UOL Cinema

08/05/2009

Cinema tem que ser pra todo mundo


Pego carona nos diversos comentários pertinentes feitos sobre o assunto (no post: "Para onde vai o dinheiro"), tento juntar com outras coisas e enfiar um pouco a colher torta.

O governo do Estado liberou há pouco um milhão de ingressos de cinema de filmes brasileiros para as escolas públicas.

É importante, porque ajuda produtores, mas temo que seja inútil.

O essencial não é salvar os produtores, embora isso seja importante. O essencial é saber por que se faz cinema. Qual o sentido disso.

Então, eu penso que o essencial é aproximar do cinema as pessoas que hoje não têm mais acesso ao cinema.

Não para ver filmes brasileiros. Para ver filmes. Para frequentar espaços de sociabilidade onde coisas boas e belas podem ser vistas e apreciadas e discutidas.

Em vez dessa distribuição de dinheiro, seria importante é parar com essa história de encaveirar tudo que foi feito por administrações passadas.

A estrutura dos CEUs, por exemplo, é ótima. Porque não são apenas salas de aula. São auditórios, piscinas, quadras. Isto é, rompe com a idéia de que a periferia é um depósito de gente.

Espero que seja usado. Que se mostrem muitos filmes ali. Brasileiros ou não.

Porque não conheço ninguém que tenha começado a gostar de cinema vendo "Vidas Secas" ou "Deus e o Diabo". Essa compreensão vem com o tempo.

Me parece que o cinema existe para ajudar as pessoas a viver, para fazê-las felizes, para que o cara encontre a garota e fale de alguma coisa, para que os amigos conversem no bar, para que uma imagem sensibilize o espectador. Em suma, o cinema só se justifica como forma capaz de tornar a vida das pessoas mais agradável, mais rica.

É ao espectador, de preferência pobre, que eu gostaria de ver voltados os esforços públicos.

2.

A prefeitura de São Paulo está passando uma semana de filmes que já passaram na Mostra de Cinema no cine Olido por R$ 1,00.

Por um lado: formidável.

Por outro: por que só uma semana?

Por um lado: podia ser um pouco mais caro, na verdade: R$ 3,00 é um preço digno, eu diria. R$ 1,00 parece favor.

Por outro: o Olido, com o Carlos Augusto Calil como secretário de Cultura, pode bem ser o centro difusor de um programa municipal realmente efetivo sobre isso. Se juntar com o Estado, fica uma coisa ainda mais ampla.

3.

Todo mundo se queixa da distribuição.

O que tem feito o MinC a respeito? Ou a Ancine? Que eu saiba, nada. (Mas isso não quer dizer muito: eu sou meio mal informado).

A distribuição não é distribuição de verbas.

Distribuição é, por exemplo, montar um programa para que os produtores compreendam o que é marketing cinematográfico e o apliquem.

É fazer pesquisas sobre a resistência do público ao filme brasileiro para saber onde estão os nós que levam o cara a buscar a bilheteria ao lado, quando vai ao cinema.

É agir sobre essas pesquisas, de algum modo.

O filme brasileiro concorre com verbas publicitárias bilionárias que são usadas a partir de um marketing sofisticadíssimo. E a gente enfrenta isso com arco e flexa? Não dá pé.

A mesma coisa os exibidores. Eles não vivem reclamando que também merecem dinheiro estatal, ou subsidiado ou que nome tenha? E por que não? Eles têm doença contagiosa, por acaso?

Não há necessidade de cinema em um monte de cidades?

Pelo menos os grupos brasileiros deviam poder ter acesso a financiamentos para atualizar as salas, expandir circuito, etc.

Em troca, deviam ter que se comprometer (tudo assinado, no papel e tal) a passar filmes brasileiros ou do Mercosul ou o que seja, durante tantos dias por ano.

E sem essa história de queimar toda a cota de tela com filme da Globo, claro. Tem que ter os outros.

Enfim, tudo isso eu digo assim empiricamente, pode estar tudo errado. Mas, caramba, alguma coisa tem de ser feita.

No ano passado nós tivemos ao menos uns dez bons filmes brasileiros que não tiveram a menor, nenhuma chance. Foram massacrados.  

Por Inácio Araujo às 12h51


Fumar, verbo intransitável

  

Quando eu era criança, meu pai tinha um amigo vegetariano, cujo grande assunto eram os males da carne.

Durante as visitas dele, toda a familia escutava atenta as longas perorações. Inclusive minha avó, que ficava sentada a um canto, com um ar de tédio profundo.

Até que uma ocasião começou a vir da cozinha um invasivo, incontornável cheiro de bife sendo fritado. Olhei à minha direita e minha avó não estava lá.

Todos fingimos que não estava acontecendo nada.

Depois que o homem foi embora, começou a interpelação à minha avó. Pô, o homem fica horas falando dos venenos da carne e a senhora vai fritar um bife bem nessa hora?

Ah, disse ela, ele falou tanto da carne, a carne isso, a carne aquilo, que foi me dando fome e eu não consegui me segurar.

I.

Essa história me ocorreu enquanto eu assistia "Fumando Espero". Eu, que há seis anos não fumo e não sinto grande falta, só pensava em fumar um cigarro enquanto rolava o documentário.

O Carlão uma vez disse que julgava os filmes pela vontade de fumar que sentia. Se o filme era bom ele não queria sair do cinema. Entendi o critério melhor vendo esse filme supostamente antitabagista. Digo supostamente porque ele fica tão fora de alvo que o efeito é quase inverso.

A moça que faz o filme parece simpática e sincera em seu desejo de abandonar o cigarro. Mas parece que não sabe o que quer de um filme. Ela entrevista artistas que pararam de fumar, mistura com médicos, com um ou outro fumante convicto, com pessoas que têm efetivo trabalho de combate ao tabagismo, etc. Tudo entra meio misturado, tudo picotado à moda das reportagens de TV. Não dá certo assim. O Brasil tem bons modelos de documentarismo, Coutinho, João M. Salles e tantos outros. Assim não dá.

II.

Faz alguns meses, Mario Cesar de Carvalho, autor de livro contra o tabagismo, disse que já se voltou a fumar no cinema como nos velhos tempos.

Todos estamos lembrados de que há alguns anos, no cinemão não se fumava, só como mau exemplo. Nos filmes ditos independentes, fumava-se a dar com o pau.

Bem, no "Anjos e Demônios", blockbuster que está para entrar em cartaz, logo no início dois cardeais fumam cigarros bem fumados. Mais tarde o assunto volta a ser mencionado. Ninguém tenha dúvida: essas coisas custam muito dinheiro.

Outra maneira de justificar o fumo são os filmes de época, que remetem ao tempo em que todo mundo fumava. É quase necessário, quando se volta aos anos 50, que as pessoas fumem adoidado. Não tenho nenhuma prova, mas duvido que não saia dinheiro do lobby do cigarro para financiamento desses filmes.

III.

Olha, não sou ex-fumante que fica aborrecendo os outros, convivo bem com quem fuma, etc. Mas a respeito da indústria do cigarro acho que se pode dizer que nem o Samuel Fuller dizia dos comunistas: não confio neles.

Por Inácio Araujo às 12h18


04/05/2009

Para onde vai o dinheiro

 

 

O post anterior (O cinema não precisa de dogmas) não tinha quase nada a ver com o peixe, só uma menção à necessidade de financiamento e à questão eterna do modo de financiamento dos filmes.

 Não sei como, ou melhor, sei, basta ver a sequência de comentários, evoluímos para outras questões.

 

1) Fazer um filme requer dinheiro; 2) Cinema é atividade deficitária.

 

A questão última, incontornável, deixada por essas duas constatações é: o cinema (brasileiro) precisa existir ou não?

 

Há quem, como o Daniel, não tem paciência com o Danilo. Há quem, como o Milton, responda com argumentos aos raciocínios divergentes.

 

Tenho a impressão de que raciocínios como o do Danilo resultam, em grande medida, de velhos preconceitos em relação ao cinema nacional, somados a essa indignação meio vaga que rola pelos blogs um pouco contra tudo e contra todos, esse tipo de suspeição indiferenciada que transitava pelo "M – O Vampiro de Dusseldorf", com um espírito de linchamento no ar. Ele atinge políticos, em primeiro lugar e por razões meio óbvias, mas pode espirrar em qualquer um.

 

Como existe um rescaldo neoliberal nessa história, qualquer pessoa com relação direta com o Estado torna-se suspeito.

 

Assim, o módico subsídio ao cinema torna-se o "meu imposto", aquele mito de que Roland Barthes deu conta nos anos 50 ("Mitologias"). Não se trata do cidadão, trata-se do cidadão reduzido à condição de contribuinte. E indignado.

 

As contas do Daniel me parecem certas. Mais ou menos eu já as apliquei a um jornalista que veio com esse papo quando eu não queria conversa: dei uma moeda de cinco centavos e pronto.

 

Mas é claro que a coisa é mais complicada.

 

Mais resistente, também. E o cinema também tem parte nisso.

 

Vou tentar fazer uma enumeração, no sentido de abreviar as coisas, para não aborrecer ninguém, ou aborrecer o mínimo possível.

 

1) A renúncia fiscal é, sim, uma renúncia da sociedade. Se é pequena ou grande, é outra história. Dentro dela, dois aspectos: a) por que o cinema chama tanto a atenção se, de fato, é tão pequeno?; e b) por que o cinema acha que não deve nunca prestar contas disso, que se trata de uma espécie de obrigação da sociedade sustentá-lo e não de uma opção?

 

2) Quanto ao aspecto b), devo dizer logo de cara que me parece completamente indispensável o financiamento dos filmes pelo Estado. No entanto, é preciso convir que nunca criamos mecanismos capazes de escapar às suspeitas de favorecimento e coisas assim. O fato de transferir a responsabilidade da esfera pública (Embrafilme no passado) para a privada (leia-se: Petrobrás, BNDES, Eletrobrás, etc.) não altera o fundamental. Ou antes, piora: quem decide que filmes serão feitos ou não? São comissões "da sombra". A Embrafilme ao menos se expunha. Teoricamente, mas se expunha. Agora, não.

 

3) Quanto dinheiro é necessário para fazer um filme? De vez em quando o MinC lança um edital do "baixo orçamento", um pouco como quem atira moedas aos pobres no trânsito. Mas não promove uma mísera discussão sobre o orçamento dos filmes e sua relação entre custo e eficácia. Nem promove uma mínima ação para baixar o custo dos filmes e facilitar que se façam mais filmes. Ora, já vi projetos (isso já faz anos) em que o valor do roteiro era de R$ 300 mil. Hoje seria o dobro. O que deve ser mais do que a Clarice Lispector, digamos, recebeu de direitos autorais ao longo da vida. O roteiro não valia nada, por supuesto, o que é outra história. Mas é preciso haver diretrizes claras sobre certas coisas, traçar linhas entre o justo e o abuso. Não é fácil, mas é necessário. Nem todo filme pode ser barato. Mas há que se evitar o mais possível esse tipo de abuso.

 

4) Quanto vale o trabalho de um ator? Me lembro que, quando morei na França, os orçamentos eram montados em torno disso. O Delon "valia" 500 mil entradas em Paris, a Deneuve, 400 mil. Faz sentido. Quanto vale aqui a Fernanda Montenegro? Ou o Tony Ramos? Não se pode aferir. Porque em termos de mercado tudo é absolutamente distorcido, sobretudo pela TV. Então, não se pode falar em termos de mercado. O valor de um filme nunca é o de troca. Tem de haver um outro valor. Todo mundo que gosta de cinema sustenta que o melhor filme do ano foi o do Tonacci. A "classe", quando deu seu prêmio, nem passou perto, entre outras porque não deve tê-lo visto. Um problema a que se devia dedicar a Ancine é este: partir da percepção de que existe o caos nesse setor e ver de conter esse caos. Por isso, não deve causar indignação quando alguém sugere que "seu imposto" é usado para pagar "celebridades". Pode até ser uma fantasia, não importa. Mas também é verdade que os orçamentos de cinema raramente são claros. Transparentes, para usar a palavra do momento.

 

5) Quando um filme é proposto a qualquer comissão, o mínimo a exigir dele devia ser um plano de marketing. Ou seja, com quem esse filme pretende falar e como. Qual é seu ponto de venda? Na prática, isso se chama trailer. O trailer devia ser feito antes do filme (não o trailer físico, é claro). Mas como exigir isso num não mercado como o nosso? Em outras palavras: se não se resolve a questão da distribuição, se ao menos não se começa a pensar nela, para que fazer os filmes? Para ficar no fundo de um armário? Para que os filmes da Globo façam um milhão de espectadores, sejam aceitáveis ou não, só porque possuem uma grande máquina de publicidade por trás e trabalham no sentido de reiterar algo que o espectador já se acostumou a ver? (casos recentes: "Se Eu Fosse Você" e "Divã").

 

6) Se a maior parte dos filmes não leva espectadores ao cinema, como exigir que os exibidores ponham filmes nacionais na tela? Eles têm prejuízo, é claro. Isso posto, por que não existe um mecanismo para subsidiar as salas de cinema? A construção e a manutenção delas. Daí pode-se exigir, em troca, a exibição de filmes brasileiros dentro de certas normas a serem definidas.

 

7) E por falar nisso por que o preço das entradas é tão absolutamente pornográfico, proibitivo, restritivo, feito para ricos? Cinema sempre foi arte de pobres, para pobres, para "o povo". Não é aceitável que ninguém se preocupe com isso e ache que cinema custar o que custa é um fato da natureza. Não é.

 

8) Acima de todas essas coisas, me parece que o cinema não pode ser pensado como um caso isolado.  Porque o preconceito também não é isolado. Há os que não vão ceder por nada. Eles acham que o dinheiro, público, é uma coisa para ser enfurnada. Não é. Isso é um pensamento construído sobre premissas falsas, sobre a idéia de que não existe investimento, mas gasto. É esse pensamento que levar a supor que Bolsa Família é distribuição indevida do "meu imposto", que só serve para incentivar a preguiça, essas coisas. Ele não leva em conta que isso promove distribuição de renda, faz a sociedade funcionar sobre a construção e existência de um mercado interno (não se espantem, eu estudei Celso Furtado em tempos muito remotos). Em geral, quem pensa assim são uns ferrados, mas assumem o pensamento dos "ratos endinheirados". Nesse particular tenho muitas dúvidas. Ou antes: se eu tomo a periferia de São Paulo, essa coisa que chamam de bairros, não são na verdade bairros. São depósitos de gente. De pessoas que não têm a mínima chance de acesso a bens culturais. Mas é aí que se pode construir o mercado brasileiro de cinema. É aí que pode surgir o cinema barato. Aí que os Céus, Cieps e que outro nome tenham precisam existir para mostrar filmes, peças de teatro. Enfim, para fazer a função do cinema, que é tornar as pessoas felizes e informadas. Não endinheiradas. Mas felizes, informadas, integradas à cultura. Aí o cinema pode entrar e mostrar uma série de coisas sobre o Brasil e o mundo. A preço acessível, isto é, justo. Sem essa história de ONG. Isso é obrigação do mesmo Estado que dá dinheiro para cineastas e que tais. Mostrar os filmes. Fazer com que existam. Montar filmotecas (isso hoje é barbada, o DVD é barato). Ora, como querem que as escolas públicas depois funcionem na hora do Enem? Não pode. Então formamos uma sociedade de analfabetos funcionais e esperamos que funcione. Não funciona. O cinema não é tudo. Mas também não é essa coisa só de dar dinheiro para ratos endinheirados, pagar salário de celebridades. Os filmes têm uma função. Precisam de um empurrãozinho, caramba.

 

9) Peço que me perdoem por esse post que mais parece discurso do Fidel Castro, mas o assunto é mesmo interminável e mais cedo ou mais tarde íamos topar com ele. Então que seja agora, que estamos numa entressafra cinematográfica dolorosa (ah, tem tantos filmes nacionais que podiam ser lançados nessa hora em que a indústria está meio fora de eixo), e em que acabei de sobrevoar São Paulo. De cima é uma visão terrível. Não sei como se pode viver aqui não sendo rico. É que nem sociedade de casta: ¾ das pessoas estão condenadas a vegetar, sem chance nenhuma. A TV é que engana e faz parecer que não é.

 

10) Para quem quiser pensar no assunto (e para completar o decálogo), fica aí a frase luminosa do Rogério Sganzerla: "Um país sem cinema é que nem um país sem luz elétrica".

 

Por Inácio Araujo às 19h47


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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