe.
Não é preciso concordar com tudo. A independência, a audácia, o dar de ombros às modas era a lição fundamental: nunca correr atrás dos outros.
Anos mais tarde eu mostrei um projeto de tese que havia escrito ao Jean Douchet, que era muito próximo do Rohmer. Não serei modesto a ponto de dizer que ele não me elogiou (não sei se foi sincero, é outra história). Ele falou mais ou menos o seguinte: Oxalá todas as teses fossem assim!
Depois virou e completou: Agora, essa parte de semiologia que você colocou aí, é melhor jogar tudo fora. Está provado que não funciona no cinema".
Também acho que estava certo.
Bem, Rohmer morreu agora em janeiro. Já escrevi muito sobre seus filmes e admiro muito certas idéias, que trombam com todas as facilidades que o cinema toma para si.
Por exemplo, dizia ele: ao adaptar uma obra clássica, a única maneira de ser moderno é permanecer o mais fiel possível à época representada.
Se Guy Ritchie tivesse dado ouvidos a ele não faria um Sherlock Holmes idiota como fez.
Enfim, o que quero dizer: não tenho mais nada a dizer sobre Rohmer. Queria ler idéias outras, outros pensamentos, como uma vez li um texto muito bacana de uma moça cujo nome não me lembro na revista do Sergio Alpendre, a Paisà.
Queria sobretudo que alguns de seus filmes recentes pudessem ser vistos aqui, como Agente Triplo, que eu achei espetacular (espionagem falada!).
Boa posteridade!
Por Inácio Araujo às 18h52

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