UOL Cinema

31/10/2009

"Chanel", uma biografia decente

 

Fui ver "Coco antes de Chanel" para descansar dos filmes da Mostra e depois de ver o espetacular "Mother", coreano.

Esperava pelo padrão habitual das cinebiografias francesas tipo "Piaf", ou seja, algo insuportável salvo por uma atriz, ou pela música, essas coisas.

Mas me surpreendi. Na primeira sequência, ela e a irmã chegando a um orfanato, temi pelo pior. Mas desde ali, o filme chama a atenção para o olhar da menina, um olhar muito perspicaz.

Mais tarde, ela já cortesã, é interessante como o filme enfatiza o tipo de moda pré-Chanel, que vai do espartilho à sobrecarga de tecidos, cores, adornos, passando pelos chapéus que ela chamava de merengues.

Existe então essa sensibilidade que adivinha um mundo que está acabando (a belle époque, o pré-Primeira Guerra), e ela vai encarnar em grande medida isso, vai encarnar para o lado da moda, que hoje é indústria de ponta, "limpando" a mulher de toda aquela traquitana.

É claro, não é filme que muda o mundo, mas os atores estão muito bem dirigidos, a direção de arte é correta e a mise en scène tem fundamento, por isso o filme não é um mero acumular de fatos, como se vê com frequência no gênero. E, coisa importante, sabe quase sempre evitar o sentimentalismo e a grandiloquência.

Alcino Leite, que além de ótimo crítico de cinema também trata de moda, diz que o filme dá umas edulcoradas na figura de Chanel, o que deve ser verdade, e que às vezes puxa a sardinha para a brasa dela, mas essas coisas são esperáveis nesse gênero de filme.

Ele também chama a atenção para o academismo da imagem. Acho que nisso há certo exagero. Eu diria que a imagem é tradicional, própria de um filme comercial. O que "Chanel" é. Mas tem essa vivacidade bem acima da média do cinema comercial francês, que, como se sabe, tende ao horripilante.

Por Inácio Araujo às 08h51


29/10/2009

"O Bandido", agora em livro


Uma festona na Mostra: o lançamento dos 38 novos livros da coleção Aplauso. Estava intransítável. Ou, para falar bem francamente, insuportável.

Sem demérito para os outros livros, o destaque para mim é, de longe, o roteiro do "Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla.

Essencial para quem queira se deter sobre a relação texto/filme, palavra/imagem. Para saber o que é um filme, afinal.

Helena Ignez deu a honra de me convidar para escrever o prefácio. Fui conferir. Antes de chegar no prefácio tem uma montanha de introduções de políticos etc. É quase metade do livro.

Ou seja: a coleção é uma bola dentro. Tenho aqui uns volumes antigos. Só têm uma introdução do Hubert Alquéres, diretor da Imprensa Oficial e olhe lá.

Agora todo mundo quer tirar uma lasquinha, entre eles os inúmeros políticos presentes à festa. (Mas se alguém tem mérito nessa história é o Rubens Ewald, que bolou e dirige a coisa).

Bem, depois que se vence as introduções todas e o meu prefácio, vem o manifesto escrito por Rogério quando fazia o filme: precioso.

Um dos itens diz mais ou menos o seguinte: "Com Orson Welles aprendi a não distinguir crime e política".

Hora de sair do Shopping: impossível pegar o elevador.

Desço até o térreo de escada, com o Cakoff, que ia apresentar o Angelopoulos sei lá aonde.

O Leon está entusiasmado com o volume "Os Filmes da Minha Vida". O lançamento vai ser dia 3, lá no Conjunto Nacional. O Leon garante que eu colaborei com o livro. Não lembro de nada, mas ele não deve estar mentindo.

Por Inácio Araujo às 13h32


27/10/2009

Desastre na Osesp

 

Aqui, um trechinho da música que Almeida Prado compôs para filme mudo de André Savage. A estréia da música foi com a Osesp, no quadro da 3ª Jornada do Cinema Silencioso, promovida pela Cinemateca Brasileira.

Desde que foi reestruturada, a grande vantagem da Osesp era ser uma orquestra pública de qualidade. Ênfase em pública.

Isso significa que permitia o acesso a espetáculos normalmente frequentados apenas por pessoas muito ricas a um outro público que não o habitual círculo de milionários das sociedades privadas de espetáculos musicais.

Pelo que escreve Marcus Preto na Folha de hoje, 27 de outubro, certas assinaturas, justamente as destinadas a estudantes e aposentados, sobem qualquer coisa como 70%.

Os ingressos avulsos são os que menos sobem: 17%, ou seja, mais ou menos 12,5% acima da inflação prevista para este ano.

As explicações da organização da Osesp (que significa Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) são, para dizer o minimo, patéticas. O aumento, diz o site da orquestra citado na matéria, refere-se uma nova taxa "para manuseio e envio do ingresso e gerenciamento do Sistema de Assinaturas e do Banco de Ingressos".

Caramba! Até onde isso pode ser compreensível, o envio de ingressos sempre ocorreu. Espero que o manuseio também, porque senão seria difícil enviá-los. O gerenciamento do sistema de assinaturas, espera-se, também já existia, ou então o caos era muito bem disfarçado.

A coisa não para por aí. Para que tintas mais kafkianas apareçam na história, "a organização" da Osesp explica ao repórter que a tal taxa diz respeito a "série de serviços e benefícios adicionais completamente desvinculados do custo das apresentações", o que inclui "a comodidade de ter lugar cativo na platéia".

Ora, isso não é um conforto adicional e nem é novo. É evidente que quem compra uma assinatura de orquestra compra um lugar fixo. Tal seria. Imagine as pessoas entrando numa sala de concerto e disputando lugar como se fosse um jogo de futebol.

Completa dizendo que "seu valor é suficiente apenas para cobrir os custos".

Que custos? Os dos serviços? O de ter um lugar marcado? Então até agora esses custos eram cobertos por quem? Há muita coisa não dita nessa história e as explicações são feitas julgando que os assinantes são retardados.

Por fim, para o aumento, também brutal, de 17% nos ingressos avulsos, a Osesp sustenta que "resolveu alinhar os seus preços e deixá-los mais próximos aos do mercado para espetáculos congêneres".

Inútil dizer: se é para ostentar preços "de mercado", para que uma orquestra pública?

Ou, em outras palavras: velhinhos e estudantes de música frequentadores da Osesp, convém aproveitar bem 2009. O futuro promete ser árduo.

P.S. - Eu agradeceria se não se visse nisso essa história de brigas políticas, a favor ou contra o governador. Tenho visto José Serra ser acusado de muita coisa ao longo da vida, mas nunca de burro ou insensato. Isso parece mais coisa de sabotador.

Por Inácio Araujo às 10h44


26/10/2009

Wajda, vivo como a vida + Ken Loach

 

A principal razão para ver “Alga Doce” é que Wajda filma bem. O que isso quer dizer? Que estamos diante do filme de um velho mestre e que a câmera parece estar sempre no único lugar possível. Filma como um mestre. Como o mestre que é. É simples e exato, isento de dúvidas ou hesitações, tudo é simples, limpo. Notável.

A segunda, que torna um tanto urgente o deslocamento a um cinema, é que eu tenho dúvidas sobre se um filme desse porte terá lançamento no Brasil (temo o mesmo por "Adam Resurrected", de Paul Schrader, mas, enfim, talvez até já tenham distribuidor). O sistema cinematográfico parece cada vez menos propenso a aceitar filmes como esse.

Por fim, existe Krystyna Janda, a magnífica atriz das duas atrozes histórias que se superpõem. Primeiro, num tempo presente, existe uma atriz de luto num quarto quase sem luz, a nos lembrar que este filme atrasou um ano por causa da doença e da morte de seu marido. Ela recita seu monólogo, em um único plano. A câmera enfatiza o efeito teatral.

Em seguida, temos a história que se passa alguns anos, dez ou quinze, depois da guerra. Ali, uma atriz (a própria Janda) viverá a mulher às voltas com o luto pela morte do próprio filho. O monólogo da primeira época (que na verdade é a atual) foi escrito pela própria Janda e diz respeito à morte do próprio marido, que era fotógrafo de Wajda.

Claro que é "pra baixo". Não sei se a tendência dos multiplexes hoje seja aceitar sensibilidades verdadeiras. As preferidas são as portáteis.

As duas épocas dão bem a idéia de um filme que se monta debaixo de nós, vivo como a vida, sofrido também. Verdadeiro a cada instante. Filme de velho mestre, com a vitalidade que os velhos mestres vêem demonstrando.

À Procura de Eric

Pensava em escrever, mas acabei esquecendo.

É o mais querido dos autores que não gosto. Isto é, tudo nele me parece um pouco antiquado, sua relação com o cinema me interessa pouco etc.

Mas é, inegavelmente, um bom homem. E isso se reflete necessariamente em seus filmes, ou na maior parte deles.

Neste, Eric é um carteiro que cometeu erros na vida, no passado, e arca com a responsabilidade deles segundo a segundo.

É também um torcedor de futebol fanático e fã de outro Eric, Cantona, jogador de futebol genial e temperamental.

Bem, é por aí que tento entender a ambiguidade dos meus sentimentos em relação a Loach. Ele se interessa tão apaixonadamente por seus personagens que tanto eles quanto as questões que suscitam terminam por nos interessar igualmente.

A hipótese de um homem se levantar, sair de seu pesadelo, ganhar uma segunda chance por efeito de uma idolatria, de uma relação com esse fantasma que são, na escala popular, os jogadores de futebol, tem alguma coisa de sublime. Por um lado nos lembra que esse tipo de relação faz sentido, é profunda (entre os fãs de futebol e seus ídolos) e pode ser construtiva.

Seu estilo me interessa pela franqueza, pela honestidade, embora não me entusiasme (prefiro Stephen Frears, para não sair da Inglaterra). Algo que me incomoda bastante neste filme, mas não é a primeira vez que me acontece em filme dele: a sensação de que a classe operária é mais objeto de reflexão do que propriamente sujeito de seus filmes. De certa forma, pode ser esse o limite de seu realismo. Acho que esse entra em cartaz.

Por Inácio Araujo às 11h29


25/10/2009

Quebrando a cara

 

 

Quanto mais vejo filmes coreanos, menos me sinto capaz de compreender a alma desse povo.

Já corrijo: quando apenas começavam a entrar no mercado mundial, vi na Mostra mesmo coisas muito delicadas.

Agora os filmes são carregados de uma perversidade alucinante, para o bem e para o mal. Em "Voluntária Sexual" (que escolhi por causa do nome), existe uma jovem estudante de cinema que faz filme sobre prostitutas, ocasião em que vai pessoalmente a um bordel, representar o papel. Se bem entendi, é nessa ocasião que acaba transando com o pai, por, digamos, orgulho profissional. A mãe dela faz trabalho de defesa e esclarecimento das prostitutas.

Mas o "plot" não é esse, e sim que a garota transa com um homem que sofre de paralisia cerebral, com as bênçãos de um padre. E, claro, há uma jornalista chata que fica atrás da menina para levantar a história e fazer o devido sensacionalismo (velha oposição cinema vs. imprensa)

A sinopse é boa, embora manifeste esse gosto pelos extremos que parece uma característica muito frequente do filme coreano. Mas o cara filma quase o tempo todo o pobre homem com paralisia cerebral. Quando não, tinha o padre chato. Quanto não, tinha uma música insuportavelmente alta.

Resultado: fui ver para fazer hora para o "35 Doses de Rum" e acabei nem vendo a Claire Denis, a sessão era à meia-noite e eu estava morto de sono.

Confio em Portugal. O que têm mostrado os filmes de lá me levaram a ir atrás de "Cinerama".

Uma roubada. Não entendi aonde a moça queria ir, temo que nem ela tenha entendido muito. Imagem sem força sempre, apesar de algumas locações muito bonitas, uma idéia inicial brilhante (alguém pendurado sugere um enforcamento que não está acontecendo, mas ao qual o filme remete) e Diogo Dória no meio disso tudo.

Apostas ganhas: "Seguindo em Frente", de Kore-Eda, e "O que Resta do Tempo" (ou "O Tempo que Resta"?), de Elia Souleiman.

Por Inácio Araujo às 11h38


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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