UOL Cinema

11/12/2009

"Woodstock", uma lição de política

 

A cena de "Aconteceu em Woodstock" que possivelmente ficará por muito tempo gravada em minha memória é a do helicóptero que desce no gramado de um motel vagabundo numa cidadezinha americana.

De lá desce um grupo de jovens meio hippies que querem fazer um festival de música.

Logo atrás vêm os homens de preto, digo, os homens de terno. Parecem E.Ts. naquela paisagem, mas, ninguém duvide: são eles que mandam.

São os homens do negócio.

O espetáculo vai na frente, como porta-bandeira. Atrás, discretos (quase invisíveis, não fossem seus ternos) seguem os homens do negócio.

Ou: a superestrutura vai na frente, a estrutura, atrás.

Talvez tenha sido esse o verdadeiro erro dos comunistas: achar que a arte devia obedecer à política ou à economia.

Por isso nunca se entenderam com a arte (exceto na época meio anarquista da Revolução), nem nunca entenderam a arte, e deram com os burros n'água.

A política pode entender "as massas", mas não entende as pessoas. A política serve para fazer revolução ou ganhar eleições. Mas as pessoas vivem no dia a dia.

A vantagem do capitalismo é essa: a vanguarda é o artista, o criador, o cientista.

Eles é que entendem as pessoas. Os homens de preto vêm atrás. Eles podem odiar os hippies, os beatniks, os negros, os ciganos, o que for. Se der lucro, eles vão atrás.

Não sei se é o melhor dos mundos. É o mundo como se apresenta.

Ou será que estou delirando?

Por Inácio Araujo às 20h25


08/12/2009

"Boilesen" segue os rastros de ódio

"Cidadão Boilesen" é surpreendente.

Não conheço Chaim Litewski, o diretor do filme, nem seu trabalho anterior, mas o que ele fez aqui é muito significativo.

Primeiro: focalizou um personagem de quem se falava muito no passado: Boilesen, diretor ou presidente da Ultragaz, que não apenas financiava a tortura como participava das sessões, tendo inclusive introduzido no Brasil um aparelho de tortura. Foi morto em 1971 por militantes de esquerda.

O trabalho gira em torno de dois eixos principais, até onde pude entender: a reconstituição da vida e da personalidade de Boilesen e um levantamento (sobretudo iconográfico) da época.

A armação muito boa da trama leva essas duas partes a se encontrarem, compondo um retrato do personagem a partir da época e vice-versa.

A personalidade dele é interessante, parece dupla: um bom sujeito, por um lado, trabalhador, alegre, amigo etc. Por outro, inimigo feroz do comunismo e dos comunistas. Aí entra o que alguém chama de "lado negro". "Metade negra", diria George Romero.

Estar numa sala de tortura, ver tudo aquilo por mero prazer é algo quase inconcebível. É repugnante. Ele era um homem de prestígio, bonito, rico... Que desvio seria esse?

Ao se questionar sobre isso, o filme ultrapassa a dimensão pessoal para tocar aspectos delicados e de certo modo secretos de nossa ditadura, como a colaboração econômica dos empresários com a repressão. Fernando Henrique Cardoso analisa muito bem a questão e diz, entre outras, que não se tratava de uma contribuição necessária (isto é, o governo tinha dinheiro para financiá-la), mas uma forma de estabelecer um vínculo, um compromisso entre vanguarda civil (industriais) e governo militar.

A capacidade de nos restituir uma época, a maneira como foi vivida, os medos, dores e apreensões que suscitou, é tão maior quanto o documentário é destituído de ressentimentos. Não se trata de "acerto de contas", "denúnica" e tudo isso que tantas vezes arruinou filmes sobre o assunto.

Aparentemente, seu autor não passou por aquela época, não endeusa os líderes estudantis e/ou exilados, também não tem nenhum apreço pelos militares, nada. Todos se expressam, se mostram: Passarinho, Erasmo Dias, torturadores em geral, ex-governadores, ex-militantes, arcebispos, o filho de Boilensen, o amigo dinamarquês etc.

Na parte de documentação, o principal vem das fotos, dando conta das carrancas que caracterizaram a época, da infelicidade contida das pessoas daquele momento.

A intromissão de alguns filmes de ficção é talvez a parte mais fraca (sem contar a ida à escola dele na Dinamarca, que devia ter sido cortada). Ali está esse "fake" tão frequente, que coincide com uma necessidade tão sentida de expressar aquela realidade que com frequência ela passa à frente da realidade.

Aqui não há ressentimentos, não há discursos, mas há bastante exatidão, sem falar do levantamento de uma época obscura e bem soterrada da vida brasileira.

O trailer fala em "encontro com a história". Acho que não está enganado.

Isso enquanto a nossa ficção passa boa parte do tempo inventando problemas que não existem, nunca existiram, jamais existirão. 

Por Inácio Araujo às 09h22


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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