UOL Cinema

10/07/2009

O que é ser normal?

 

Dois filmes franceses me impressionaram muito bem, recentemente.

O que eles têm em comum é que, não sendo tontos, tratam de pessoas perfeitamente habituais.

"Horas de Verão" é, me parece, unanimidade ou quase isso. Nem vou falar, portanto, do filme do Olivier Assayas, que me pareceu prejudicado apenas pela projeção digital. Ele é de um perfeccionismo quase doentio na imagem, aí vem a projeção digital e prejudica bastante. Mas o filme continua notável, claro.

Quem me surpreendeu foi "Paris", que teve uma recepção fria por aqui, o que me parece injusto.

Tento explicar meu ponto. O normal é se valorizar os filmes que trazem situações excepcionais, extremas etc. Parece que apreender o cotidiano é coisa banal ou menor. Não é. É todo o projeto do Jean Renoir. No mais, o filme faz isso muito bem.

Não sempre. Ele tem lá suas irregularidades. Mas a sequência no psicanalista, por exemplo, é excepcional, assim como quase todas que envolvem Fabrice Luchini (o historiador). A cena em que ele dança no seu apartamento me pareceu espetacular.

O que mais me seduziu no filme, no entanto, e tanto mais por ele ser francês é falar de pessoas normais. Sei, a pergunta que se faz de imediato é: "tá, mas o que é normal?"

Bem, a questão é formulada por um personagem no filme. E, mais, me parece a questão por excelência formulada pelo filme.

É importante a gente ver que mesmo o historiador, que parece um tarado à primeira vista, quando confrontado com a moça, objeto do seu desejo, logo vai dizendo: não pense que eu sou um perverso maquiavélico ou coisa assim.

Quanto ao personagem principal, o bailarino com problemas no coração (ninguém mais tem problemas de coração no cinema, só Aids e herpes), sua trajetória me lembrou um pouco a de "Cleo das 5 às 7".

No geral, os comportamentos são os mais triviais possíveis, o que não impede o filme, de modo algum, de se dedicar ao seu desafio central, que é mostrar Paris como uma cidade em que se sobrepõem várias camadas de histórias, vários séculos.

Também me parece interessante que, mais recentemente, o cinema francês voltou a se encantar com a possibilidade de mostrar Paris. Não via isso há muito tempo. Não é esse o primeiro filme recente. Paris tem que ser personagem privilegiada do cinema francês, é claro.

Por fim: Paris é feita de prédios baixos. Londres também. Nova York também. Por que só São Paulo tem que ser essa aberração de prédios absurdamente altos e, não raro, medonhos?

Por Inácio Araujo às 19h54


09/07/2009

Morte de Jean-André Fieschi

 

Às vezes isso aqui parece uma coluna de necrológio. O fato é que só ontem fiquei sabendo da morte de Jean-André Fieschi, que foi um dos principais críticos dos Cahiers du Cinéma, aos 60 anos. Não existe mais o chamado interesse jornalístico, já que foi no dia 1o. de julho, à tarde, que se deu.

Ele estava no Brasil, mais precisamente na Cinemateca, começando sua intervenção numa mesa sobre Jean Rouch, quando foi fulminado por um ataque cardíaco.

Talvez ele apreciasse essa cena um tanto hitchcockiana: alguém que morre no momento em que vai falar algo importante, ou esperado.

Fieschi foi um dos nomes principais da segunda geração dos Cahiers, aquela que chega à revista no começo dos anos 60 e a reforma a partir de meados da década, sob a direção de Jacques Rivette.

Uma geração que teve muita importância para a minha, a quem apresentou uma penca de cineastas importantes e abriu os olhos para os cinemas novos que surgiam por toda parte.

Depois de 1968, Fieschi afastou-se à medida que a revista tomou rumos políticos radicais, enquanto ele permaneceu ligado ao Partido Comunista Francês, e a partir de então dedicou-se sobretudo ao ensino.

Por Inácio Araujo às 07h33


05/07/2009

"Jean Charles" cria belo retrato da diáspora brasileira


Admito que fui ver "Jean Charles" com um pé atrás. Temia um desses filmes oportunistas que caem matando em cima de um acontecimento sensacional e fazem um mau filme (nada contra o oportunismo, mas contra os filmes ruins).

Ora, o que está lá não é nada disso. O diretor, Henrique Goldman, mora em Londres e é documentarista. A principal virtude de seu filme me parece que é, justamente, conhecer e descrever esse meio dos imigrantes brasileiros: como vivem, seus problemas, suas diversões, as solidariedades e traições que podem acontecer etc.

Jean Charles, evidentemente, cataliza toda a narrativa. Não sei se ele era assim, mas para efeito do filme funciona: falante, virador, pra cima, simpático, um pouco trapaceiro.

Selton Mello ajuda pra caramba e deve ter ajudado também nos diálogos, que muitas vezes parecem conduzir a ação. Isso ajuda muito a formular esse aspecto documental. Parece, muitas vezes, que se está improvisando. Não é um filme audaz, no sentido de grandes inovações etc., mas acho que isso não vinha ao caso.

Depois da morte de Jean Charles, o filme sofre com alguma hesitação, como se não soubesse muito bem o que fazer com os ingleses. Digamos que essa era a hora em que o filme devia passar para o David Lean, ou que o Goldman devia encarnar o espírito do David Lean, o que deve ser muito duro para ele. O fato é que o filme não sabe se cuida da dor da família, do Brasil, da mancada da polícia inglesa. Ou, o que é pior (e é diferente do mero equívoco), a arrogância absurda.

A cena para fazer isso, a dos ingleses que vêm visitar a família de Jean Charles, falha (me parece que, justamente, por não ter uma firmeza de ponto de vista).

Isso é bem pouco. Tenho visto aproximações entre este filme e aquele "Meu Nome Não É Johnny". Não vi nada parecido, francamente, a não ser, claro, o ator. "Johnny" é um filme moralista, simplesmente. Não dá conta, nem por um instante, de questões como o meio da droga, o que é ser drogado etc. (exceto na medida em que interessem à trama, e da maneira em que possam interessar ao que pretende dizer).

"Jean Charles", ao contrário, se deixa levar pelas coisas e, com isso, em vez de apresentar uma realidade pronta, acadêmica, vai absorvendo o que o mundo pode mostrar. É o primeiro filme que trata da diáspora brasileira que eu vi, ao menos de que me lembre, e é muito informativo.

P.S. 1 - Será à toa que Stephen Frears aparece nos créditos como produtor executivo?

P.S. 2 - No vídeo acima, dá para avaliar como a reação ao caso, mesmo na Inglaterra, foi mais profunda do que aparece no filme (o que, repito, não o invalida).

Por Inácio Araujo às 11h44


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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