UOL Cinema

04/12/2009

O público também tem de ajudar

 

Não faz tanto tempo assim, a imprensa era o lugar da indignação dos espectadores, privados da vanguarda cinematográfica pelos distribuidores, pelo controle completo de Hollywood sobre os cinemas etc. Falávamos dos filmes que chegavam com "X anos de atraso".

Nosso atraso parecia humilhante. Hoje a distribuição melhorou muito. Os filmes mais óbvios (tipo ganhador de Cannes ou Veneza) sempre chegam. Os Haneke etc. chegam. Os últimos japoneses descobertos também.

Mas quem os vê? Um ou outro fanático. Todo mundo parece satisfeito. Ninguém mais acha que estamos "atrasados".

Parece que os espectadores foram tomados por um vasto torpor, como se tivessem sido invadidos por corpos estranhos e substituídos por legumes.

Há qualquer coisa, hoje, que torna a ida ao cinema pouco urgente.

A única coisa que confere urgência às coisas é o marketing massivo. Ou seja: a garotada tem que ver "Lua Nova", senão vai se sentir por fora. É justo.

Mas não faz tanto tempo assim a gente se sentia por fora, também, se não fosse ver o último Brian De Palma. Agora, "Redacted" nem passou por aqui - e nem entrou em DVD.

Não faz tanto tempo assim (quer dizer, faz tempo paca, uns 25 anos) a Sala Cinemateca enchia para que as pessoas fossem ver um festival do Dreyer ou do Ozu. Não estou buscando exemplos ao acaso. Aconteceu isso de fato.

O interesse pelo cinema não decaiu. Ao contrário: a imagem é uma instância decisiva, cada vez mais.

Mas uma série de facilidades aconteceu que tornam a ida ao cinema menos urgente. Desde o DVD e a TV a cabo, passando pelo DVD pirata, isso tudo ajuda a amolecer o espectador.

Para os que fazem um acompanhamento mais cerrado, tanto da atualidade como do passado, existe essa possibilidade estrondosa, fabulosa, que são os sites de compartilhamento.

Eu não entendo disso, de baixar os filmes na internet. Mas graças a amigos pude ver tanto Redacted, do De Palma, como La Habanera, que é um Sirk alemão que eu não conhecia.

Tudo isso é fabuloso. Mas daí decorre que, se a gente não pode falar de filme, compartilhar (não só o filme físico como a experiência dele), trocar idéias, ele tende a inexistir. E se torna uma coisa de grupelho, de iniciados, uma espécie de seita.

Nota: para quem não conhece, o blog do Carlão é ótimo lugar para encontrar filmes raros, desaparecidos, fabulosos, mitológicos etc.

Também tenho tido boas experiências de revitalização dos cineclubes. Vejo o pessoal do Colégio Equipe, mas também o do clube Harmonia, fazer belas sessões. O Espaço Capobianco começou agora no fim do ano etc.

Aí é que o cinema vive. Porque o público do século 21 é que anda disposto a reduzi-lo à insignificância, a diversão que acompanha as compras do shopping.

As distribuidoras hoje trazem os filmes. Ok, o pessoal mais xiita reclama da projeção da Rain. Tem razão de reclamar. Mas eu sou do tempo em que quando sentava uma pessoa  mais alta na frente já não se via nada.

Meu lema: quem reclama da Rain é que nunca foi ao Cineclube do Bixiga, onde para ver a tela tinha que sentar na primeira fila.

Ouvir era outra história.

(não quer dizer que não se deva reclamar da Rain, que corta as laterais do filme como açougueiro corta os bifes).

Enfim, desculpem amigos, mas estou meio que vagabundeando hoje, meio desiludido com esses filmes fortes que entram, ficam uma semana em cartaz e depois já caem para duas sessões por dia, depois para uma e por fim desaparecem. No fim, parece normal que o cinema seja esse acúmulo de insignificâncias, de conformismos, de Emmerichs, de Nora Ephrons. Caramba! Dá pra ser melhor. Mas o público também de colaborar.

Por Inácio Araujo às 14h23


02/12/2009

Nora Ephron ou a água-com-açúcar em essência

 

À primeira vista "Julie & Julia" é um filme idiota, bem à altura de Nora Ephron.

Uma dona de casa de Queens, que se esfalfa num emprego estressante longe de casa, decide como modo de dar sentido à vida refazer, ao longo de um ano, todas as receitas de um famoso livro de culinária francesa (escrito por essa Julia, uma ou duas gerações atrás).

Julia começou a mexer com culinária para preencher o tempo, enquanto seu marido diplomata trabalhava em Paris no pós-guerra.

Em ambos os casos, o filme aponta para mulheres com um vazio essencial em suas vidas. Mudam as classes sociais, mudam os tempos, mudam os meios, mas o vazio permanece.

Julie vai preenchê-lo não apenas fazendo as receitas, mas publicando um blog sobre seu dia-a-dia culinário ou não.

É uma forma de buscar a celebridade, seu caminho como autora, de afirmar-se perante as amigas executivas cheias de poderes.

Uma moça definiu o filme assim: "Fofo. Até um pouco demais."

Admitamos: o mundo parece que anda em marcha à ré. Ao menos o mundo do cinema.

Hoje, o famoso água com açúcar dos filmes da Doris Day seria considerado uma ousadia, talvez até um pouco de mau gosto.

Nora Ephron é a mulher da hora: seu filme mal tem conflitos. É mais que fofo, parece um pastel de vento. Mas anda, tem público, ninguém rasga as poltronas no fim da exibição. Nada.

Há algo de perfeito nisso tudo.

Há toda uma mitologia do blog (Ephron já fez um filme sobre os e-mails) que é desenvolvida e justificada.

Ele não é um meio de comunicação, de partilhar experiências. O que Julie partilha é uma espécie de desexperiência.

Nos dois sentidos: ela se encontra numa situação desesperada e, francamente, fazer as receitas de um livro não é a experiência mais fascinante do mundo (o que fica claro no filme).

A comunicação desse vazio, no entanto, sua partilha com outras pessoas, o transforma, no entanto, numa espécie de fenômeno público.

De uma só tacada, Nora Ephron ilustra e justifica o nada, o vazio de nossas vidas (as femininas no caso), a comunicação desenfreada. Faz um filme que preenche todas as necessidades da indústria: o espectador alvo é alguém que não quer nenhum tipo de aborrecimento, nem de idéias, quando diante da tela.

Nora Ephron chega à essência do água-com-açúcar. Seu filme é recebido com "natural" condescendência. É uma campeã mundial da ideologia.

Por Inácio Araujo às 10h33


O que a imagem revela sobre o caso do DF

 

Vi todas ou quase todas as imagens que havia no Youtube sobre o escândalo envolvendo o governador do DF.

No fim não escolhi nenhuma, porque todas me parecem vazias.

Por favor, não entendam mal. O homem pode ser um sacripanta, é até provável que seja.

Mas as imagens não provam nada. O que significa um cara receber um maço de dinheiro? Francamente, nada!

Ou muita coisa. Coisas demais. Tire fora a narração. Não sobra nada.

Eu não estou fechando com o cara, não sei nada dele.

Estou fechando com o Cronenberg, que diz que, de todas as formas de tradução sensível da realidade, a imagem é a menos confiável.

Se a história contada for verdade espero que se prove devidamente, que ao menos se demonstre, porque estou cansado dessas conversas que a gente vê truncadas (ou lê as transcrições de conversas telefônicas), que todo mundo entende como evidentes, eu, com toda franqueza, na maior parte das vezes, não entendo bulhufas.

Em geral, acaba que, quanto mais a imagem passa, mais o efeito de choque da primeira exibição se exaure, mais se instaura a ambiguidade.

Não sei se é a PF ou a Justiça, mas elas acreditam na imagem como prova final.

A imagem é ótima para o noticiário. Para estabelecer a verdade ela também serve, mas é muito mais raro.

Por Inácio Araujo às 01h09


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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