Mizoguchi e suas mulheres
Como se faz uma prostituta? Desde o início a questão está posta em "Mulheres da Noite". No pós-guerra, Mizoguchi era dado como um artista do passado. Mas ele era, mais do que tudo, um mata-borrão capaz de absorver tudo. Daí "Mulheres da Noite" ser um filme em que a influência neo-realista se mostra claramente, não só nas filmagens em locação como no tema, onde os sofrimentos do Japão depois da derrota na guerra aparecem com muita evidência. Como sempre, quem paga a conta é mulher. Na cena acima, Fusako (Kinuyo Tanaka) deixa o escritório antes da hora por conta de uma batida policial. Chegando em casa, encontra Natsuko, sua irmã, bailarina, com o patrão (e também amante). Quem vir esses poucos minutos dificilmente vai querer perder o resto. E uma coisa: Kenzi Mizoguchi, além de ser mestre total do cinema, era um especialista no assunto (prostituição e prostitutas).
Utamaro vive para as mulheres que desenha. E pinta até sua pele, na tentativa de identificar plenamente a arte e a vida. Talvez por isso a vida das suas modelos pareça se abater sobre ele, com seus dramas e problemas. A arte se confunde com a existência que busca apreender, lhe tira alguma coisa, lhe dá outras. Não por acaso, Utamaro será preso em determinado momento, acusado de pornografia: não existe arte se não existe risco. Outra obra-prima, em que existe uma atmosfera opressiva, como se refletisse, talvez, a ocupação estrangeira no Japão (ou, quem sabe, o tempo dos senhores da guerra).
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MULHERES DA NOITE (Yoru no Onnatachi). Japão, 1948. P&b/72 min. Direção: Kenji Mizoguchi. Com Kinuyo Tanaka, Sanae Takasuji e Hiroshi Aoyama. Distribuição em DVD: Lume Filmes.
UTAMARO E SUAS CINCO MULHERES (Utamaro o Meguru Gonin no Onna). Japão, 1946. P&b/105 min. Direção: Kenji Mizoguchi. Com Minosuke Bando, Kinuyo Tanaka e Kôtarô Bando. Distribuição em DVD: Lume Filmes.
Por Inácio Araujo às 00h38

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