UOL Cinema

11/04/2009

"Chegou mais um fime soviético..."


 

É a melhor coisa do novo filme de Wajda. De repente, sabe-se que um novo filme soviético vai passar na cidade polonesa.

Nele, vê-se o rescaldo de um massacre horrível, o de Katyn, em que são assassinados 12 mil oficiais poloneses que estavam presos.

No filme, os soviéticos relatam, na banda de som, como o tiro na nuca era o método típico de assassinato dos nazistas.

Ora, um pouco antes havíamos visto as atualidades alemãs. Os mesmos corpos, o mesmo massacre, só que a explicação era outra: o tiro na nuca era o típico método de assassinato usado pelos soviéticos!

O filme todo me pareceu desigual: tem momentos como esse, em que a mentira do cinema se revela inteiramente, seguidos de outros bem frouxos.

Não posso falar do final, mas posso dizer que ele se anuncia belíssimo, delicadíssimo, quando vemos as páginas de um diário, e é seguido por uma sequência bem mão pesada.

O melhor me parece a atmosfera que Wajda cria de um país espremido entre URSS e Alemanha.

Há também o captar, os dramas pessoais, insignificantes para o conjunto do mundo, que fazem o horror (ou um horror menos conhecido) da guerra. Esses dramas não passam para o conjunto, isto é, não nos incitam a tomar partido ou a generalizações. Eles existem em si. Exemplo: a história do rapaz que, assim que encontra o que parece ser a garota da sua vida, sofre um acidente.

Por Inácio Araujo às 01h15


09/04/2009

Rescaldo de "Fiel"

 

1. "Fiel" está em cartaz desde hoje em São Paulo. Essas pessoas que despejaram seus impropérios aqui (e que não representam a torcida corintiana) deveriam, em vez disso, ir ver o filme. Se querem me deixar triste, encham o cinema. E se tiverem tempo aproveitem para ver algum outro filme. Depois, podem até voltar e discutir o filme, discordar etc. Agora, defender (ou atacar) uma coisa que nem ao menos viram, não dá pé.

 

2. Recebi a correspondência abaixo. Não conheço o autor, nem posso dar referências a respeito. Mas o projeto parece interessante. Em vez de perderem tempo falando absurdos na internet, vejam o trailer e talvez se disponham a ajudar o rapaz a concluir o filme. Demonstrariam melhor sua estima pelo clube.

 

"Olá, Inácio Araújo

 

Meu nome é Gustavo Forti Leitão e sou o diretor do filme “Ser Campeão é Detalhe – Democracia Corinthiana”, sobre o período histórico da Democracia Corinthiana.

 

Com 26 minutos, o documentário está praticamente finalizado. No entanto, ainda procuramos recursos para pagar as imagens de arquivo, sem as quais o filme não pode ser veiculado.

 

Gostaríamos de aproveitar essa semana que estréia o filme “Fiel” para pedir o seu apoio veiculando alguma notícia sobre nosso filme e situação. Estamos disponíveis para entrevistas.

 

Também nos disponibilizamos para entregar uma cópia do filme em mãos qualquer dia dessa semana para possível crítica ou resenha.

 

Aqui está o link para o trailer (http://www.vimeo.com/4050320)."

 

Por Inácio Araujo às 14h31


07/04/2009

"Fiel" é fiel ao marketing


O Pacaembu visto por Thomas Farkas, do belíssimo "Thomas Farkas, Pacaembu" (DBA Editora)

"Fiel" é um mau negócio para uma jovem realizadora (bem menos para os roteiristas, que têm a vida feita): é, basicamente, uma operação de marketing.

O filme é uma celebração da chamada "fiel torcida" pelo método tradicional do documentário: um monte de torcedores fanáticos falando as coisas que todo fanático mais ou menos fala explicam porque ser corintiano é uma experiência única, insubstituível, da ordem da natureza etc.

Como, para piorar, o marketing corintiano se apóia na paixão da torcida pelo time, o filme é meramente bajulatório de seus torcedores e de seu comportamento.

O uso ecumênico das classes sociais não poderia faltar: os entrevistados são ricos, pobres, homens, mulheres, altos, baixos, mas diante do Corinthians são iguais - ainda uma vez, algo que acontece com qualquer torcida. Não que o Corinthians não tenha ricas particularidades: mas o misticismo, São Jorge, o velho Mosqueteiro com seu idealismo antiquado nem são mencionados. E, claro, não se vê nem sombra das muitas macumbas que povoaram os muros do estádio nos momentos dramáticos de 2007.

Com tudo isso, ou antes: sem nada disso, "Fiel" esvazia o "ser corintiano" de conteúdo, enterra a mística do sujeito que acredita na luta mais do que na vitória; no milagre, mais do que na razão; na garra mais do que no refinamento. Em "Fiel", um corintiano é só um corintiano: mera e cansativa tautologia. Já vi coisas melhores de Andrea Pasquini e espero voltar a ver.

O que mais dá medo em "Fiel" é que essa mania de filmes oficiais, apaixonados, autocelebratórios, se difunda de maneira incontrolável entre os times de futebol. Já houve um do Grêmio, que não vi. Promete-se um do São Paulo, que desde já estou ansioso por não ver.

Por Inácio Araujo às 13h48


05/04/2009

Dar a ver os filmes que fazemos 2 - A Missão


Sem querer ser juiz de nada, acho que os comentários do post "Dar a ver etc." foram dos mais interessantes.

Por algumas razões:

1. Está mostrando que existe um problema amplo, que não se resolve com uma ou duas medidas. Cada cidade tem sua característica, seus problemas e seus avanços. Então qualquer atitude terá de ser, com o perdão da palavra, pontual, para que se possa alcançar o espectador, interessá-lo, fazê-lo ver novamente o cinema.

2. É preciso levar em conta que no passado, até 1980, mais ou menos, não existia a separação radical entre "espetáculo" e "arte" no cinema. Tudo vinha ao mesmo tempo, basicamente. Hoje existe essa divisão. É mais um aspecto a se tomar conta: aproximar essas duas coisas.

3. Compreendo bem quem diz "nacional? tô fora". Às vezes eu também digo. Mas fincar pé nisso não resolve nada. E dizer que filme nacional é índio, favela, mauricinho e sacanagem não resolve nada também. Achar que nós, espectadores, somos melhores do que os filmes, e que portanto eles não merecem nem ser vistos, é apenas fugir da questão. Na verdade, nós somos parte do problema, sim. Ninguém é tão melhor do que os filmes para que eles não mereçam nossa atenção.

4. Quanto a "qualidade" podemos discutir um século. Eu só quero dizer uma coisa: não estou aqui de advogado xenófobo de filme brasileiro. Acho que o ano de 2008 foi intelectualmente muito bom e merecia que os espectadores tivessem tido mais acesso aos filmes. O problema é que pouca gente vai ver o filme do Claude Chabrol, o da Lucrécia Martel, o do Brian De Palma ("Redacted", que é o filme de guerra mais genial desde "The Big Red One", não entra em cartaz) etc. etc. Nossos critérios de distribuição e exibição são tão mixurucos, tão atrasados, que daqui a pouco ninguém mais vai lembrar como é um bom filme.

Por Inácio Araujo às 01h43


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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