A hora e vez da Globochanchada

Foi Guilherme de Almeida Prado, o autor de "A Dama do Cine Shanghai", entre outros, quem inventou o termo "globochanchada".
Ele faz questão de dizer que não existe nada de pejorativo nele.
Estaria dentro de uma linhagem de comédias que marcaram a produção brasileira: a chanchada, nos anos 1950, e a pornochanchada, nos 70.
Na opinião de Guilherme, esse tipo de filme (despreocupado com questões "graves", sem grande pretensão a "cinema de qualidade", puxado por atores conhecidos, com estética lembrando, nem que vagamente, a TV ou o cinema publicitário - ao menos é assim que eu traduzo a expressão) pode ser "o chão" a partir de onde criar. Uma certeza no horizonte.
Me parece algo a se levar em conta. Existe, acho que ninguém duvida, a necessidade de um chão comum, em que se reconheçam espectadores, produtores, roteiristas e realizadores. A alternativa será um cinema que fica sempre tateando.
Ao mesmo tempo, o tremendo conformismo de alguns desses filmes dificultará, certamente, a adesão de bons autores à tendência. Nisso, estamos bem longe dos anos 70. Só como exemplo: naquele tempo, podia-se lutar contra a instituição psiquiátrica. Hoje, luta-se para que ela proteja os "monstros" (assassinos, criminosos terríveis etc.) da sanha punitiva da Justiça e da sociedade (e ela, em geral, não faz nem mal e porcamente isso que faziam os psiquiatras do começo do século passado).
Se a TV não entrar na produção pra valer (isto é, os outros canais que não a Globo), o filme popular não volta mais, nem a pau. Não tem como. O preço do ingresso é alto, o hábito de ir ao cinema foi perdido por muitas pessoas, não há salas em muitas cidades etc. E me parece muito difícil os executivos das TVs (outras que não a Globo) perceberem que essa é uma produção importante para o seu público. Mesmo que percebam, duvido que tenham condições de entrar na produção e obterem resultados satisfatórios.
Em todo caso, só o fato de surgir uma denominação para essa série de filmes acho que é algo a discutir, a conversar, uma perspectiva para uma produção contínua.
A notar:
Até este ano, os produtos da Globofilmes ou assemelhados faziam sucesso, em grande parte puxados pela publicidade da emissora, pela proximidade com programas exibidos anteriormente ("Os Normais", p.ex.).
Agora, no entanto, a coisa é outra. São três mega-sucessos de enfiada: "Se Eu Fosse Você 2", "O Divã" e "Mulher Invisível".
"Menino da Porteira", remake de um grande sucesso, não foi bem nem mal: ficou muito acima da média e, acho eu, bem abaixo do que poderia esperar.
Vamos ver o "Jean Charles", que tem um apelo patriótico forte, num momento em que os espectadores parecem reconciliados com a pátria.
Até pouco tempo atrás tínhamos como grandes sucessos films como "Carandiru", "Cidade de Deus", capitão Nascimento e outros em que a ausência de perspectiva era a marca mais visível. Os problemas ali apontados não desapareceram, mas o público parece mais disposto a rir.
Não acho que seja sinal de alienação, mas de algum contentamento. Isso não é algo a lamentar.
Me parece também sinal de que a produção americana está um tanto em crise. Com exceção das animações, o ano dos blockbusters, até aqui pelo menos, não está dando pé.
Por Inácio Araujo às 13h44

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