UOL Cinema

07/08/2009

"Moscou" transtorna espaço e tempo

 

 

Com “Moscou”, Eduardo Coutinho passou (ou voltou?) à ficção.

 

Mas não se pode dizer isso com muita certeza porque ele observa essa linha que demarca a ficção do documentário com desenvoltura sempre maior.

 

De todo modo, em “Moscou” a ficção é inequívoca. Ela vem de Tchecov, de “As Três Irmãs”.

 

Mas não existe uma adaptação para cinema propriamente. Existe a peça filmada, ou cenas da peça filmadas. Ainda assim, elas formam um todo.

 

“Moscou” é o registro de uma ficção que se desenvolve em outra parte, no teatro. É o documentário que se dobra sobre a ficção, ao inverso do que acontece nos filmes de Coutinho desde “Cabra Marcado”.

 

Em seguida, Coutinho introduz um elemento que não contava em seus filmes desde, justamente, “Cabra Marcado”: o tempo.

 

Não esse tempo, em todo caso. Um tempo que parece feito de hiatos, ou de elipses. Em “Cabra”, os 18 anos (era isso?) entre a filmagem original e o retorno à cidadezinha.

 

O que é, agora, essa Moscou evocada pelas moças? Um lugar perdido, tão mais maravilhoso porque perdido, inatingível.

 

Em vários sentidos. Entre a peça e nós passaram por Moscou os czares, os comunistas e, agora, os capitalistas. Moscou é um sonho qualquer, como "Moscou". Das calças jeans, da justiça social, dos passos perdidos, do que se quiser.

 

E não mais que isso. Porque no meio, me parece, existe ainda o tempo da literatura, do teatro, incidindo sobre o conjunto. Moscou é Godot, de certa maneira. Nossa eterna espera. Nosso absurdo. Uma ficção, em suma.

 

Uma ficção de que Coutinho busca a parte documental.

 

Jean-Claude diz (em seu blog também no UOL) que é um impasse, uma espécie de filme em frangalhos.

 

Não sei. Me parece mais uma busca que segue, ou que recomeça, como um ensaio.

 

Se "Jogo de Cena" era um ponto de chegada, de acabamento, aqui temos uma nova partida.

 

Não é um filme fácil. É muito inquieto, no sentido estético e de pesquisa. Coutinho é um cineasta de um rigor impressionante.

 

Por Inácio Araujo às 17h59


"Inimigos Públicos" ou A Depressão vivida como euforia

 

Ainda estou boquiaberto com "Inimigos Públicos".

E boquiaberto com o que o Sérgio Dávila reportou na Ilustrada: a crítica americana teria achado o filme vazio.

Vazio como? Não de ação, claro. De sentido? A mim parece um dos filmes mais plenos dos últimos tempos.

Poucas vezes tive a sensação de estar dentro de um grande filme de gângster como aqui. Parece filme do Raoul Walsh, desde o início. Dillinger é um cara com algo a fazer. E faz. Me lembrou o "High Sierra", mas atualizado, e com a violência fluente, irresponsável, de "Scarface", o original.

Um filme tremendamente físico. Na platéia, a gente como que sente o cerco a Dillinger. Fisicamente. Mais do que ele próprio.

O sentido da sua vida está na ação. Na ação vertiginosa em qualquer circunstância. Mal a acompanhamos, por vezes. Ele vive a Depressão como euforia. Inverte o mundo para refazê-lo à sua imagem e semelhança. Que é a imagem e semelhança do cinema. É um sonho.

Dillinger se reflete no cinema. Pouco antes de morrer, ele vai ao cinema e vê um filme de gângster. Isso devia aborrecê-lo: ele é o modelo real da coisa, afinal.

Mas não. Ele adora esse espelho. Ele se forma naquela imagem. É ela que o funda, ali que ele se reconhece, ali que transcende a si mesmo.

Há muita coisa ainda a falar sobre este filme.

Faz muito tempo pessoas que eu respeito, que sabem o que falam, tentam me convencer da beleza dos filmes de M. Mann.

Até aqui, na maior parte das vezes eu não tinha me impressionado, embora, claro, seja nítido que não são filmes de qualquer um.

A partir daqui a história é outra. É um cineasta realmente invulgar.

Por Inácio Araujo às 03h08


06/08/2009

Em torno de uma homenagem


Fico sabendo, por e-mail, que Newton De Lucca será homenageado na dupla condição de professor e desembargador da Justiça Federal.

Pois bem: ele foi meu colega no colegial. Nos encontramos há tempos. Não consigo vê-lo como professor/desembargador.

É "o Poeta", como o chamava o prof. Sales, um animado versejador. Passa o tempo... Já colegas que morreram, como Zé da Silva, Otávio, Bumaruf.

Há, na turma, quem virou professor, como Tamara Tania, no Rio, Piero, em SP, ou psicanalista, como Mania.

Há quem eu não vi mais, como Miriam, que virou brava guerrilheira e uma vez apareceu falando na televisão.

Os destinos são diversos, por vezes inesperados.

Não estarei na homenagem, porque seria um peixe fora d'água, no meio da turma dos advogados.

Mas, caramba, não consigo me acostumar com a idéia de que o tempo passou, de que quem tinha que ser feliz foi, quem tinha que morrer morreu, quem tinha de ser consagrado foi.

À parte as evidências físicas, nunca passei dos 16 anos. Continuo um moleque. E do contra, como dizia minha mãe.

Também eu era dado a fazer uns versos, ou coisa assim, na época. Coisas que o prof. Sales detestava, por sinal, porque era homem de bom senso.

Coisas que o amigo Claudio Willer, um pouco mais tarde, achava até que eu devia publicar. Dessa vez quem teve bom senso fui eu. Fiz uma saudável fogueira com aquilo tudo.

Chega. Não sou o que interessa, nessa história. Dou os parabéns ao Newton à distância.

Opa. E-mail do Giannini me avisa que morreu Budd Schulberg. Não aguento mais saber de gente morrendo. Desculpe. Não vou escrever nada.

Por Inácio Araujo às 16h48


03/08/2009

Deriva para lugar nenhum


Eu consigo entender que "À Deriva" tenha sido feito, mas não que tenha sido escolhido e que tenha participado de uma mostra oficial do Festival de Cannes.

Cannes tem a obrigação de abrir caminho para um entendimento mais ou menos avançado do que seja cinema, e o filme do simpático Heitor Dhalia não se aguenta nas pernas.

O roteiro é estapafúrdio. Onde se viu: o filme leva todo o tempo a um tipo de entendimento das coisas (mulher frustrada e alcoólatra + marido que tem caso com outra garota = ameaça de separação), vivenciado pela filha adolescente como uma catástrofe.

Mas a horas tantas sabemos que não é nada disso. A coisa é tirada da cartola, verbalmente, pela necessidade de uma "virada" no roteiro. Não se sustenta como dramaturgia, como ficção, como nada. Qualquer roteirista, o mais modesto do mundo, sabe que isso não pode acontecer assim.

A distribuição dos planos é uma coisa lamentável. É mais ou menos assim: alguém diz que a mamãe está bebendo. Plano da mãe bebendo. E por aí vai. É assim o tempo todo. A filha passa pela amante do pai. A amante a cumprimenta. Ela, não, pois acha que a amante de brincos enormes e turbante é a causa da separação dos pais. Pode acontecer? Claro que pode. Mas do ponto de vista dramático não é nada, é de uma insuficiência atroz.

Em outro momento, o pai procura pela filha. Topa com um acidente grave. Há alguém dentro do carro. Ele consegue retirar uma menina. Será que é sua filha? Não, não é. O incidente termina.

Que sentido tem isso, além de altamente dispersivo?

Passo pelo setor cartão postal de Búzios (ou será Parati?), bastante alentado. O recuo no tempo não faz sentido algum, não tira nem acrescenta nada.

Enfim, não gosto de dizer isso, mas não vejo o que se salve em "À Deriva", com exceção da menina, a filha, que tem boa presença. O Vincent Cassel poderia ser qualquer outro, não faria diferença.

Em resumo, me parece uma pena que Dhalia chegue ao terceiro filme sem que se vislumbre nenhum ponto de vista, nada.

Mas é um desastre que um filme tão fraco vá para Cannes, numa mostra oficial. Tudo  bem, há jogos de força em festivais, sobretudo esses grandes, etc. Mas não dá para levar a sério quando se estabelece uma tal confusão de valores.

Por Inácio Araujo às 12h48


A morte de Bernardo Vorobow

 

Morreu na quinta-feira (30/7/2009) Bernardo Vorobow, que no começo dos anos 70 era um animador infatigável da SAC (Sociedade Amigos da Cinemateca), que na época funcionava num subsolo do cine Belas Artes.

Estávamos na ditadura e Bernardo queria, antes de mais nada, salvar filmes da destruição.

Mais tarde tornou-se responsável pelas exibições da Sala Cinemateca, no tempo em que era na rua Fradique Coutinho.

Isso coincidiu, se não estou enganado, com o tempo em que Carlos Augusto Calil era diretor geral e desenvolveu uma política de exibição bastante agressiva. Algo como: para que conservar filmes se não é para exibi-los?

Mesmo depois que Calil saiu, Bernardo continuou desencavando os Tesouros da Cinemateca. Mas não por muito tempo.

Acabou saindo e criando, com o cúmplice e companheiro Carlos Adriano, a Babuschka, que trouxe alguns ciclos importantes ao Brasil e que trabalhava preferencialmente com a Cinemateca.

Deve-se a ele, no mais, a produção dos filmes experimentais de Carlos Adriano.

Com Bernardo, já são duas as baixas históricas da Cinemateca Brasileira este ano. Rudá de Andrade é outra morte imperdoável com a qual devemos conviver.

Por Inácio Araujo às 12h43


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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