O público também tem de ajudar
Não faz tanto tempo assim, a imprensa era o lugar da indignação dos espectadores, privados da vanguarda cinematográfica pelos distribuidores, pelo controle completo de Hollywood sobre os cinemas etc. Falávamos dos filmes que chegavam com "X anos de atraso".
Nosso atraso parecia humilhante. Hoje a distribuição melhorou muito. Os filmes mais óbvios (tipo ganhador de Cannes ou Veneza) sempre chegam. Os Haneke etc. chegam. Os últimos japoneses descobertos também.
Mas quem os vê? Um ou outro fanático. Todo mundo parece satisfeito. Ninguém mais acha que estamos "atrasados".
Parece que os espectadores foram tomados por um vasto torpor, como se tivessem sido invadidos por corpos estranhos e substituídos por legumes.
Há qualquer coisa, hoje, que torna a ida ao cinema pouco urgente.
A única coisa que confere urgência às coisas é o marketing massivo. Ou seja: a garotada tem que ver "Lua Nova", senão vai se sentir por fora. É justo.
Mas não faz tanto tempo assim a gente se sentia por fora, também, se não fosse ver o último Brian De Palma. Agora, "Redacted" nem passou por aqui - e nem entrou em DVD.
Não faz tanto tempo assim (quer dizer, faz tempo paca, uns 25 anos) a Sala Cinemateca enchia para que as pessoas fossem ver um festival do Dreyer ou do Ozu. Não estou buscando exemplos ao acaso. Aconteceu isso de fato.
O interesse pelo cinema não decaiu. Ao contrário: a imagem é uma instância decisiva, cada vez mais.
Mas uma série de facilidades aconteceu que tornam a ida ao cinema menos urgente. Desde o DVD e a TV a cabo, passando pelo DVD pirata, isso tudo ajuda a amolecer o espectador.
Para os que fazem um acompanhamento mais cerrado, tanto da atualidade como do passado, existe essa possibilidade estrondosa, fabulosa, que são os sites de compartilhamento.
Eu não entendo disso, de baixar os filmes na internet. Mas graças a amigos pude ver tanto Redacted, do De Palma, como La Habanera, que é um Sirk alemão que eu não conhecia.
Tudo isso é fabuloso. Mas daí decorre que, se a gente não pode falar de filme, compartilhar (não só o filme físico como a experiência dele), trocar idéias, ele tende a inexistir. E se torna uma coisa de grupelho, de iniciados, uma espécie de seita.
Nota: para quem não conhece, o blog do Carlão é ótimo lugar para encontrar filmes raros, desaparecidos, fabulosos, mitológicos etc.
Também tenho tido boas experiências de revitalização dos cineclubes. Vejo o pessoal do Colégio Equipe, mas também o do clube Harmonia, fazer belas sessões. O Espaço Capobianco começou agora no fim do ano etc.
Aí é que o cinema vive. Porque o público do século 21 é que anda disposto a reduzi-lo à insignificância, a diversão que acompanha as compras do shopping.
As distribuidoras hoje trazem os filmes. Ok, o pessoal mais xiita reclama da projeção da Rain. Tem razão de reclamar. Mas eu sou do tempo em que quando sentava uma pessoa mais alta na frente já não se via nada.
Meu lema: quem reclama da Rain é que nunca foi ao Cineclube do Bixiga, onde para ver a tela tinha que sentar na primeira fila.
Ouvir era outra história.
(não quer dizer que não se deva reclamar da Rain, que corta as laterais do filme como açougueiro corta os bifes).
Enfim, desculpem amigos, mas estou meio que vagabundeando hoje, meio desiludido com esses filmes fortes que entram, ficam uma semana em cartaz e depois já caem para duas sessões por dia, depois para uma e por fim desaparecem. No fim, parece normal que o cinema seja esse acúmulo de insignificâncias, de conformismos, de Emmerichs, de Nora Ephrons. Caramba! Dá pra ser melhor. Mas o público também de colaborar.
Por Inácio Araujo às 14h23

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