A Mostra 33 começa com saúde de ferro
Depois de muitos anos fui a uma abertura de Mostra, mais porque não conhecia o Auditório do Ibirapuera. Que é, realmente, um assombro. Não dá para entender, hoje, como se queria impedir sua construção: sem ele, havia algo faltando no parque.
Bem, é a Mostra 33. Se bem estou lembrado, a última abertura a que eu fui era no vão livre do Masp, com aquele filme "Assassinos por Natureza".
De todo modo, abertura é chato, cheia de atropelos, e eu gosto da Mostra porque, além dos filmes, encontro um monte de amigos que não posso ver muito durante o ano.
Parece que o mundo virou do avesso. Havia uma dezena de patrocinadores para falar. É meio chato o falatório e tal, mas, caramba, eu me lembro do tempo em que o Leon corria atrás de um, de um só patrocinio para fazer a Mostra.
Hoje as possibilidades são outras. A gente não pode esquecer que a Mostra nasce como parte de uma resistência cultural ao governo militar. À censura, etc.
Então, os tempos mudam. Todos os governos (União, Estado, Município) estavam presentes. A Mostra é um acontecimento tão oficial quanto a Bienal.
A diferença é que a Bienal já foi devidamente saqueada e, no mesmo dia, no mesmo horário, lá se promovia um jantar todo todo para arrancar dinheiro de possíveis mecenas.
Que ela encontre esse dinheiro, que se reerga, é coisa de que o ar que respiramos precisa, tanto quanto da Mostra.
Dito isso, o filme do Ken Loach, que foi exibido, é bem Ken Loach. Tem uma observação muito carinhosa da classe operária, que consegue articular a coisas como futebol de maneira brilhante. Talvez ele gonfle um pouco as coisas no final, em busca de efeitos emocionais. Mas, caramba, também o John Ford tinha essa fraqueza.
Hoje (sexta) pela manhá, a Ilustrada publica um artigo com o qual não concordo muito, a respeito de um sentimento de urgência que haveria no passado e não agora, quando sabemos que os filmes vão entrar, etc e tal.
Não estou nada certo disso. Entrei nessa conversa no ano passado e não fui ver o "Redacted", pensando, "bah, filme do Brian de Palma não tem erro, vai entrar". Ou seja, se não fosse pela cópia baixada de internet que me emprestaram eu até hoje não teria visto este filme (o melhor de 2008, segundo "Cahiers du Cinéma").
Enfim, vamos à luta.
Por Inácio Araujo às 12h13



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