UOL Cinema

18/12/2009

O cinema não pensa, o cinema mostra

 

Queria só dizer algo sobre "É Proibido Fumar", mas acho que terei de defender "É Proibido Fumar"

Por onde começar?

De todo modo "é a forma que eleva e que educa", disse Robert Bresson.

Estou partindo de algum lugar, não sei. Estou voltando a "É Proibido Fumar".

Perguntando o que, afinal, é arte?

Por que uma coisa é arte e outra não é?

O que diferencia um retrato de Rembrandt de um do Roberto Camasmie?

Um texto do Kafka de um da Danielle Steel.

Estou partindo de alguns comentários no blog. Não sei aonde vou chegar.

Começo por alguém que escreveu dizendo que um toque de um carro não dá pra matar ninguém.

Ora, eu poderia responder o seguinte: sim, e saltar de 500 metros e sobreviver, como faz Harrison Ford em "O Fugitivo", dá?

Isso quer dizer que não vale a pena ver "O Fugitivo"?

Claro que não, é um baita filme. Mas não se trata de "perdoar" o filme por aquela cena. O filme existe por causa dela.

A vida é inesperada. Sei de gente que caiu de cinco andares e só quebrou uma costela.

É a mesma coisa com "É Proibido" com a morte/acidente.

Uma ficção só existe em torno e em função de coisas inusuais. Senão, qual é a graça?

Pode-se objetar que também deve transmitir verdade, que se não temos o sentimento da verdade, não adianta.

Então eu volto ao Jorge Luis Borges. Ele tenta definir arte. E conclui que arte é aquilo que nos faz felizes.

Curto e grosso. Não adianta nada alguém dizer que arte é "Cidadão Kane" se eu olhar para aquilo e não me sentir feliz.

Ao mesmo tempo, acho que não dá para se dar ao conforto de olhar para o filme, o "Kane", por exemplo, e simplesmente dizer: ah, esse cara não sabe o que faz, ele enrola tudo, bota o fim no começo, o começo no fim etc.

Quem se conforma fácil assim vira preguiçoso e só consegue engolir o que já vem mastigado.

Ou seja: a norma.

O que é a norma no cinema? Um caso. No cinema clássico só se usava um close em momentos de máxima dramaticidade. O close era tanto melhor quanto fosse reservado a esses pontos altos do filme.

Se vc. estacionar nesse critério, quando entra o Sergio Leone, digamos, que só filma faroeste em close, ou o Bergman, ou um cara assim, vc. vai dizer: está tudo errado.

Não está. É que o cinema moderno abandonou certas normas tradicionais, então a escrita é diferente, não tem mais regras.

Em tudo é assim. Me parece bobo aquele escritor, Tom Wolfe, chegar e dizer, com ar de quem descobre a pólvora, que o cubismo só existiu porque o Picasso não sabia desenhar.

É achar que a arte não tem nenhuma relação com o mundo, com a vida, é coisa sem significado. Ele pensa que a pintura continuaria a representar objetos e pessoas depois do cinema e da fotografia, o que é ridículo.

Com o cinema nacional às vezes não é muito diferente.

Parte-se do princípio de que o cara não entende nada do que faz e que nós estamos aí para corrigi-lo.

E não de que, diante de uma obra de arte, devemos lutar para, ao menos, tentar entendê-la.

Mas chega disso. Quero falar do cinema da Anna Muylaert. Ela fez um telefilme, "Para Aceitá-la Continue na Linha". Achei tão interessante que, se esse projeto de telefilme da TV Cultura (e, se não me engano, da SEC) não der em mais nada já terá valido a pena.

Bem, a horas tantas há duas irmãs conversando. Uma é magrinha, a outra é gorda. E a primeira reação é de estranhamento. Como assim, irmãs? São tão diferentes. Depois a gente lembra desses irmãos que não têm rigorosamente nada a ver um com o outro. Um é baixo, outro é alto, um é moreno, outro é loiro. E assim vai.

Ela não faz disso um tema. Bota lá e pronto. É uma relação com as coisas, direta. Com a observação das coisas.

Ela evita dramatizar. Imagine alguém que chantageia seu marido. O marido vem e conta para a mulher. Ela se descabela. Chora à noite. O marido não consegue dormir à noite, pensa em maneiras de calar o chantagista para sempre etc. etc.

Isso é o de sempre.

A Muyalert não faz assim. Ela retira toda dramaticidade. Se bobear, bota uma piada no meio.

Ela é da escola do Hawks: o que é é.

Cinema da matéria. Sem psicologia, sem idéias. A matéria.

Não precisa de psicologia. Ela filma os mais belos quintais que eu já vi. É uma especialista em filmar exterior-fundos: o pátio do prédio, a rua de trás.

Parece fácil. Só parece.

A arte da contenção é difícil, porque é rigorosa.

Nada de fazer um geral da av. Rebouças congestionada, gente xingando, o rádio falando do congestionamento, um flash back com o cara guiando sem trânsito nenhum às duas da manhã.

Outra coisa.

Uma placa indica a rua. Um plano fechado dos carros que se movem para a frente, uns perto dos outros. A câmera os acompanha, apenas. Não comenta, nada. Mostra.

Para começar, não tem flash back. É só o momento. O que acontece.

Parece fácil, mas não é. Porque é superficial. E ser superficial não é fácil, porque você tem de mostrar o mundo a partir das roupas, dos rostos, dos carros, dos gestos.

Parece que não tem conteúdo. O Hawks também não parecia. O Rohmer também não. O Renoir idem. Os cineastas desse tipo parece que são meio banais.

É preciso esperar, deixar que o filme viva com você um pouco. Porque não é para pensar a respeito. Não há o que pensar.

"O cinema não diz, o cinema não pensa, o cinema mostra", Eric Rohmer disse.

Então a gente tem, como dizia o Mizoguchi, que a cada dia levantar e lavar os olhos, para ver quando as coisas modernas estão na nossa frente.

Meu Deus, eu estou ficando sentencioso. Vamos parar já.

Por Inácio Araujo às 09h56


16/12/2009

É proibido não ver "É Proibido Fumar"

 

Só ontem consegui ver "É Proibido Fumar".

Achei formidável, sensibilíssimo, inteligentíssimo, um desses filmes que não vale a pena perder, não vale a pena esperar pelo DVD, nada.

Quero voltar a ele.

Por ora, fica só a lembrança: filme brasileiro bom desaparece de cartaz com uma facilidade absurda.

(O título é só brincadeira, claro: nada é obrigatório por aqui).

Por Inácio Araujo às 10h15


14/12/2009

Em "Avatar" há cinema por todo lado

 

"Vamos combater o terror com o terror", lança o milico que comanda as ações militares no planeta Pandora.

O que tinha acontecido antes? Os nativos haviam jogado umas pobres flechas ou algo assim contra os terráqueos.

Nesses momentos, "Avatar" já diz mais ou menos o que pensa, no que pensa e como pensa.

O militar, um coronel, é uma caricatura de militar. Mas, caramba, é isso que em geral os militares são: caricaturas da ideia de militar.

Este confirma tudo: o desejo de destruição é o que o move.

No mais, o filme pode ser acusado de um pouco up to date demais. Ele todo é uma defesa da natureza contra a intromissão destrutiva do homem.

Uma defesa dos nativos, de sua cultura, contra a suposta superioridade terráquea (ou seja, ocidental).

Desta vez, o mundo não está acabando, nem somos invadidos por seres mais poderosos. Os poderosos somos nós. Mas esse poder não serve para nada.

A narrativa é complexa e bem resolvida. Cameron não é qualquer um, se é que havia alguma dúvida.

As imagens são muito vivas, em termos de 3D, há muita movimentação, muita batalha, o que eu acho que vai animar a garotada.

Ao mesmo tempo, há coisas que nesta primeira visão me pareceram incômodas.

Primeiro, no geral, me pareceu que o filme seria tão bom com ou sem o 3D. Às vezes eu tirava os óculos para dar uma olhada e, quase sempre, o efeito de profundidade me parecia mais verdadeiro, ou pelo menos mais confortável no velho 2D.

A fábula narrada diz respeito à preservação da natureza, ao poder destrutivo do homem ocidental, a sua cobiça infinita, à guerra levada com objetivos econômicos disfarçados de razões elevadas (ciência, liberdade, etc.).

Tudo é muito nobre, mas também tudo é de leitura muito fácil, muito imediata. "Titanic" cresceu muito com o tempo, na minha compreensão. Este é imediatamente compreensível, não sei se haverá como crescer.

Mas é interessante ver um filme que parece misturar Rousseau com Lévy-Strauss. Os selvagens são bons selvagens, que vivem em união com a natureza. E não deveriam nem ser contactados. Nossa idéia de superioridade cultural do Ocidente é bem condenada.

Minha simpatia por essas idéias não poderia ser maior, contra o brucutismo reacionário que anda em vigor hoje em dia.

Mas me pergunto se tanto zelo em estar na ordem do dia não termina por achatar um pouco o filme. Se a alegoria não é legível demais.

Enfim, um filme que desconcerta em vários aspectos.

Será o divisor de águas, parece, a partir do qual a indústria (leia-se: Hollywood) investirá de imediato e pesadamente, ou não, na nova tecnologia.

Em todo caso, hoje que os efeitos digitais são algo mais ou menos partilhado por todo mundo, em que o blockbuster está meio devagar, sem grandes invenções, "Avatar" e o 3D surgem como uma maneira de manter o lugar do sonho cinematográfico intacto.

Aliás, a bem dizer, toda a história narrada não é senão um sonho, não é senão cinema: das idéias ao 3D neste filme há cinema por todo lado. 

Por Inácio Araujo às 17h27


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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