UOL Cinema

23/10/2009

A Mostra 33 começa com saúde de ferro


Depois de muitos anos fui a uma abertura de Mostra, mais porque não conhecia o Auditório do Ibirapuera. Que é, realmente, um assombro. Não dá para entender, hoje, como se queria impedir sua construção: sem ele, havia algo faltando no parque.

Bem, é a Mostra 33. Se bem estou lembrado, a última abertura a que eu fui era no vão livre do Masp, com aquele filme "Assassinos por Natureza".

De todo modo, abertura é chato, cheia de atropelos, e eu gosto da Mostra porque, além dos filmes, encontro um monte de amigos que não posso ver muito durante o ano.

Parece que o mundo virou do avesso. Havia uma dezena de patrocinadores para falar. É meio chato o falatório e tal, mas, caramba, eu me lembro do tempo em que o Leon corria atrás de um, de um só patrocinio para fazer a Mostra.

Hoje as possibilidades são outras. A gente não pode esquecer que a Mostra nasce como parte de uma resistência cultural ao governo militar. À censura, etc.

Então, os tempos mudam. Todos os governos (União, Estado, Município) estavam presentes. A Mostra é um acontecimento tão oficial quanto a Bienal.

A diferença é que a Bienal já foi devidamente saqueada e, no mesmo dia, no mesmo horário, lá se promovia um jantar todo todo para arrancar dinheiro de possíveis mecenas.

Que ela encontre esse dinheiro, que se reerga, é coisa de que o ar que respiramos precisa, tanto quanto da Mostra.

Dito isso, o filme do Ken Loach, que foi exibido, é bem Ken Loach. Tem uma observação muito carinhosa da classe operária, que consegue articular a coisas como futebol de maneira brilhante. Talvez ele gonfle um pouco as coisas no final, em busca de efeitos emocionais. Mas, caramba, também o John Ford tinha essa fraqueza.

Hoje (sexta) pela manhá, a Ilustrada publica um artigo com o qual não concordo muito, a respeito de um sentimento de urgência que haveria no passado e não agora, quando sabemos que os filmes vão entrar, etc e tal.

Não estou nada certo disso. Entrei nessa conversa no ano passado e não fui ver o  "Redacted", pensando, "bah, filme do Brian de Palma não tem erro, vai entrar". Ou seja, se não fosse pela cópia baixada de internet que me emprestaram eu até hoje não teria visto este filme (o melhor de 2008, segundo "Cahiers du Cinéma").

Enfim, vamos à luta.

Por Inácio Araujo às 12h13


21/10/2009

Últimos preparativos para a Mostra


Bom, gente, na real a Mostra de S. Paulo começa depois de amanhã (sexta-feira).

Como várias pessoas pediram sugestões, posso passar os filmes que vi e achei do barulho:

SHIRIN - Abbas Kiarostami

ADAM RESURRECTED - Paul Schrader

ALGA DOCE - Wajda

SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA - M. Oliveira

VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO - Marcelo Gomes/K. Hainouz

Não vi, mas aposto:

35 DOSES DE RUM - Claire Dennis

SEGUINDO EM FRENTE - Kore-Eda

O TEMPO QUE RESTA - Elia Souleiman

Vi e acho interessante, mas não acabado:

A RELIGIOSA PORTUGUESA - Eugêne Green

Bem, isso é o que posso adiantar por agora, do que vi e do que ouvi de pessoas de confiança. Claro, há as figurinhas carimbadas, de Almodóvar a Ken Loach etc.

No geral, a Mostra deste ano me parece muito forte.

Acho que, de todos, a grande surpresa será o Paul Schrader, que há muito não tinha um filme tão forte,  se é que já teve um assim.

Por Inácio Araujo às 18h26


19/10/2009

Soderbergh trapaceia

Steven Soderbergh não me convence. Seus filmes dependem do assunto (Che), da máquina ("Onze Homens" e sequências), dos atores.

É verdade que os atores ele dirige bem e que os filmes industriais, digamos assim, são eficientes.

Mas o "Che", por exemplo, só andou enquanto era aventura.

E agora tem esse "O Desinformante". É a história de um mentiroso compulsivo, um pouco parecido com aquele filme do Spielberg, o "Prenda-me Se For Capaz".

A diferença é que Soderbergh trapaceia o tempo todo. Ele narra como se não soubesse quem é o personagem do Matt Damon. E o filme só existe porque nós, espectadores, ficamos no escuro sobre o essencial. 

Não existe nenhuma reflexão sobre o cinema, sobre a realidade, sobre as relações entre o verdadeiro e o verossímil. Ao menos eu não percebi.

Me parece que faz o inverso do Hitchcock, por exemplo, que já de cara contava quem era o assassino.

Não que se deva obrigatoriamente fazer como ele. Mas ele faz como o cinema tradicional de 1940, e vende como novo. Achei bem mal narrado, por sinal. Me perdi umas vezes em que isso não deveria acontecer.

Não sei, não me convence. E apesar do Matt Damon estar muito bem, no dia seguinte eu já tive dificuldade para lembrar do filme. Ele escapa, não tem nada de essencial, não é memorável, ao menos para mim não é. Divertido, sim, ele é.

P.S. 1 - "Distrito 9": sim, é um belo filme, muito mais do que eu esperava.

P.S. 2 - Não entendi o barulho em torno de "Deixa Ela Entrar".

P.S. 3 - Agora é a Mostra. Já vi coisas espetaculares.

Por Inácio Araujo às 17h17


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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