UOL Cinema

20/11/2009

A estréia de Eduardo Valente está valendo

(Vai em frente, Valente)

Tinha pouca gente no cinema, quando fui ver "No Meu Lugar". Verdade que era a última sessão de quarta-feira, dia de futebol na TV.

Havia cinco pessoas na sala, no início do filme. No final, três.

A impaciência que existe no Brasil com bons filmes é inacreditável. Se alguém fizer uma bobagem tipo Heitor Dhalia, aquela coisa publicitária mal disfarçada, não faltará quem ache muito interessante, "bem feito", progressos, essa conversa mole.

É o preço inviável que pagamos pelas novelas de TV como padrão ficcional.

Quando aparece um filme capaz de observar as pessoas, o mundo, dá-se uma apatia estranha em torno dele. Os defeitos ficam enormes e as virtudes parecem não importar.

Como quase ninguém viu, aqui vai um resumozinho. No início, ocorre um crime. Um tenente de polícia atende a um chamado histérico. Vê que, dentro de uma casa, um assaltante faz um refém. Decide não esperar reforços, mas usar a sua arma. A câmera não mostra a ação dentro da casa, apenas ouvem-se tiros e gritos. Fade out longo. Longo até demais.

A narrativa em três tempos que se segue me pareceu muito forte e bem concebida, justamente porque o sentido não se completa, fica aberto, vivo, flutua. Não é usada como o macete narrativo que vemos habitualmente (e que tanto impressiona). Ela procura oferecer um olhar novo não à "questão da violência no Rio", mas às pessoas que vivem lá, ao menos as que estão no filme.

Temo que o espectador brasileiro (a maior parte deles, claro) não convive muito bem com isso, atualmente. Ele não suporta o enigma. Ele quer tudo ali no fast food, por alguma razão que desconheço (mas temo que sejam as novelas e similares!). Se ele não identifica no ato todos os elementos, todos os sentidos, etc., ele acha que o filme é que está errado. "Mal feito".

Eu não o culpo de todo. Quando tem aquele longo fade out, depois dos tiros, primeiro há um belo trabalho de som, mas depois um longo silêncio no escuro. É inquietante por conta do filme, no começo. Depois eu fiquei pensando: pô, acho que o projetor foi pro beleléu.

Depois do fade out temos três narrativas em três momentos. Os "ricos", digamos, assim, que é a família que vem ocupar a casa onde se deu o tiroteio. Os "ferrados", que são o policial que deu o tiro, e sua filha. E os pobres, representados pela empregada da casa e pelo entregador do mercado.

Eu precisaria rever O Sol Alaranjado, mas me parece que isso já está lá, essa coisa dessas famílias incompletas e tão afetivas porque incompletas. Existem dependências muito grandes. O pai policial e a filha fazem uma relação quase incestuosa, nem se fala de mãe. O pai rico das crianças não é pai, mas padrasto, e lembrar ou não do verdadeiro pai, o que morreu, é um problema para as crianças. Engraçado que o Valente fala de alguns filmes argentinos que o marcaram na época em que concebia o seu, mas aquele a que mais "No Meu Lugar" remete é "Valentin", onde são muito presentes essas afetividades tão mais fortes quanto deslocadas.

Os três núcleos, para falar como nas novelas. O perfeito me parece o do policial: a filha, os amigos, as relações, as tensões, as dores, o ator. Tudo. Acho irretocável.

A família: a mãe-viúva é a personagem mais bem resolvido, mas o pai-padrastro também está ok. Agora, os filhos, não sei, me pareceu um pouco desigual, tem horas que eles se enchem o saco, o que é compreensível, e enchem o nosso também, o que é menos.

O núcleo pobre me parece francamente precário. Aquele rapaz que ri o tempo todo, o entregador, não entendi a ação dele, porque faz as coisas que faz. Me parece que à força de ser sutil, o roteiro acabou se tornando um tanto vago, sem foco, e, portanto, arbitrário. O roteiro é francamente omisso em relação a esse rapaz. Se eu tivesse que palpitar diria que a mãe do rapaz deveria ter o tempo todo um olho nele, vigiá-lo, desconfiar de seus atos. Ela o mima muito. A conversa dele com o tio é inútil.

São primeiras impressões. É uma estréia sólida, vem de alguém que sabe o que faz, porque faz, é cultivado, não caiu de para-quedas, que é coisa muito frequente no cinema brasileiro. Aceita correr riscos. De maneira que o silêncio em torno dele (ah, acho que o filme não foi bem vendido, desde o trailer, que é horrível, sugere que o filme será coisa muito diferente). Como disse, tem coisas que não entendo, como a iluminação. Mas, como no curta-metragem, Valente se mostra uma personalidade a reter. Vai seguir em frente, tem muito para caminhar (quero dizer: tem capacidade intelectual e conhecimento para isso).

* * *

Abaixo, reproduzo a  resposta do Valente postada na caixa de comentários:

"inácio, valeu pelo olhar atento. claro que concordo e discordo de várias coisas que vc diz sobre o filme, mas isso além de inerente, é coisa pra um papo depois com calma. só queria dizer sobre a vendagem do filme que

"1) fui eu mesmo quem fez o trailer - ou melhor, eu junto com a assistente de montagem do filme. talvez ele seja ruim mesmo, talvez não (já ouvi o contrário, o que não invalida em nada a sua opinião), mas o principal é que o difícil ali era exatamente "vender" este filme. por tudo que vc diz que o move. ele não quer ser "vendido", só que precisa fazê-lo. ok, faz parte do jogo. mas não sei se havia outra maneira melhor de fazê-lo, pois ele não se adequa muito ao jogo de venda. donde me leva ao ponto que me importa mesmo que é o

"2) eu não acho que aja um silêncio sobre o filme. eu mesmo ouvi (ou li) muita coisa sobre ele. isso porque temos exibido o filme da maneira que podemos, sempre que podemos. ele já esteve (ou ainda estará) em quase 15 festivais internacionais onde foi visto por platéias tão distintas quanto podem ser a polonesa, americana, francesa, coreana, cubana, sueca, etc. já foi exibido com debate posterior em pelo menos 10 lugares no Brasil, indo de Aracaju, Salvador e Recife a Brasília, BH e SP, além de festivais onde a "classe" (leia-se principalmente crítica e jornalistas de cinema) está em peso, como Tiradentes ou Paulínia. ele já foi lançado em 8 capitais e ainda vai a outras 15 (inclusive no Sul só em janeiro com direito a mais debates e até uma mostra curada por mim acompanhando sua exibição em POA e CTBA). ele teve textos aprofundados sobre ele nos principais jornais e revistas impressas, eletrônicas (quase todas), blogs, etc. tem sido bastante discutido por aí. aí vc diria: "tudo isso junto é um subterrâneo perto da superfície do tamanho do Brasil e do que deveria ser o público de cinema". e eu concordarei (antes lembrando, claro, que ele sai depois em DVD, TV a cabo, torrents, etc).

"onde eu quero chegar com isso tudo é: uma coisa é saber por que no Brasil (e aí eu digo, como quem esteve morando um pouco na França recentemente: no Brasil não, no mundo, até na meca do cinema como foco cultural, como é a França) o cinema que arrisca minimamente (nem acho meu filme um prodígio de risco ou novidade, diga-se) tem que ocupar este espaço tão marginal? é uma longa conversa, mas é um fato. e um fato que eu sabia ao fazer o filme, portanto não posso agora fingir choque nem desespero. mas dentro deste panorama ainda há o que fazer, há o que deve ser feito, e isso me sinto orgulhoso que o filme tem feito. ele não está no silêncio, apenas ele está em pauta pra quem ainda se dispõe a ouvi-lo. é por eles que eu trabalho, sempre, porque acho que senão isso sim seria aceitar o silêncio. adoraria que meu filme estivesse em pauta e nos olhos de mais gente, mas pra isso acontecer seria preciso ser um outro filme, quiçá igual a tantos outros. melhor não, então. mas me recuso a achar que este espaço mesmo reduzido seja igual ao silêncio. como realizador, eu já ouvi muito com o filme. e é isso que eu posso querer, sempre. o esforço foi e está sendo feito pra se chegar a cada mínimo espaço onde ainda se pode. só não dá pra se decepcionar com não chegar aonde não mais se pode, porque talvez pra lá chegar tivéssemos que mudar tanto que não faria mais sentido lá estar. resta continuar sussurrando, talvez, mas acreditando que vários sussurros podem ter a força de um grito.

Comentário adicional:

Passei a resposta do Valente para cá para que se possa melhor discutir o filme ou até coisas em torno deste filme que merece bem ser discutido.

Por Inácio Araujo às 16h36


19/11/2009

Os novos "Cahiers": primeira impressão

 

Primeiras impressões sobre os Cahiers du Cinéma sob nova direção.

Provisórias, claro, já que são só dois números dirigidos por Stephane Delorme.

O primeiro dedica a capa a Judd Apatow e à redescoberta de Fellini.

Apatow me deixou sinceramente espantado. Até hoje não vi nada de mais. Será que vi de menos? Vou dar uma atenção ao próximo filme.

Mas o importante, aqui, é a disposição da revista de se abrir a um outro cinema, mais ao gosto do grande público. Ela há muito tempo é extremamente seletiva (ou seletiva demais) em relação ao cinema americano. Para ser franco, desde os anos 60.

Quanto ao destaque a Fellini vejo uma disposição a fincar pé na atualidade. Fellini está sendo objeto de uma grande exposição em Paris. A revista está, portanto, se pondo em sintonia com uma platéia prioritária para ela. De passagem, parece (digo isso porque não li) dispõe-se a uma revisão do diretor italiano, que, sabe-se, nunca foi muito ao gosto da revista.

No segundo número, capa para Alain Resnais ("Les Herbes Folles", sempre) com vasta entrevista.

Entrevistas também com Marco Bellocchio e Bruno Dumont. Pô, Bellocchio deveria estar na capa.

O importante nesse ciclo de entrevistas (que parece refletir mais o que será a nova gestão do que o anterior) é a disposição da revista de perguntar e de ir atrás de respostas.

Na gestão anterior, J.M. Frodon já parecia ter todas as respostas a todas as questões do cinema e da arte. No mais, ele escrevia a revista quase inteira. Além de ter criado um projeto gráfico deprimente, meio que imitação da Première.

A impressão é de que agora os caminhos do cinema estão incertos e abertos para os Cahiers. Bom sinal. Nesse sentido, lembra um pouco os amarelos. Espero que lembre em muitas outras coisas também.

Por Inácio Araujo às 16h39


17/11/2009

Quando o erotismo batia à nossa porta

 

Estava vendo na TV "O Destino Bate à sua Porta", a versão de Bob Rafelson, com Jessica Lange e Jack Nicholson. Lá tem a transa mais sensual de todos os tempos. Será? Ao menos que eu me lembre: uma cena que é de puro desejo, alucinante. Não é está que está aí acima, é outra. Mas esta tem quase a mesma intensidade.

Existe a outra versão, a de Tay Garnett, com John Garfield e Lana Turner. Não vejo há algum tempo. No You Tube encontrei a cena aí de baixo. É de 1946, tudo é mais contido e mais climático, mas não menos intenso. As sugestões são muito fortes. Diferente do filme de Rafelson, mais direto. São ambos filmes de tesão, porém.

Hoje quase não há cenas de sexo no cinema, ninguém mais filma.

Quando filma, em geral melhor seria que não tivesse filmado.

Há algumas, como em "A Enguia", do Shohei Imamura, soberbas. Há algumas sem-vergonhices fantásticas, como a cruzada de pernas da Sharon Stone em "Instinto Selvagem", ou Norma Bengell na praia, em "Os Cafajestes", ou ainda coisas tão mais inesquecíveis quanto inexplicáveis, como aquela luva que Rita Haywrth tira em "Gilda".

É uma pena que o bom-tom tenha virado regra. Quem lembrar de outros filmes ou outras cenas eróticas notáveis (elas existem) pode dar um alô.

 

Por Inácio Araujo às 23h07


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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