UOL Cinema

26/06/2009

A hora e vez da Globochanchada

 

Foi Guilherme de Almeida Prado, o autor de "A Dama do Cine Shanghai", entre outros, quem inventou o termo "globochanchada".

Ele faz questão de dizer que não existe nada de pejorativo nele.

Estaria dentro de uma linhagem de comédias que marcaram a produção brasileira: a chanchada, nos anos 1950, e a pornochanchada, nos 70.

Na opinião de Guilherme, esse tipo de filme (despreocupado com questões "graves", sem grande pretensão a "cinema de qualidade", puxado por atores conhecidos, com estética lembrando, nem que vagamente, a TV ou o cinema publicitário - ao menos é assim que eu traduzo a expressão) pode ser "o chão" a partir de onde criar. Uma certeza no horizonte.

Me parece algo a se levar em conta. Existe, acho que ninguém duvida, a necessidade de um chão comum, em que se reconheçam espectadores, produtores, roteiristas e realizadores. A alternativa será um cinema que fica sempre tateando.

Ao mesmo tempo, o tremendo conformismo de alguns desses filmes dificultará, certamente, a adesão de bons autores à tendência. Nisso, estamos bem longe dos anos 70. Só como exemplo: naquele tempo, podia-se lutar contra a instituição psiquiátrica. Hoje, luta-se para que ela proteja os "monstros" (assassinos, criminosos terríveis etc.) da sanha punitiva da Justiça e da sociedade  (e ela, em geral, não faz nem mal e porcamente isso que faziam os psiquiatras do começo do século passado).

Se a TV não entrar na produção pra valer (isto é, os outros canais que não a Globo), o filme popular não volta mais, nem a pau. Não tem como. O preço do ingresso é alto, o hábito de ir ao cinema foi perdido por muitas pessoas, não há salas em muitas cidades etc. E me parece muito difícil os executivos das TVs (outras que não a Globo) perceberem que essa é uma produção importante para o seu público. Mesmo que percebam, duvido que tenham condições de entrar na produção e obterem resultados satisfatórios.

Em todo caso, só o fato de surgir uma denominação para essa série de filmes acho que é algo a discutir, a conversar, uma perspectiva para uma produção contínua.

A notar:

Até este ano, os produtos da Globofilmes ou assemelhados faziam sucesso, em grande parte puxados pela publicidade da emissora, pela proximidade com programas exibidos anteriormente ("Os Normais", p.ex.).

Agora, no entanto, a coisa é outra. São três mega-sucessos de enfiada: "Se Eu Fosse Você 2", "O Divã" e "Mulher Invisível".

"Menino da Porteira", remake de um grande sucesso, não foi bem nem mal: ficou muito acima da média e, acho eu, bem abaixo do que poderia esperar.

Vamos ver o "Jean Charles", que tem um apelo patriótico forte, num momento em que os espectadores parecem reconciliados com a pátria.

Até pouco tempo atrás tínhamos como grandes sucessos films como "Carandiru", "Cidade de Deus", capitão Nascimento e outros em que a ausência de perspectiva era a marca mais visível. Os problemas ali apontados não desapareceram, mas o público parece mais disposto a rir.

Não acho que seja sinal de alienação, mas de algum contentamento. Isso não é algo a lamentar.

Me parece também sinal de que a produção americana está um tanto em crise. Com exceção das animações, o ano dos blockbusters, até aqui pelo menos, não está dando pé.

Por Inácio Araujo às 13h44


25/06/2009

Farrah e Michael: A Partida...

 

Primeiro, Farrah Fawcet. Um pouco depois, Michael Jackson.

Dois nomes de cinema que não passaram tanto assim pelo cinema. Farrah ficou famosa com o seriado "As Panteras".

Duas imagens marcantes. Farrah prometeu ser uma estrela, mas não foi. Acho que uma das razões era a beleza excessivamente perfeita. Com a idade pareceu ficar mais interessante, mas já não havia papéis para ela. Não papéis de primeira, pelo menos.

Michael Jackson é o caso de um talento espantoso que, me parece, foi bem destruído pela mídia.

O Giannini já fez um artigo no Uol sobre ele. Fez pouco cinema e nada que se destacasse. Mas "Thriller", o videoclipe, é antes e depois.

Michael dançando era um corpo que desorganizava o mundo ao seu redor, reduzindo nossos corpos, os corpos de todos os outros, a coisas mal-ajambradas. E depois reorganizava-o pelo simples efeito de sua elegância, da impressionante agilidade dos gestos.

Michael acreditou na infinita mudança da imagem. Foi negro, foi branco, foi bonito, foi feio. Seu rosto era sempre provisório. Qual seria o de hoje?

Que descansem em paz.

Por Inácio Araujo às 21h17


24/06/2009

Em Ouro Preto, o julgamento das "majors"


Num dos debates do 4o. CineOP, que terminou ontem, Neville d'Almeida disse o seguinte: "Não podemos mais produzir nossos grandes sucessos e entregá-los nas mãos de nossos inimigos, de nossos concorrentes."

Os inimigos são as majors, tipo Fox ou Columbia.

Há algum tempo acredito que esse ponto de vista é ultrapassado. Eles não são mais os inimigos, como nos anos 70 do século passado. Eles não estão aqui para impedir o cinema brasileiro de existir.

Na dinâmica das multi-salas, o importante é que o espectador que não consegue ingresso para um filme vá ver outro e não se frustre.

Para as majors tanto faz que o filme seja brasileiro, tailandês ou havaiano. O que elas querem controlar é o conceito. A idéia do que seja cinema. Para elas, o importante é estabelecer um padrão universal, a ser seguido pelos filmes e pelo público.

O inimigo dos grandes produtores é, me parece, a diversidade. E o inimigo do cinema, a padronização.

Outra coisa:

Será mesmo verdade que a Columbia acabou com a Vera Cruz?

Conversei com Marinho Audrá, que foi dono da Maristela, não muito tempo antes de ele morrer, e ele disse coisa bem diferente.

Um produtor da Vera Cruz foi fazer um filme na Maristela. O filme se passava no litoral norte de São Paulo, onde chove pra burro.

O produtor decidiu fazer o filme na estação de chuvas. O filme virou um atoleiro.

O desperdício é que acabou com a Vera Cruz, não a Columbia - ele disse.

Não sei se ele estava certo, mas esse mito da má Columbia, que vem, se não me engano, do Alex Vianny, sempre me pareceu atribuir à companhia um papel excessivo nos problemas da Vera Cruz. Se isso nos ajuda a pensar um problema, em dado momento, tudo bem. Quando vira um mote automático, de que se lança para demonizar o estrangeiro sem mais nem aquela, não serve para nada, só atravanca.

Volto logo ao CineOP.

Por Inácio Araujo às 13h02


22/06/2009

Notícias de Teerã (Tecnologia de ponta 2)

1) Começam a surgir notícias dando conta da autencidade do vídeo em que morre a jovem Neda.

Como temos visto também manifestações de massa registradas por celulares, esse se afirma como um caso em que a tecnologia permite que surja "a" imagem, quer dizer, a imagem essencial, necessária, arriscada (em uma palavra: verdadeira).

A câmera é minúscula, a imagem nunca é "de qualidade", mas e daí? Importa é que mostra.

Então somos colocados diante da dimensão do fato e não da linguagem. Não é sujeito a interpretação. É o que é.

Só para completar: Mohsen Makhmalbaf e sua filha, Samira, tomaram posição publicamente a favor das manifestações por novas eleições. Faz tempo que Makhmalbaf, no meu entender, está devendo um bom filme. Mas ele é pessoa muito digna.

Por Inácio Araujo às 19h43


Tecnologia de ponta

No YouTube pode-se ver a imagem da jovem Neda morrendo durante protestos em Teerâ (não coloco aqui, pois está categoria "imagens chocantes").

Será real? Talvez não. Mas é verdadeira, de todo modo. Ou seja: ainda que tenha sido forjada, ela pode ser recebida como real na medida em que incide sobre nosso imaginário.

Na medida em que Teerã expulsa jornalistas e proíbe imagens, digamos, "oficiais" de circular, quem se impõe são as "câmeras verdade" dos passantes, os filminhos feitos no telefone celular. A má qualidade aumenta a dramaticidade e, com isso, arrasta nossa crença naquela verdade. Seja essa imagem, seja as outras que, mal que mal, podemos ver na TV, não existem provas de que aconteceram agora, no Irã, que não sejam trucadas etc.

Isso não afeta nossa crença. Quer saber? Acho que os aiatolás do Irã não contavam com esse uso de ponta da tecnologia. E acho que as minicâmeras podem destronar verdades eternas (autoritárias) da religião.

Por Inácio Araujo às 09h47


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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