UOL Cinema

03/07/2009

Karl Malden, o número 2

 

Não me apressei para escrever sobre Karl Malden. Mas ele não se apressou para morrer, de maneira que estamos quites.

É bom falar de alguém que morreu com 97 anos e dormindo.

Malden foi um ator notável. O coadjuvante por excelência. Ou melhor: o coadjuvante de excelência. O melhor número 2 que qualquer filme poderia desejar. Se Marlon Brando estava em cena e ele por perto, Brando podia brilhar à vontade, mas nunca ofuscava Malden. Foi assim em "Uma Rua Chamada Pecado" - vulgo "um Bonde Chamado Desejo" -, em "Sindicato de Ladrões", em "A Face Oculta". Quem segura Brando segura qualquer um, e assim foi ao longo dos anos, entre outras ao lado de Montgomery Clift em "A Tortura do Silêncio", ou como o gen. Bradley em "Patton", ao lado de George C. Scott. Mesmo como ator principal ("Baby Doll") parecia ter prazer em não ofuscar ninguém.

Com seu nariz de batata, me marcou como um tipo íntegro, com um quê ingênuo (ou bom) que contrastava com seu físico grandalhão. Mas possuía uma inteligência que se sobrepunha à candidez com que olhava o mundo.

Vejo no IMDb que só duas vezes concorreu ao Oscar, sempre como melhor coadjuvante. Ganhou uma. Mais tarde tornou-se presidente da Academia.

Por Inácio Araujo às 15h18


30/06/2009

Pequeno guia dos formatos de tela (e suas adulterações)

por Juliano Tosi

 "Vestida para Matar" em seu formato original (acima) e em versão cortada (abaixo)

Há algum tempo, o Alexandre Schettini, leitor do blog, perguntou a respeito dos formatos de tela.

O assunto vem a calhar, já que os canais de filmes na TV a cabo readquiriram o péssimo hábito de exibir os filmes, quase sempre, em tela cheia. Outro dia foi “Vestida para Matar”, do Brian De Palma, no Telecine.

Filmado em 1:2,35 (cinemascope) foi reduzido à tela cheia de TV, que corresponde mais ou menos ao 1;1,33.

(Um parêntese. Os formatos mais usados, desde o início do sonoro, são o 1:1,33 (a tela era quase quadrada, hoje não se exibem mais filmes usando essa janela, praticamente); 1:1,66 (a chamada "janela panorâmica", mais verticalizada um pouco do que a janela clássica); Panavision, 1:1,85 e Cinemascope, 1:2,35).

Voltando ao assunto. Pode-se argumentar, diante do que faz a TV que o DVD é a solução. Mas e quando só nos resta assistir a uma “Bela do Bas-Fonds”, do Nicholas Ray, com seu scope mutilado?

Num passado não muito distante era possível assistir a “O Homem do Oeste”, “Dragões da Violência” e “Amar e Morrer”, todos com imagem panorâmica, em seu formato original.

Hoje, o descuido com a imagem dos filmes (noves fora a qualidade da programação, que anda precária) é a regra; exceção é ver um filme ser exibido corretamente.
 
Mas, afinal, para que servem os formatos de tela?

Talvez a melhor resposta esteja neste pequeno vídeo disponível nos extras de “O Desprezo”, no DVD editado pela americana Criterion.

É uma comparação do filme tal como foi realizado (em scope) e tal como fora lançado em VHS (em tela cheia). As partes sombreadas correspondem ao que foi cortado no filme para a imagem “encaixar” no formato padrão das televisões. 

De uma imagem em formato 1:2.35 (o segundo número indica quantas vezes a largura é maior do que a altura do quadro), passamos a uma outra quase quadrada (em formato 1:1.33). A perda é evidente: mais de 40% da imagem original! 

Sem falar nos falsos movimentos de câmera (uma técnica chamada pan-and-scan), feitos para amenizar os buracos da imagem. 

Se pensarmos que a mise-en-scène de um filme consiste em fazer escolhas, uma delas é descobrir o equilíbrio entre o que revelar do mundo e o que deixar fora do quadro, a maneira de melhor dispor os elementos em cena. Alterar esta relação é interferir (para não dizer destruir) direta e materialmente no filme realizado.

Ou como escreveu certa vez o Inácio: “se o filme tem um formato, deve ter lá seus motivos. Em certos casos, desrespeitá-lo é como exibir outro filme.

Afinal, ninguém nunca pensou em exibir uma Santa Ceia com apenas Cristo no centro e seis discípulos a seu lado, não é mesmo?”.

Complemento sobre uma coisa grave que o Paulo Santos Lima aponta na projeção digital feita no Brasil:

A janela usada é 1:1,78, o que mutila filmes rodados originalmente em 1:1,85 (Panavision) ou 1:2,35 (Cinemascope). Seria importante, mais do que avisar na porta que a exibição é digital, avisar que o filme não está sendo reproduzido tal como foi feito.

Por Inácio Araujo às 15h17


29/06/2009

Dinheiro não é tudo na vida das imagens

  ATENÇÃO: abaixo do texto, coloquei as correções e esclarecimentos enviados por Ciro Bonilha, assessor de imprensa da Secretaria de Estado da Cultura  SP.

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Muito bom a Secretaria de Estado da Cultura SP dar R$ 12 milhões para o cinema, como foi anunciado.

 

Será melhor se outras secretarias e ministérios fizerem o possível.

 

Mas o que me pergunto é se isso será suficiente.

 

Minhas dúvidas vão abaixo:

 

1. Por que a Secretaria não restaura o modelo do PIC-TV, em que ela própria foi sócia, que permite uma avaliação dos projetos um pouco menos dependente das subjetividades do júri (por melhor que ele seja).

 

Aliás, por que não se restaura o antigo vínculo da TV com o cinema? Até hoje ele rende boas exibições de filmes à TV Cultura.

 

2. Se uma parte desse dinheiro é destinada a desenvolvimento de séries de TV, não seria conveniente usar uma parte dele para um programa de estudo das séries de TV? Afinal, o que se quer com elas?

 

Um modelo comercial, à maneira do que a TV Cultura parece perseguir atualmente? Ou um modelo mais educativo, à maneira da RAI italiana na época de Rossellini?

 

Temo que estejamos despreparados para os dois. Os americanos têm o imenso know how de Hollywood (e nas séries em geral desagua o saber dos velhos independentes, hoje sem espaço na produção para cinema). Os italianos vêm de décadas de Instituto Luce, mais escola, mais Rossellini etc.

 

Se não se tiver muito cuidado nisso, será como jogar, de novo, dinheiro fora (coisa que a Embrafilme já fez em outros tempos).

 

3. Por que não se pensa na distribuição como um investimento de que poderia se ocupar o Estado de SP?

 

No tempo em que a Riofilme era uma distribuidora nacional, os cineastas paulistas queriam criar uma distribuidora paulista. Hoje que a Riofilme está toda detonada e não serve para nada, ninguém mais agita essa idéia.

 

Fico com a impressão de que se adota hoje o modelo tradicional, em que se incentiva a produção e depois seja o que Deus quiser.

 

4. Eu me sinto um pouco idiota falando de marketing a três por dois.

 

A idéia que se tem é de que marketing é uma maneira de enfiar um candidato a qualquer cargo goela abaixo dos eleitores, apresentando-o tal como ele não é.

 

Não é bem isso. O cinema é, também, um produto. Da arte nos ocupamos nós, mas é preciso saber com quem se dialoga, que produto se tem nas mãos, o que se está vendendo. Isso orienta a feitura do trailer, da publicidade e eventualmente aspectos do próprio filme.

Fora isso estamos no território da intuição do produtor, ou seja, do puro empirismo. Um trabalho de marketing teria evitado o desastre que foi o lançamento do filme do Mojica.

 

5. Para terminar: abro o Houaiss e vejo a palavra fomento.

 

Ela pode significar: alívio, consolo, ajuda. Todas palavras, enfim, do lexico paternal. Mas pode significar também: estímulo, apoio, impulso.

 

Não estaria esse tipo de trabalho na esfera da Ancine, por exemplo? E não seria melhor ela fazer essas coisas, em vez de se tornar uma burocracia galopante feita, em princípio, para gravitar em torno da arte, mas que com o tempo ganha autonomia e passa a fazer a arte gravitar em torno dela?

 

O dinheiro é essencial, mas não é tudo. O cinema precisa de um empurrão, eu penso no cinema independente, claro, para seguir existindo saudável, sendo realizado, exibido e visto. Isso exige um trabalho, uma política.

 

Ela deve existir. Eu é que, provavelmente, não consigo enxergar.

~~~~~~~~~~~~~~~~

 

Resposta de Ciro Bonilha:

 

    Em relação ao comentário sobre editais de incentivo ao cinema, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Cultura presta alguns esclarecimentos:
- O edital de Concurso de Apoio à Realização de Projetos de Telefilme Inédito no Estado de São Paulo (Telefilmes Cultura) não oferece  verba à realização de séries de TV. Como o próprio nome indica, trata-se de um concurso para a produção de filmes destinados à exibição em televisão.
- O edital, realizado em parceria com a Fundação Padre Anchieta, tem entre seus objetivos promover uma efetiva parceria entre cinema e TV, ao prever aporte de recursos da Secretaria de Estado da Cultura e fornecimento de equipamentos da TV Cultura, assim como a realização dos telefilmes por produtores independentes.
- A Secretaria de Estado da Cultura tem uma política para a atividade cinematográfica, pois além da publicação de editais, como os três lançados agora, que destinam mais de R$ 12 milhões à área, a instituição reservou R$ 7,5 milhões em 2009 para o programa "Vá ao Cinema", subsidiando o consumo, algo que nunca havia sido feito no Brasil. O "Vá ao Cinema" leva em consideração que não basta liberar recursos para que os filmes sejam feitos, sem pensar em como o público poderá ter acesso a eles. Com ele, o Governo estimula o hábito de ir ao cinema nos jovens, auxilia os cinemas do Estado a permanecerem abertos e a cumprir a cota de tela com público em suas salas, e promove o acesso da população do interior e litoral do Estado a produções nacionais lançadas simultaneamente nas grandes cidades brasileiras.


 

 

Por Inácio Araujo às 21h16


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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