UOL Cinema

07/11/2009

Anselmo Duarte (1920 - 2009)

 

Procurei uma imagem que sintetizasse o que foi Anselmo Duarte para o cinema brasileiro e para quem o conheceu.

Foi ator, galã, conversador, contador de histórias fantástico (histórias não raro inacreditáveis), diretor premiado, diretor atrabiliário.

Enfim, alguém cuja obra ocupa uns 40 anos de história do cinema, de que fazem parte Atlântida, Vera Cruz, Oswaldo Massaini, Cannes, Palma de Ouro, sucessos, fracassos, que concentra muitas coisas e se irradia para muitas partes.

Enfim, não encontrei um clip, uma foto que dessem conta desses aspectos todos da vida de Anselmo.

Sua obra é a rever.

Por Inácio Araujo às 11h54


04/11/2009

Cacá Diegues enfrenta a crítica francesa


Mesmo quando é para discordar, todas as vezes que Cacá Diegues pega da pena algo interessante acontece.

Hoje (4/11) ele publica na Ilustrada o artigo "Frodon mostra ter visão colonialista".

Ou seja, a Ilustrada está pulsando. Com cheiro de boas polêmicas (ou seja, troca de idéias), pois sem isso nada anda.

Vou retomar uma frase dele apenas, referindo-se aos críticos franceses: "Não lhes ocorre tentar entender o país através dos filmes realizados, em vez de construir um país teórico através de filmes que não foram feitos".

Antes mesmo de refletir sobre se isso é de todo verdadeiro, mas a elegância e a precisão da escrita já são arrebatadoras.

Bem, o melhor dessas coisas é que não existe verdade final, porque nenhuma visão é completa. O dia em que isso existir, o cara é Deus.

Cacá tem razão e é verdadeiro, me parece, quando observa que a intelectualidade francesa não raro divide o mundo em diferentes humanidades, "cujos papéis estão sempre pré-determinados pela força mesma das coisas". É uma tendência, talvez não uma regra (se falarmos de regra vamos incorrer no mesmo procedimento com direção oposta).

Me parece ter menos razão quando defende nossa produção (ou supõe defender) da afirmação segundo a qual sofre "de uma dependência cultural de Hollywood". Nesse ponto, Cacá sugere a existência de "um outro colonialismo cultural, mais sofisticado, [que] nos sufoca".

Bom, embora entenda a referência à sufocação, tenho a impressão de que nesse particular ele dá uma boa viajada. A dependência cultural de Hollywood, de certa forma, é mundial. No Brasil ela se manifesta fortemente, desde sempre, pela ocupação agressiva do mercado. Aqui, quem entrar numa locadora verá que filme "nacional" é um gênero, "europeu" é outro. Somos uma particularidade em nosso próprio país. A exceção a isso hoje é a produção Globo. Não sei se há grande vantagem.

Ora, a sugestão de um modelo de indústria onde o principal é a modéstia e o caráter cooperativo, me parece não uma sugestão colonialista, mas a constatação de que a independência da produção se dá mais facilmente quando o aspecto econômico é ajustado ao mercado de que se dispõe. Quando se trabalha entre amigos, e não apenas entre profissionais, melhor ainda. Não me parece nada tão diferente do que fez entre nós, por exemplo, o cinema novo.

Também não entendo muito bem Cacá quando diz que aos críticos franceses não "ocorre tentar entender o país através dos filmes realizados, em vez de construir umn país teórico através de filmes que não foram feitos".

Como assim? Que filmes foram feitos e quais não foram feitos? Há os de Fernando Meirelles e os de Andrea Tonacci, há "Viajo porque preciso ..." e há "À Deriva". Há Paulo Saraceni e as comédias do Alvarenga. Nossa produção, Cacá sabe bem disso, é diversificada. Todos os filmes fazem, de algum modo, sentido.

A questão é: qual representa melhor o país diante dessa entidade chamada "cinema"?

Quem representa a Argentina? Lucrécia Martel ou aqueles melôs chorosos que chegam aqui de vez em quando?

Quem representa Israel, a Palestina, o Irã, a China, a França?

O que retemos de um cinema francês recente: Olivier Assayas ou Luc Besson?

O que nos interessa da India? Bollywood ou S. Ray? Etc.

Então, estou de acordo com Cacá, quando diz que "estamos fazendo nossos filmes com diversidade, sem dogmas ou fronteiras intransponíveis, sem modelo único". Nem me parece que J-M Frodon esteja propondo algo desse estilo, francamente. Isso leva,noentanto, à conclusão do artigo, que, até onde eu entendo, não chega a fazer sentido: "Temos que ouvir atentamente um pensador do cinema da qualidade de Frodon e todo mundo tem o direito de gostar ou não dos filmes que vê. Mas cada macaco no seu galho - quem diz como esses filmes devem ser é quem os faz".

Afinal, existe o direito de opinar ou cada macaco deve ficar em seu galho? Ouvimos atentamente o que diz um pensador ou o cineasta, esse autista, determina o que faz e dá uma banana pra todo mundo?

Me parece que nesse ponto Cacá não tem ainda uma idéia clara.

P.S. - Quanto à nossa produção, o dado que me aterrou há pouco tempo não tem nada, ou quase, a ver com isso.  É o seguinte. Na Argentina, há pouco tempo, a proporção de público entre o filme "comercial" e o do filme "independente" era de 5 ou 6 para 1. Cada 1,2 milhão de espectadores do filme comercial significaria 200 mil para os Trapero, Burman, Martel. A relação me pareceu mais que saudável. Como anda a nossa por aqui? Alguém sabe disso? Minha sensação é de um esmagamento contínuo e sistemático (isto é, diz respeito a sistema) da produção, digamos, independente).

Por Inácio Araujo às 12h30


02/11/2009

Para que serve a crítica?

  

Essa é a pergunta que todo mundo faz aos críticos e que eles mesmos, no mais, vivem se fazendo.

Ela é muito atual neste momento, em que o marketing das grandes companhias procura, justamente, acabar com a crítica e com a troca de idéias sobre os filmes. Funciona como se todo mundo devesse ver a mesma coisa, ainda que suas experiências pessoais possam ser muito diferentes.

Jean-Michel Frodon, que foi diretor-geral dos "Cahiers du Cinéma", diz a Ana Paula Sousa, na Ilustrada, que a crítica não tem a menor influência na frequência aos cinemas (nem deve ter, acrescento eu) e que uma função da crítica é chamar a atenção para o cinema que é feito, 95% do cinema, segundo ele, que tem muita dificuldade para ser visto pelo público em geral.

Antes, ao comentar o cinema brasileiro, ele enfatiza que, na sua opinião, nosso problema não é econômico, mas de dependência cultural a Hollywood. E que o cinema brasileiro hoje lhe parece, de modo geral, decepcionante.

Aqui, há pontos a conversar. A crítica francesa sempre teve muita dificuldade para ver o que fazemos de melhor, e passou a vida ignorando, digamos, Rogério Sganzerla.

Temos hoje bons filmes, e certamente "Mutum" não é o último deles. Temos maus filmes, também, às pencas. Mas a produção de 2008, por exemplo, me espantou. Havia "Serras da Desordem", "Falsa Loura", "Cleópatra", "Deserto Feliz", todos filmes muito fortes, sem contar "Corpo", que é uma estréia cheia de irregularidades, mas muito interessante. Enfim, existe uma produção que não chega ao público e, muito menos, ao exterior.

Por que isso acontece? É complicado, envolve desde a política local até uma certa falta de curiosidade dos europeus. Vamos ser francos: o Cahiers mesmo comprou por anos a fio o que Sylvie Pierre vendia sobre o cinema do Brasil. E que era, para dizer o mínimo, extremamente parcial.

Digo isso porque acho que houve uma abertura considerável, do lado do "Libération", quando Serge Daney estava lá com Louis Skorecki e Edouard Weintrop, e ele mesmo Daney vinha aqui ver as coisas e, mesmo comigo, lembro de ter ficado horas conversando com ele num boteco perto da Folha, sem compromisso, só falando.

E estávamos diante de uma crise dos diabos, que não acontece hoje.

Voltando aos fatos. Tenho lá minhas reservas em relação a algumas afirmações dele, e sobretudo ao não reconhecimento ao jovem cinema de Pernambuco (e arredores).

Porque não é um cinema empírico, é algo que vem de uma cultura não só cinematográfica muito forte. Isso é muito diferente da maior parte do cinema recente de Rio/SP, que só pensa em fazer sucesso e aparecer na coluna social, mas parece que não leu um livro, que não viu um filme, nada.

Me parece interessante, ainda, a observação sobre o cinema asiático recente, que conheço bem mal, segundo a qual os diretores colaboram uns com os outros e com isso conseguem fazer filmes baratos. Aqui, parece, às vezes, que o objetivo não é fazer bons filmes, mas ver quem faz o filme com a maior equipe. Isso é um equívoco, uma bobagem.

Para terminar, e voltando ao papel da crítica. Me parece que é importante, não na França, onde a relação com o cinema é privilegiada (se vai ao cinema como se vai ao museu, etc.), mas aqui, sim: o crítico precisa, na medida do possível, relacionar coisas: escolas, épocas, tradições. Senão fica parecendo que o cinema vive num presente eterno, que os filmes surgem do nada. E não é bem assim.

De volta à Mostra. Alguns filmes grandes que vi nos últimos dias: "Mother", coreano, e "Vencer", do Marco Belocchio. Já vi que "Mother" está comprado pela Paris. O Belocchio, isso assusta, não. Mas é filme de mestre.

Enfim, para que serve a crítica?

Dizia o Roland Barthes que criticar quer dizer "pôr em crise". É uma boa definição. É o que desarruma o muito arrumadinho.

O Jean Douchet tem outra, de que gosto muito: é a arte de amar.

Acho que são complementares.

Por Inácio Araujo às 08h47


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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