As vanguardas contra o conformismo industrial

Num fantástico artigo na Ilustrada (sábado, 26/9), Vladimir Safatle escreve o seguinte:
"Pois a idéia do envelhecimento definitivo das vanguardas virou uma estranha doxa dominante.
Ela serve atualmente para colocar fora de circulação toda tentativa de insistir na necessidade das obras de arte serem capazes de se constituírem como forma crítica. Forma capaz de nos desacostumar dos modos de organização, de visibilidade e de fascinação que circulam nas esferas da cultura industrial.
Pois quando essa exigência crítica sai de circulação, as obras de arte podem se transformar na mera estetização de linguagens próprias a esferas hiper-fetichizadas da cultura, como a moda, a publicidade, os quadrinhos, a pornografia etc."
Ele está se referindo à exposição da vanguarda russa no CCBB. Mas tudo isso não se aplica ao cinema?
Será admissível uma arte que desconheça a dimensão crítica? Para que serve? Vale a pena cultivar a idéia de uma "indústria brasileira de cinema" para produzir mais ou menos aquilo que a TV produz?
Não estou querendo dizer com isso que o cinema deva ser uma arte elitizada ao extremo. Me parece que a chanchada estava lá discutindo alguma coisa, produzia uma resposta, tosca muitas vezes, é verdade, às formas esmagadoras do cinema americano, acrescentando-lhe o rádio, os cantores, a música, que sempre foi o nosso forte.
Posso estar enganado, mas o que eu mais vejo hoje em dia é a necessidade de criar o sucesso a qualquer preço, reproduzindo formas fetichizadas da publicidade, por exemplo, para não falar da TV. Busca de sucesso que se faz acompanhar de uma ignorância quase sublime sobre a arte que se pratica.
Desculpe o Sérgio Rezende, mas é ridículo, mesmo em nome da publicidade, essa história de gritar coisas como "rumo à vitória", como se um filme fosse um time de futebol embarcando para a Copa do Mundo (ou para as eliminatórias, no caso).
Essa história de cinema auto-suficiente (que não precisa de dinheiro público para viver) é um conto de fadas, qualquer um sabe disso. E essa de ficar olhando as bilheterias dos filmes como quem olha a balança de pagamentos do país não faz nenhum sentido.
O cinema novo não fez nenhum sucesso, mas fez o cinema brasileiro existir porque tinha idéias, originalidade e um combate. Era uma vanguarda, aliás.
O conformismo, a submissão aos padrões internacionais, a imitação barata da TV ou de filmes estrangeiros não produzem senão um cinema bundão, rigorosamente sem relevância.
Basta ver os resultados deste ano: quase tudo que se parece com cinema está sendo exilado das salas em favor de coisas anódinas.
Diga-se em defesa do Brasil que esse não é um fenômeno apenas brasileiro. Nossa fragilidade só o acentua.
Enquanto o pessoal do Rio curte seu festival, enquanto o de São Paulo espera sua Mostra, vamos aos russos no CCBB.
Por Inácio Araujo às 12h43


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