Com seus "Bastardos", Tarantino traz a festa de volta ao cinema

Quando a gente entra na locadora parece que quase metade dos títulos tem aquela frase: "O filme que inspirou Tarantino".
O pior (ou melhor) é que isso tende a ser verdade.
Tarantíno é um famélico de cinema. Rato de locadora. O cinema que ele adora é o popular. Em "Bastardos Inglórios" há uns dez momentos em que parece que ele vai mandar tudo pro espaço e fazer um western spaghetti.
Não faz isso. É fiel ao gênero. Fiel numas. O filme de guerra dele é cheio de humor. O Hitler que compõe não saiu dos livros, nem das fotos, nem da realidade. Saiu do "To Be or Not To Be" ("Ser ou Não Ser") do Lubitsch, assim como boa parte do humor do filme. Muito vem do Godard. Há, claro, o Aldrich dos "Doze Condenados" e até do Enzo G. Castellari.
Nos filmes dele o que mais me impressiona é o vigor. Ele adora filmes, que parece decorar, mostra isso, mas não é um imitador. Agrega muita coisa de outros, mas nunca é um parasita. Faz a reminiscência possível de um cinema popular. Faz o público de classe média suspirar, enfim, diante daquele cinema que a população toda podia partilhar e, de vez quando, partilhava mesmo. De algum modo, o mantém vivo.
E visivelmente dá liberdade aos seus atores. O Brad Pitt faz um tenente americano fantástico: aquele tipo inocente, acreditando com pureza numa missão americana no mundo, com pureza mas com a grossura do cara da cidadezinha do Meio-Oeste, da América Profunda.
O ano está duro, de todos os lados há sinais de que é de criação a crise de Hollywood.
(Breve quero tocar nessa idéia das majors de investir mais no Brasil. Ou antes: no que falou um cara, um cretino de uma major, segundo o qual se trata de fazer uma indústria, nada dessa história de fazer cinema por amor. Ele faz cinema como quem nos faz uma espécie de favor. Daí esses filmes imbecis por toda parte).
Mas então: o Tarantino tem tesão de cinema. Não gosto da expressão, não gosto dela, mas não saberia defini-lo de outro modo. Enquanto a indústria não atrapalhar demais, teremos aí mais um resistente a trabalhar por gosto, por amor ao público, por desejo de trocar algo com ele.
Agora, se quiser este é também um filme de tese: a glória com frequência cai em mãos erradas, nas mãos do cara que não fez nada para merecê-la e até pelo contrário (isso não é interpretação minha, o QT é quem disse).
Não tem a menor importância: a festa, sim.
Por Inácio Araujo às 00h27

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