UOL Cinema

13/11/2009

Imagens produzem sombras

 

Lá vou eu me meter onde não devo, já que os mais respeitáveis, os mais lúcidos dos analistas do esporte acreditam que o olho eletrônico vai resolver o problema das arbitragens no futebol.

Não é sem motivos. O Juca Kfouri, por exemplo, diz que existe um massacre semanal dos juízes, por conta da repetição pela TV. Faz sentido.

Se eu entendi corretamente, só esta semana dois juízes foram suspensos por causa de erros (supostos ou verdadeiros) de arbitragem.

A idéia ganhou força, primeiro, com o gol do Palmeiras anulado pelo juiz Simon no último domingo.

Se não estou enganado, esse mesmo juiz (se não foi ele, não altera a questão) foi motivo de chacotas, ofensas, tudo o que se quiser, por não ter dado o chamado "pênalti claro" para o Flamengo contra já não me lembro quem (ou era contra o Flamengo? Enfim...) há alguns meses.

Isso até que aparecesse uma imagem de outro ângulo, insuspeito, a provar que, no lance do "pênalti claro" o suposto agressor não havia nem mesmo tocado na suposta vítima.

E aí, evidente, o que era claro se tornou obscuro e todo mundo enfiou a viola no saco.

Na minha amadorística opinião, o lance com o Palmeiras, no domingo, foi mero perigo de gol. Mas já ouvi falar de um outro e inédito ângulo a demonstrar que o atacante fez falta sim e etc. e tal.

Ou seja, voltamos à obscuridade.

No primeiro lance, o do Flamengo, se o cara fosse consultar o video teria dado um pênalti absurdo.

No segundo, o do Palmeiras, em nenhum momento o juiz disse que gostaria de ver o lance melhor, que talvez tenha visto coisa demais ou de menos. Nada disso. Disse que o atacante segurou o beque. Portanto, não recorreria a videoteipe algum.

No mais recente, no meio da semana, outro jogo do Palmeiras, a questão agora é o som: um apito soa e paralisa os jogadores do Sport, enquanto o palmeirense faz o gol.

A partir daí, cada um puxa a brasa para a sua sardinha, pois não se sabe nem mesmo se o apito veio do juiz ou de alguém na arquibancada.

O meu ponto é: a imagem é uma ilusão. Não é coisa em que se deva acreditar. É isso que nos ensinaram mais ou menos todos os grandes diretores de cinema, sem contar os filmes (e livros) de vampiros. Certas coisas são pura imagem.

Talvez, no dia em que a TV seja em 3D a imagem possa ser mais confiável. Por enquanto, está visto que seu uso produzirá mais equívoco e ambiguidade do que outra coisa.

(Não falo nem do melê que vai ser quando uma grande torcida pedir pênalti, por exemplo, e o juiz mandar o jogo em frente sem olhar no VT).

Como efeito suplementar, e já fora do âmbito do juiz ladrão, me parece que o uso imoderado da câmera lenta provoca juízos igualmente equívocos.

Às vezes me pilho pensando em como tal goleiro não pegou aquela bola que passou ao seu lado. Ora, percebo depois, foi chutada com força enorme e a pequena distância. O efeito analítico da câmera lenta se torna, na maior parte dos casos, perverso. Do mesmo modo, quando uma falta passa em câmera lenta, com muita frequência parece uma agressão violentíssima. Não me digam que isso só afeta a minha percepção.

É claro que em certos casos, a eletrônica pode ajudar. Algo semelhante à arbitragem de tênis, onde se vê direitinho onde foi a bola, é concebível. Dizem que no futebol americano os juízes também costumam consultar as câmeras, mas não entendo nada desse (e, atenção, trata-se de um jogo truncado por natureza).

O uso no basquete é raro. No basquete americano, até onde sei, só se pode usar a imagem para conferir tempo (se uma jogada aconteceu dentro do tempo regulamentar e tal). Faz sentido, porque aí o olhar se engana com mais facilidade, neste caso.

Há uma coisa boa no regulamento da NBA: quem, jogador, técnico, cartola que reclamar dos juízes leva multa e/ou suspensão.

Se querem realmente acabar com essas discussões histéricas, me parece muito mais útil proibir as pessoas que mais as incitam (cartolas, técnicos e jogadores) de comentar os juízes.

Bem, isso parece que não tem nada a ver com cinema, mas tem tudo. O fundo da imagem é escuro como esse blecaute de outro dia. Ela só consegue mostrar que não existe imagem verdadeira, final, única.

A imagem só mostra o que ela quer tornar visível.

Não é questão de má-fé, é da sua natureza.

Como uma falsa amiga, seu uso só criará casos de injustiça flagrante, quando, por exemplo, mostrar um jogador agredindo um outro. E nos milhares de casos sem câmera, azar.

Bem, devo dizer o seguinte. Pensei nessas coisas quando via "A Imperatriz Yang Kwei Fei", do Mizoguchi, e veio o blecaute.

A primeira sensação é de cegueira. Pouco depois, é de inconformidade: como posso ter a vida interrompida desse jeito? Uma sensação de desamparo. Em seguida, porém, me senti numa pausa: nós vivemos abarrotados de imagens de toda natureza, o tempo todo. Acho que até quando dormimos, há as imagens do sono. Elas não param. Então, essa interrupção me privou de um belo filme, mas me deu o silêncio, um instante de obscuridade, de não imagem: um pouco como Kiarostami em "Shirin". Um pouco como Ozu, em que o personagem faz o gesto de nos mostrar um bairro inteiro, mas a câmera não mostra nada. Quanto mais imagens, mais sombras, maior a ilusão de ver.

Nos comentários que fazem os leitores nos blogs esportivos, parece que já não existe mais o jogo, só o juiz. Eles só acreditam na má-fé. O juiz só apita assim para roubar alguém. O cronista só diz tal coisa porque é corinthiano ou palmeirense, ou bairrista, ou interessado. A arbitragem com imagem não vai mudar esse tipo de coisa. Só vai acentuar.

Tudo continua a ser uma questão de crença. A imagem só torna as pessoas mais crispadas.

Por Inácio Araujo às 18h12


09/11/2009

Rossellini e a televisão (enfim acessíveis)

por Juliano Tosi 

“Há uma crise hoje que é não apenas do cinema, mas de toda a cultura. O cinema, que é o instrumento por excelência para difundir ideias, teve o mérito de deixar esta crise evidente, diria quase palpável. Por este motivo eu pretendo me aposentar do cinema e me dedicar à televisão, e assim reexaminar tudo desde o início, em plena liberdade, para poder refazer a trajetória do homem em busca da verdade”.

 

As palavras são de 1963, ditas por Roberto Rossellini numa famosa e polêmica entrevista.

 

Pouco mais de dez ou quinze anos haviam se passado desde Roma, Cidade Aberta e Paisà e o sucesso de seus filmes ditos neo-realistas parecia, cada vez mais, um grande mal-entendido.

 

Rossellini vivia, de fato, num beco-sem-saída: largamente ignorado pelos espectadores, negligenciado por boa parte da crítica, sobretudo a de esquerda italiana, quando não sabotado pelos produtores.

 

Era a cada ano mais penoso levantar financiamento para novos filmes. Os projetos abortados (como uma biografia de Sócrates, que filmaria nos anos 1970) eram tão fascinantes quanto, naquele momento, impossíveis de realizar.

 

*

 

Como diz Tag Gallagher, em sua biografia de Rossellini: “O mundo acreditava que Roberto estava acabado. Roberto acreditava que o mundo precisava ser consertado”.

 

Rossellini tinha um pensamento tipicamente iluminista: dissipar as trevas através do conhecimento. Não por acaso ele denominou seu projeto como uma enciclopédia visual: documentar a atividade humana, em suas mais variadas formas, através de “uma nova pedagogia através das imagens”.

 

Neste sentido, mais do que uma ruptura, o que ele propunha era de uma continuidade total com seus filmes neo-realistas: a crença na imagem (como um dado salvador do homem, inclusive) e o registro histórico sobre o mundo.

 

Aliás, não seriam os filmes mais consagrados de Rossellini um documentário, a quente, sobre os males no mundo àquela época? Às desgraças da Segunda Guerra (sua trilogia iniciada com Roma, Cidade Aberta), seguiu-se o mal-estar do renascimento e da prosperidade (Europa 51 e Viagem à Itália), e por aí segue.

 

Da mesma forma, desde sempre sua ideia para “curar o mundo” passava, sobretudo, por uma mudança cultural: antes, pela economia de meios, pela fuga dos estúdios e pela liberdade no filmar; agora, pelo que chamava de denúncia da sociedade do espetáculo.

 

“Pela primeira vez, desde que o homem existe, possuímos um meio de comunicação universal imediato, ao contrário da escrita, que supõe toda uma bagagem cultural. E em que o transformamos? Em uma espécie de jogo circense que corrompe todo o mundo e todos os seres”, escreveria ele em seu livro de memórias.

 

*

 

Restava, porém, um terreno livre para a experimentação, um meio novo ainda aberto a ideias novas: a televisão (por incrível que possa parecer hoje afirmar isto).

 

Eram, obviamente, outros tempos, pré-Berlusconi, quando a Itália parecia (a se fiar no que se assiste hoje na RAI) algo mais do que um programa de auditório brega. Quando a TV italiana produzia e exibia, por exemplo, esta incrível série de filmes (eram rodados em película) de Rossellini que, finalmente, estão acessíveis, graças, sobretudo, a um trabalho notável da Versátil.

 

Nem sempre são filmes exatamente fáceis de digerir e apreciar. Mas uma vez que entramos neles, a recompensa é certa.

 

*

 

Já foram editados em DVD pela Versátil Sócrates, Descartes, Santo Agostinho e Pascal (O Messias também foi lançado por uma distribuidora católica cujo nome me escapa). Para o próximo mês, está prometido o raríssimo A Tomada de Poder por Luís XIV, tido como a jóia de seus telefilmes.

 

E há algumas semanas chegou às locadoras Anno Uno - O Nascimento da Democracia Italiana, biografia de Alcide de Gasperi, nome chave da Democracia Cristã.

 

Não são poucos os motivos para alugar/comprar o disco. Fiquemos com um que poderia passar em branco: os depoimentos compilados no documentário Rossellini por Rossellini, dirigido pelo crítico italiano Adriano Aprà (e do qual segue um trecho abaixo).

 

Os momentos mais notáveis são, justamente, quando Rossellini fala de sua aversão aos rumos do cinema à época (o que diria do cinema de hoje?) e de sua conversão à televisão.

 

Pode-se discordar de seus argumentos. Pode-se, por vezes, até ver neles algo conservador. É difícil, porém, deixar de reconhecer que são fascinantes. Rosselini me parece, a cada dia mais, um cineasta essencial.

 

Por Inácio Araujo às 19h41


08/11/2009

A barbárie de cada dia

 

A imagem chocante é da estudante saindo da faculdade escoltada pela PM, dias atrás.

Não menos chocante é saber que a Uniban houve por bem expulsar a garota.

As justificativas são, para dizer o mínimo, um acinte. Em linhas gerais é como dizer que se a mulher foi estuprada é porque provocou!

Um procedimento que nem delegados de polícia usam mais.

Acusá-la de usar trajes "inadequados" de maneira regular é simplesmente ridículo. Primeiro, porque é. Trata-se de uma maneira rudimentar de inocentar a turba (ou seja, a sua freguesia).

Segundo porque se a direção julga certos trajes inadequados tem a obrigação de definir o que se pode ou não usar numa faculdade e chamar a atenção de seus alunos para o respeito ao que foi determinado. Ou seja: se havia motivo, a advetência já devia ter sido feita.

Por fim: chamar tentativa de linchamento de "reação coletiva de defesa do ambiente escolar" beira a insânia, por mais vagabunda que seja essa faculdade.

No mais, à luz da gritaria no filmete acima, pode-se perguntar que educação recebem os alunos desse tipo de estabelecimento comercial.

A finesse de Caetano

Não era sobre esse caso que eu pretendia escrever, mas ele é sórdido demais para passar em branco.

Estava chocado, antes disso, com uma sequência de Caetano Veloso. A ordem em que soube das coisas foi essa:

1) Ele disse que o presidente da República é analfabeto e grosseiro.

2) Ele disse que lê as críticas que recebe no banheiro.

Boto todas as reservas do mundo, e gostaria que alguém me dissesse que essas versões são falsas, porque não condizem com Caetano Veloso.

A ser verdade que ele disse essas coisas, porém...

Bem, todo mundo pode pensar o que bem quiser do presidente. Mas a segunda frase merecia muito bem o Pulitzer da grosseria. Não me lembro de nenhum momento em que Lula tenha feito um tipo de comentário nem de longe grosseiro (e baixo) como esse.

Por Inácio Araujo às 09h53


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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