
Essa é a pergunta que todo mundo faz aos críticos e que eles mesmos, no mais, vivem se fazendo.
Ela é muito atual neste momento, em que o marketing das grandes companhias procura, justamente, acabar com a crítica e com a troca de idéias sobre os filmes. Funciona como se todo mundo devesse ver a mesma coisa, ainda que suas experiências pessoais possam ser muito diferentes.
Jean-Michel Frodon, que foi diretor-geral dos "Cahiers du Cinéma", diz a Ana Paula Sousa, na Ilustrada, que a crítica não tem a menor influência na frequência aos cinemas (nem deve ter, acrescento eu) e que uma função da crítica é chamar a atenção para o cinema que é feito, 95% do cinema, segundo ele, que tem muita dificuldade para ser visto pelo público em geral.
Antes, ao comentar o cinema brasileiro, ele enfatiza que, na sua opinião, nosso problema não é econômico, mas de dependência cultural a Hollywood. E que o cinema brasileiro hoje lhe parece, de modo geral, decepcionante.
Aqui, há pontos a conversar. A crítica francesa sempre teve muita dificuldade para ver o que fazemos de melhor, e passou a vida ignorando, digamos, Rogério Sganzerla.
Temos hoje bons filmes, e certamente "Mutum" não é o último deles. Temos maus filmes, também, às pencas. Mas a produção de 2008, por exemplo, me espantou. Havia "Serras da Desordem", "Falsa Loura", "Cleópatra", "Deserto Feliz", todos filmes muito fortes, sem contar "Corpo", que é uma estréia cheia de irregularidades, mas muito interessante. Enfim, existe uma produção que não chega ao público e, muito menos, ao exterior.
Por que isso acontece? É complicado, envolve desde a política local até uma certa falta de curiosidade dos europeus. Vamos ser francos: o Cahiers mesmo comprou por anos a fio o que Sylvie Pierre vendia sobre o cinema do Brasil. E que era, para dizer o mínimo, extremamente parcial.
Digo isso porque acho que houve uma abertura considerável, do lado do "Libération", quando Serge Daney estava lá com Louis Skorecki e Edouard Weintrop, e ele mesmo Daney vinha aqui ver as coisas e, mesmo comigo, lembro de ter ficado horas conversando com ele num boteco perto da Folha, sem compromisso, só falando.
E estávamos diante de uma crise dos diabos, que não acontece hoje.
Voltando aos fatos. Tenho lá minhas reservas em relação a algumas afirmações dele, e sobretudo ao não reconhecimento ao jovem cinema de Pernambuco (e arredores).
Porque não é um cinema empírico, é algo que vem de uma cultura não só cinematográfica muito forte. Isso é muito diferente da maior parte do cinema recente de Rio/SP, que só pensa em fazer sucesso e aparecer na coluna social, mas parece que não leu um livro, que não viu um filme, nada.
Me parece interessante, ainda, a observação sobre o cinema asiático recente, que conheço bem mal, segundo a qual os diretores colaboram uns com os outros e com isso conseguem fazer filmes baratos. Aqui, parece, às vezes, que o objetivo não é fazer bons filmes, mas ver quem faz o filme com a maior equipe. Isso é um equívoco, uma bobagem.
Para terminar, e voltando ao papel da crítica. Me parece que é importante, não na França, onde a relação com o cinema é privilegiada (se vai ao cinema como se vai ao museu, etc.), mas aqui, sim: o crítico precisa, na medida do possível, relacionar coisas: escolas, épocas, tradições. Senão fica parecendo que o cinema vive num presente eterno, que os filmes surgem do nada. E não é bem assim.
De volta à Mostra. Alguns filmes grandes que vi nos últimos dias: "Mother", coreano, e "Vencer", do Marco Belocchio. Já vi que "Mother" está comprado pela Paris. O Belocchio, isso assusta, não. Mas é filme de mestre.
Enfim, para que serve a crítica?
Dizia o Roland Barthes que criticar quer dizer "pôr em crise". É uma boa definição. É o que desarruma o muito arrumadinho.
O Jean Douchet tem outra, de que gosto muito: é a arte de amar.
Acho que são complementares.