UOL Cinema

26/09/2009

As vanguardas contra o conformismo industrial

 

Num fantástico artigo na Ilustrada (sábado, 26/9), Vladimir Safatle escreve o seguinte:

"Pois a idéia do envelhecimento definitivo das vanguardas virou uma estranha doxa dominante.

Ela serve atualmente para colocar fora de circulação toda tentativa de insistir na necessidade das obras de arte serem capazes de se constituírem como forma crítica. Forma capaz de nos desacostumar dos modos de organização, de visibilidade e de fascinação que circulam nas esferas da cultura industrial.

Pois quando essa exigência crítica sai de circulação, as obras de arte podem se transformar na mera estetização de linguagens próprias a esferas hiper-fetichizadas da cultura, como a moda, a publicidade, os quadrinhos, a pornografia etc."

Ele está se referindo à exposição da vanguarda russa no CCBB. Mas tudo isso não se aplica ao cinema?

Será admissível uma arte que desconheça a dimensão crítica? Para que serve? Vale a pena cultivar a idéia de uma "indústria brasileira de cinema" para produzir mais ou menos aquilo que a TV produz?

Não estou querendo dizer com isso que o cinema deva ser uma arte elitizada ao extremo. Me parece que a chanchada estava lá discutindo alguma coisa, produzia uma resposta, tosca muitas vezes, é verdade, às formas esmagadoras do cinema americano, acrescentando-lhe o rádio, os cantores, a música, que sempre foi o nosso forte.

Posso estar enganado, mas o que eu mais vejo hoje em dia é a necessidade de criar o sucesso a qualquer preço, reproduzindo formas fetichizadas da publicidade, por exemplo, para não falar da TV. Busca de sucesso que se faz acompanhar de uma ignorância quase sublime sobre a arte que se pratica.

Desculpe o Sérgio Rezende, mas é ridículo, mesmo em nome da publicidade, essa história de gritar coisas como "rumo à vitória", como se um filme fosse um time de futebol embarcando para a Copa do Mundo  (ou para as eliminatórias, no caso).

Essa história de cinema auto-suficiente (que não precisa de dinheiro público para viver) é um conto de fadas, qualquer um sabe disso. E essa de ficar olhando as bilheterias dos filmes como quem olha a balança de pagamentos do país não faz nenhum sentido.

O cinema novo não fez nenhum sucesso, mas fez o cinema brasileiro existir porque tinha idéias, originalidade e um combate. Era uma vanguarda, aliás.

O conformismo, a submissão aos padrões internacionais, a imitação barata da TV ou de filmes estrangeiros não produzem senão um cinema bundão, rigorosamente sem relevância.

Basta ver os resultados deste ano: quase tudo que se parece com cinema está sendo exilado das salas em favor de coisas anódinas.

Diga-se em defesa do Brasil que esse não é um fenômeno apenas brasileiro. Nossa fragilidade só o acentua.

Enquanto o pessoal do Rio curte seu festival, enquanto o de São Paulo espera sua Mostra, vamos aos russos no CCBB.

Por Inácio Araujo às 12h43


24/09/2009

O técnico, o ministro, o curandeiro (ou: Três golpes de mestre)

 

 

Três caras me impressionaram bem nos últimos tempos. O primeiro numa imagem de TV, o terceiro no cinema, e o segundo sem imagem.

1) Estava na TV Mano Menezes, o técnico do Corinthians.

Mas o apresentador, Flavio Prado, queria saber era do técnico do Goiás. E fez repetir as declarações que todo mundo já conhecia de um modo ou de outro: "Essa história de homem com ciúme de homem é viadagem. E eu não trabalho com homossexual."

E perguntaram ao técnico do Corinthians o que ele achava. Ele deu aquela aplainada tradicional: o técnico estava sob pressão, exagerou um pouco, mas eu conheço bem ele, não é assim que ele pensa, etc.

Mas o apresentador estava animado e perguntou como o treinador faria diante de um jogador homossexual que fosse contratado pelo seu time. E o Mano Menezes: "Eu não pergunto se o jogador é loiro, se é católico, se é careca... Por que eu perguntaria sobre sua orientação sexual?

O jornalista ainda retomou a questão sobre o preconceito no meio futebolístico. E foi nessa hora que o técnico cortou curto o papo e todo o sensacionalismo implícito: "Me parece que o próprio fato de estarmos falando disso aqui já é um sinal de preconceito".

E pano rápido.

2) Sempre tive a impressão que o ministro da Cultura era só um casca-grossa, tipo esse cara que ficava segurando todas as coisas inconvenientes para que o ministro da cultura antes dele, o Gilberto Gil, pudesse brilhar.

Mas ele me saiu com duas formidáveis, que abalaram minhas convicções direto.

Primeiro, numa Sabatina Folha, já faz um tempo, foi no cerne da parceria público-privada das Leis de Incentivo: "A parceria é assim: eles entram com a decisão, eu entro com o dinheiro".

Uma frase que resume boa parte dessas leis. Não são leis que propiciam à iniciativa privada investir em cultura. São leis pelas quais o Estado renuncia a impostos que deveria ser seus, em benefício de decisões tomadas por empresas privadas.

Ele nem falou, mas eu completo: como se não bastasse, essas empresas ainda fazem propaganda. Nos filmes brasileiros é ridículo, em cada abertura, aqueles outdoors pendurados em todo santos começo.

Todo mundo sabe que o Estado decidir é um outro problema. Mas o que ele falou é irretocável.

Outra do ministro da Cultura. Com mil abutres atrás desse dinheiro (que por ora é só cheiro) do pré-sal, ele saiu a exigir que a Cultura também recebesse sua parte. E conseguiu. Parece óbvio, mas tomar um pouco que seja para a cultura enfrentar a barbárie é um trabalho de Hércules.

3) Em "Profissão: Repórter", que eu não via há séculos, Jack Nicholson entrevista a horas tantas um curandeiro com estudos feitos em Paris e não sei mais onde. Pergunta se depois disso não se alterou seu entendimento das crenças tribais. Ele responde: "Locke, há respostas satisfatórias para todas as suas perguntas. Mas acho que não entende o quão pouco poderia aprender com elas. Suas perguntas revelam muito mais sobre si mesmo do que minhas respostas revelariam sobre mim."

Pano rápido outra vez.

(Já inseri a fala literal do entrevistado. Informo que acabo de rever o filme porque ele entra no ciclo Cinema e Jornalismo, da Folha, e será exibido e debaitdo em SP no Espaço Unibanco, terça que vem)

Por Inácio Araujo às 01h18


21/09/2009

Helena Ignez e os filmes que já vêm prontos


No programa "Sala de Cinema", da Sesc TV, Miguel de Almeida pergunta a Helena Ignez o que ela acha de "Assalto ao Trem Pagador", em que trabalhou como atriz. Ela responde que era um ótimo filme comercial. Miguel parece não aceitar a resposta e pergunta por que "comercial".

Helena diz mais ou menos o seguinte: é porque era um filme que já estava pronto.

Miguel entende e não prossegue. Mas há uma ambiguidade deliciosa no que ela diz. "Pronto" como?

Me parece que em dois sentidos. Primeiro, porque é um filme que vem da escrita, basicamente. Tratava-se de executar.

"Não ter a alma de um executante", recomendava Bresson.

Ao mesmo tempo, "estar pronto" significa estar conforme à linguagem do cinema. Nada acrescentar. Novamente, executar.

No caso brasileiro, seja pelas limitações de dinheiro, seja pelo que for, uma boa execução tem de ser saudada. É o que fez Roberto Farias em "Assalto".

Mas convém sempre, como fez Helena, não esquecer que a invenção é outra coisa. É dissentir, contestar, estar do outro lado.

Hoje existe um grande lobby por um cinema brasileiro comercial e "bom". Comercial tem aos montes. Satisfatório, nem tanto.

(P.S. - Obrigado ao Joel Pizzini pelas belas imagens acima)

Por Inácio Araujo às 17h19


20/09/2009

Mais cinemas, menos bingos

 

No passado, as salas de cinema viraram igrejas evangélicas, estacionamentos e bingos.

Os três signficavam o oposto do cinema, do cinema que amamos, como expressão de liberdade e de crescimento espiritual.

De todos, o que mais me agredia era o bingo, pelo poder de corrupção, de sujeira, de contágio doentio que traz consigo.

O lobby da jogatina está tentando (e conseguindo) fazer com que os bingos voltem. Já passou com folga (entenda-se, deputados de situação e oposição unidos) numa comissão da Câmara.

É impressionante como coisas destrutivas (porém lucrativas) lutam para impor tudo que é indecente com argumentos mais indecentes ainda, que não convém nem repetir de tão imorais.

E outra: ninguém precisa das ultrajantes esmolas que eles propõem distribuir aqui e ali.

Que muitas salas de cinema, de leitura, de espetáculos, de arte abram e possam contribuir para a população se instruir, se divertir, se aperfeiçoar. Bingos, não. 

 

Um comentário geral:

Eu entendo as senhoras que iam se divertir nos bingos com R$ 10 por noite. Posso até entender que existam donos de bingos honestos.

Mas o fenômeno da liberação é mais grave. De cara, ela é só o início da atividade do lobby pela reabertura dos cassinos.

Certas alegações não fazem sentido. Dizer que bingos criam emprego é uma falácia.

Ora, o cinema mudo também dava muito emprego a músicos. Quando acabou foi uma crise desgraçada no setor. Devemos, então, reabrir o cinema mudo?

Os empregos não criados aqui serão criados no Paraguai? Ótimo. Eles estão mais precisados do que nós.

Devemos ter bingos e cassinos porque nos países ricos é assim? Então deveríamos saudar a chegada do crime organizado (não o dos cassinos, o do PCC), o racismo, os pogroms etc.

É um argumento que não faz sentido. O que podemos copiar dos países desenvolvidos é a igualdade sueca, o sistema de saúde francês etc. Não cassinos.

A alegação dos deputados de que se trata de legalizar algo que existe de fato é inacreditável.

A seguir essa lógica também podemos legalizar o assassino de primeiro grau, por exemplo, que existe há mais tempo que os bingos.

Também sou contra o excesso de loterias administradas pela Caixa Econômica, mas é preciso reconhecer que a natureza desses jogos tipo loteria é completamente outra. Em todo caso, se fossem proibidos, também, teriam meu apoio. Nesse papo de jogatina eu fecho com o presidente Dutra. É coisa deletéria. 

Nem estou falando de bingos que inventam galeria de arte fajuta e buscam dinheiro de leis de incentivo à cultura, portanto dinheiro que era da literatura, do teatro, das artes, do cinema.

Por Inácio Araujo às 03h52


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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