UOL Cinema

15/04/2009

Mizoguchi e suas mulheres

  

Como se faz uma prostituta? Desde o início a questão está posta em "Mulheres da Noite". No pós-guerra, Mizoguchi era dado como um artista do passado. Mas ele era, mais do que tudo, um mata-borrão capaz de absorver tudo. Daí "Mulheres da Noite" ser um filme em que a influência neo-realista se mostra claramente, não só nas filmagens em locação como no tema, onde os sofrimentos do Japão depois da derrota na guerra aparecem com muita evidência. Como sempre, quem paga a conta é mulher. Na cena acima, Fusako (Kinuyo Tanaka) deixa o escritório antes da hora por conta de uma batida policial. Chegando em casa, encontra Natsuko, sua irmã, bailarina, com o patrão (e também amante). Quem vir esses poucos minutos dificilmente vai querer perder o resto. E uma coisa: Kenzi Mizoguchi, além de ser mestre total do cinema, era um especialista no assunto (prostituição e prostitutas).

 

Utamaro vive para as mulheres que desenha. E pinta até sua pele, na tentativa de identificar plenamente a arte e a vida. Talvez por isso a vida das suas modelos pareça se abater sobre ele, com seus dramas e problemas. A arte se confunde com a existência que busca apreender, lhe tira alguma coisa, lhe dá outras. Não por acaso, Utamaro será preso em determinado momento, acusado de pornografia: não existe arte se não existe risco. Outra obra-prima, em que existe uma atmosfera opressiva, como se refletisse, talvez, a ocupação estrangeira no Japão (ou, quem sabe, o tempo dos senhores da guerra).

* * *

MULHERES DA NOITE (Yoru no Onnatachi). Japão, 1948. P&b/72 min. Direção: Kenji Mizoguchi. Com Kinuyo Tanaka, Sanae Takasuji e Hiroshi Aoyama. Distribuição em DVD: Lume Filmes.

UTAMARO E SUAS CINCO MULHERES (Utamaro o Meguru Gonin no Onna). Japão, 1946. P&b/105 min. Direção: Kenji Mizoguchi. Com Minosuke Bando, Kinuyo Tanaka e Kôtarô Bando. Distribuição em DVD: Lume Filmes.

Por Inácio Araujo às 00h38


14/04/2009

Morre Marilyn, a enraivecida


Marilyn Chambers, que morreu hoje aos 56 anos, não foi apenas a bela atriz pornô. Foi a heroína mutante de "Enraivecida - Na Fúria do Sexo" (1977), um desses momentos fabulosamente delirantes do início de carreira de David Cronenberg. Ela faz a garota que, após um acidente de moto, sofre uma operação plástica que acaba por criar uma espécie de vagina fálica debaixo do braço. Em sua sede de sangue, a mutante enfia esse falo afiado como faca nos homens que encontra pela frente. Aqui, seu reencontro com o namorado, que estava com ela na hora do acidente. Marilyn estava ótima, em todos os sentidos. Vai este trecho de "Enraivecida" como homenagem à desviante.

Por Inácio Araujo às 22h37


13/04/2009

Arte e técnica segundo Renoir (na hora do 3D)


No momento em que o 3D parece querer se impor, vale a pena ouvir Jean Renoir em seu diálogo com Jacques Rivette. Tema: a hipótese do progresso técnico levar a um realismo cada vez mais intenso.

Infelizmente, não existe a tradução em português, então vou tentar interpretar o sentido geral. Diz Renoir que, em todas as artes, o realismo absoluto coincide com a perfeita decadência.

Exemplo: a tapeçaria da rainha Matilda, primitiva, com paleta pobre, é uma das mais belas do mundo. Depois a tapeçaria sofisticou-se e passou cada vez mais a imitar a natureza.

Em pouco tempo, em lugar de conceber motivos específicos para a tapeçaria, passou-se a copiar quadros. Hoje em dia pode-se copiar a natureza.

Resultado: a tapeçaria morreu!

Renoir pergunta: por que será que, quando a técnica é primitiva, tudo é belo, e quando a técnica se aperfeiçoa, quase tudo enfeia, salvo quando é feito por um artista talentoso o bastante para dominar a técnica?

O excesso de técnica seria um fator de limitação. O que pertenceria a toda uma civilização (a arte marajoara, por exemplo), passa a ser arte de uns poucos.

A técnica não pode estar exclusivamente a serviço da reprodução fiel da realidade, porque existe o espaço do sonho.

Por outro lado, o "excesso de realidade" que uma técnica tipo 3D pode oferecer (penso no Imax, sobretudo, ao qual será preciso voltar, mas também à tendência ao 3D de se difundir) não seria limitativo? Os "temas cinematográficos" não seriam limitados (que nem o das tapeçarias) para satisfazer às necessidades da técnica?

Observações:

1. Estou longe de ter dado conta de tudo. Quem achar momentos significativos na fala dele (e há) e quiser traduzir, por favor... Como tento interpretar o que diz Renoir, posso estar enganado. Correções são bem vindas.

2. Mesmo a quem não entender francês ou inglês recomendo ver Renoir falando: seu falar expressa em grande medida sua maneira de sentir o mundo, que colocou de maneira tão delicada e incisiva nos filmes dele, em que a arte parece só fazer sentido se coincidir com a arte de viver.

Por Inácio Araujo às 17h34


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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