UOL Cinema

21/05/2009

Só o DVD nos salva


Enquanto Cannes cuida, ou diz que cuida, do futuro do cinema, o presente está de amargar.

Anda difícil entrar no cinema. Ficar até o fim dos filmes, mais ainda.

Não desgostei do filme do Ang Lee, mas não tenho a menor vontade de falar a respeito. Para ser franco, não me interessou muito, embora tenha bons momentos.

Mas me pareceu um "Brokeback Mountain 2", basicamente.

Tem algumas cenas de amor ok e uma que achei engraçada, o cara dá um nó na mulher que não deve ter sido fácil para desfazer depois.

Agora, o DVD é quem salva minha vida. Espero que salve algumas outras.

Alguns lançamentos recentes:

Descartes – O último filme do Rossellini da série dos Filósofos, Pascal, sai no mês que vem. Este "Descartes" é uma preciosidade, filme cuja beleza vem, todo o tempo, da exatidão. Com um discernimento e desenvoltura impressionantes, Rossellini vincula a fantástica aventura intelectual do filósofo a sua época, sobretudo às transformações promovidas pela ciência (Galileu está no centro de tudo, mas não é o único), que forçam um novo tipo de olhar para o mundo. Descartes todo o tempo é obcecado pela evidência, pelo que é demonstrável.

Sua demonstração da matemática (como ciência que promove comparações, aproximações, mensurações no domínio da matéria) teria mudado minha vida se alguém tivesse se dignado a dizer coisas parecidas quando eu era estudante.

O filme se faz acompanhar por uma bela exposição de uma hora do prof. Homero (desculpe, esqueci o sobrenome), da Filo-USP. Voltarei a ele, colocando um trechinho aqui para todo mundo ver que beleza e, sobretudo, se perguntar porque a TV Cultura (vale para a TV Brasil, agora) mostra tanta bobagem e não exibe a série preciosa que Rossellini fez para a TV, justamente.

Uma Garota Dividida em Dois – Me parece um dos grandes filmes do ano passado, bem à moda de Chabrol: nada para pensar, tudo para ver. Aquela maneira cruel de observar a crueldade contida, elegante, cheia de ressentimentos, da burguesia francesa. E ao lado uma menina bem plebéia, simplória de certa forma. Um filme para rir, por vezes, com cara de cinema: nada dessa mania de sutileza do filme de arte. Chabrol trata a sua turma com casca e tudo. Lançamento da Imovision.

Marginais – Já falei há algum tempo. A primeira série tem os filmes do Sganzerla, do Tonacci, do André Luis Oliveira e do Elyseu Visconti. Não vou nem gastar tempo falando: o UOL vai voltar ao assunto (e, no mais, está difícil encontrar os filmes). Trabalho primoroso do Eugênio Puppo para a Lume.

Os Assassinos – Refilmagem do Don Siegel para o filme do Robert Siodmak. Se já vi, não me lembro. Lee Marvin, John Cassavetes, Angie Dickinson e R. Reagan no elenco. Lançamento da Classicline.

Sinfonia Interrompida – Um Douglas Sirk meio escondido do mundo. É uma produção do Ross Hunter entre dois filmes que Sirk fez para Albert Zugsmith. Não dá pra perder, claro. Também Classicline.

Para breve:

Os Irmãos da Família Toda, um Ozu de 1941 (Lume);

Mulheres no Front, obra-prima de Valério Zurlini (outra), da Versátil; e ainda o

Blaise Pascal do Roberto Rossellini.

Como se vê, uma quantidade e uma qualidade de filmes impressionante, para compensar a pobreza da programação nas salas.

Tem mais coisa rolando. Quem lembrar e quiser ajudar a gente a lembrar, por favor.

* * *

DESCARTES (Cartesius). Dir: Roberto Rossellini. Itália/1974. Cor, 162 min. Com Ugo Cardea, Anne Pouchie e Claude Berthy. Distribuição em DVD: Versátil.

UMA GAROTA DIVIDIDA EM DOIS (La Fille Coupée en Deux). Dir: Claude Chabrol. França/2007. Cor 115 min. Com Ludivine Sagnier, Benoît Magimel e François Berléand. Distribuição em DVD: Imovision.

BANG BANG. Dir: Andrea Tonacci. Brasil/1971. P&b, 80 min. Com Paulo César Pereio, Ezequias Marques e Irma Álvarez. Distribuição em DVD: Lume Filmes/Heco Produções.

SEM ESSA ARANHA. Dir: Rogério Sganzerla. Brasil/1970. P&b, 92 min. Com Maria Gladys, Helena Ignez, Jorge Loredo e Luiz Gonzaga. Distribuição em DVD: Lume Filmes/Heco Produções.

OS MONSTROS DE BABALOO. Dir: Elyseu Visconti. Brasil/1970. P&b, 95 min. Com Badu, Wilza Carla, Jack de Castro, Betty Faria, Helena Ignez e Zezé Macedo. Distribuição em DVD: Lume Filmes/Heco Produções.

METEORANGO KID, O HERÓI INTERGALÁCTICO. Dir: André Luiz Oliveira. Brasil/1970. P&b, 69 min. Com Antônio Luiz Martins, Maria Adelina e Carlos Bastos. Distribuição em DVD: Lume Filmes/Heco Produções.

OS ASSASSINOS (The Killers). Dir: Don Siegel. EUA/1964. Cor, 95 min. Com Lee Marvin, Angie Dickinson, John Cassavetes e Ronald Reagan. Distribuição em DVD: Classicline.

SINFONIA INTERROMPIDA (Interlude). Dir: Douglas Sirk. EUA/1957. Cor, 95 min. June Allyson, Rossano Brazzi e Marianne Cook. Distribuição em DVD: Classicline.

Por Inácio Araujo às 14h23


18/05/2009

"Cassy Jones" volta ao cartaz

 

"Cassy Jones, o Magnífico Sedutor" foi o último filme de Luis Sérgio Person e o primeiro estrelado por Sandra Brea. Paulo José era Cassy Jones em pessoa. O filme, que volta em DVD da VideoFilmes, traz uma bela homenagem ao teatro de revista. Aqui vai, também como homenagem a Sandra Brea (1952-2000). Ou talvez seja ela que nos homenageie com sua presença (assim como Grande Otelo).

 * * *

CASSY JONES, O MAGNÍFICO SEDUTOR. Dir: Luis Sérgio Person. Brasil/1971. Cor, 100 min. Com Paulo José, Sandra Bréa, Sonia Clara, Glauce Rocha, Hugo Bidet, Grande Otelo e Carlos Imperial. Distribuição em DVD: Videofilmes.

Por Inácio Araujo às 20h41


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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