"Chanel", uma biografia decente

Fui ver "Coco antes de Chanel" para descansar dos filmes da Mostra e depois de ver o espetacular "Mother", coreano.
Esperava pelo padrão habitual das cinebiografias francesas tipo "Piaf", ou seja, algo insuportável salvo por uma atriz, ou pela música, essas coisas.
Mas me surpreendi. Na primeira sequência, ela e a irmã chegando a um orfanato, temi pelo pior. Mas desde ali, o filme chama a atenção para o olhar da menina, um olhar muito perspicaz.
Mais tarde, ela já cortesã, é interessante como o filme enfatiza o tipo de moda pré-Chanel, que vai do espartilho à sobrecarga de tecidos, cores, adornos, passando pelos chapéus que ela chamava de merengues.
Existe então essa sensibilidade que adivinha um mundo que está acabando (a belle époque, o pré-Primeira Guerra), e ela vai encarnar em grande medida isso, vai encarnar para o lado da moda, que hoje é indústria de ponta, "limpando" a mulher de toda aquela traquitana.
É claro, não é filme que muda o mundo, mas os atores estão muito bem dirigidos, a direção de arte é correta e a mise en scène tem fundamento, por isso o filme não é um mero acumular de fatos, como se vê com frequência no gênero. E, coisa importante, sabe quase sempre evitar o sentimentalismo e a grandiloquência.
Alcino Leite, que além de ótimo crítico de cinema também trata de moda, diz que o filme dá umas edulcoradas na figura de Chanel, o que deve ser verdade, e que às vezes puxa a sardinha para a brasa dela, mas essas coisas são esperáveis nesse gênero de filme.
Ele também chama a atenção para o academismo da imagem. Acho que nisso há certo exagero. Eu diria que a imagem é tradicional, própria de um filme comercial. O que "Chanel" é. Mas tem essa vivacidade bem acima da média do cinema comercial francês, que, como se sabe, tende ao horripilante.
Por Inácio Araujo às 08h51


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