O que é ser normal?

Dois filmes franceses me impressionaram muito bem, recentemente.
O que eles têm em comum é que, não sendo tontos, tratam de pessoas perfeitamente habituais.
"Horas de Verão" é, me parece, unanimidade ou quase isso. Nem vou falar, portanto, do filme do Olivier Assayas, que me pareceu prejudicado apenas pela projeção digital. Ele é de um perfeccionismo quase doentio na imagem, aí vem a projeção digital e prejudica bastante. Mas o filme continua notável, claro.
Quem me surpreendeu foi "Paris", que teve uma recepção fria por aqui, o que me parece injusto.
Tento explicar meu ponto. O normal é se valorizar os filmes que trazem situações excepcionais, extremas etc. Parece que apreender o cotidiano é coisa banal ou menor. Não é. É todo o projeto do Jean Renoir. No mais, o filme faz isso muito bem.
Não sempre. Ele tem lá suas irregularidades. Mas a sequência no psicanalista, por exemplo, é excepcional, assim como quase todas que envolvem Fabrice Luchini (o historiador). A cena em que ele dança no seu apartamento me pareceu espetacular.
O que mais me seduziu no filme, no entanto, e tanto mais por ele ser francês é falar de pessoas normais. Sei, a pergunta que se faz de imediato é: "tá, mas o que é normal?"
Bem, a questão é formulada por um personagem no filme. E, mais, me parece a questão por excelência formulada pelo filme.
É importante a gente ver que mesmo o historiador, que parece um tarado à primeira vista, quando confrontado com a moça, objeto do seu desejo, logo vai dizendo: não pense que eu sou um perverso maquiavélico ou coisa assim.
Quanto ao personagem principal, o bailarino com problemas no coração (ninguém mais tem problemas de coração no cinema, só Aids e herpes), sua trajetória me lembrou um pouco a de "Cleo das 5 às 7".
No geral, os comportamentos são os mais triviais possíveis, o que não impede o filme, de modo algum, de se dedicar ao seu desafio central, que é mostrar Paris como uma cidade em que se sobrepõem várias camadas de histórias, vários séculos.
Também me parece interessante que, mais recentemente, o cinema francês voltou a se encantar com a possibilidade de mostrar Paris. Não via isso há muito tempo. Não é esse o primeiro filme recente. Paris tem que ser personagem privilegiada do cinema francês, é claro.
Por fim: Paris é feita de prédios baixos. Londres também. Nova York também. Por que só São Paulo tem que ser essa aberração de prédios absurdamente altos e, não raro, medonhos?
Por Inácio Araujo às 19h54

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