UOL Cinema

08/02/2010

Sobre um favorito do Oscar

 

"Guerra ao Terror", que começa por ser um título fajutíssimo, trata de um esquadrão antibombas, mais especificamente de um especialista em desarme de bombas no Iraque.

É um aspecto bem específico da guerra, que o filme desenvolve nesse estilo bem contemporâneo de jogar o espectador dentro da ação praticamente omitindo todo contexto.

Não me impressionou tanto assim, embora haja momentos fortes. "Redacted" me parece um filme dez vezes melhor, mas isso é quase um detalhe.

Primeiro: vi o filme no sábado, um dia após a estréia, e a sala estava longe de estar lotada. Bem longe.

Me parece que a Guerra do Iraque não é muito cinematográfica: tudo é aridez, não só as paisagens. Filmes sobre o Iraque são, de um modo ou de outro, sufocantes. Não é bem o "programa de noite de sábado".

Dito isso, em termos de Oscar acho que é um forte candidato, embora não seja um "filme de Oscar", esse gênero de filme que só existe com o Oscar, pelo Oscar. Acho que "Preciosa" está mais no caso, entre os que já pude ver. 

Fiquei com essa impressão porque é um filme que, me parece, do ponto de vista político agrada a todo mundo: mostra o horror da guerra copiosamente, o que deve agradar o eleitorado liberal. Ao mesmo tempo, faz de todo iraquiano um suspeito (DePalma também, mas de maneira bem diferente: eles são suspeitos ao olhar dos soldados, mas esse não é um olhar único em "Redacted", enquanto aqui é, sim), o que é bom não só para o eleitorado conservador como para a América, que está bem dilacerada por causa da crise e não pode ficar se autocriticando muito. Não num evento tipo Oscar, pelo menos.

E "Avatar", tão mal falado, tão tido como tolo, ingênuo etc. traz uma crítica ao militarismo muito forte. Ao militarismo americano e à sua associação com os negócios. Faz lembrar de cara o governo Bush, não? Em suma, pode ser tudo, menos ingênuo.

Por fim, fiquei com a impressão de que o "Guerra ao Terror" é, por enquanto, o favorito ao Oscar. Digo por enquanto porque Oscar é um pouco que nem corrida de cavalo: não raro aparece um cavalo disparado na frente, mas de repente vai perdendo força, os outros passam e ele acaba lá atrás.

Ah, sim, eu estou longe de ser especialista em Oscar, e vivo me enganando nas previsões. 

Por Inácio Araujo às 10h38


04/02/2010

Começa a guerra do Oscar

 

Nos EUA, pelo menos nos lados do Oscar, existe certa comoção em torno de "Amor sem Escalas", o filme do Jason Reitman.

É um filme até certo ponto ousado, já que seu herói é o vilão, o cara que tem por profissão despedir pessoas.

Ao mesmo tempo, eu me lembro que Hitchcock achava que a peça fundamental de um filme era o antagonista, o vilão: quanto mais fascinante fosse, melhor.

Aqui temos um personagem bonitão, mas de um vazio avassalador. Tudo que ele quer da vida é colecionar uma quantidade brutal de milhas aéreas de uma determinada companhia.

É duro acompanhar um cara assim!

As intenções são boas, quer dizer, o filme está em cima dessa questão da crise, que nos EUA foi avassaladora.

Mas é estranho, porque a horas tantas entra em cena uma jovem universitária que vem trabalhar na companhia e parece que vai se criar um antagonismo entre eles, nem que seja geracional, mas nada disso. A garota some diante do cara.

Ainda assim é um filme simpático, porque só a proposta de fazer um filme sobre um ser inexistente, esse paradoxo, já é interessante.

Bem, agora começa a temporada de estréias, o que significa correr literalmente atrás dos filmes. Vai começar pela Bigelow, que estréia amanhã, e que está com tudo.

A Maria do Rosário notou no Almanaque uma coisa que me havia passado em branco: Avatar não foi indicado para roteiro.

Sinal de que o entusiasmo pelo filme anda meio morno.

Ou que, já tendo cumprido seu papel, de estourar na bilheteria como 3D, Hollywood tem outras mensagens a passar em sua principal cerimônia anual.

Em todo caso, com essa história de dez filmes e mesmo pelos filmes o ano se apresenta bem mais interessante do que 2008.

Por Inácio Araujo às 11h30


31/01/2010

Longe de Tiradentes

 

O festival que eu mais gosto é Tiradentes. Acabou de terminar.

É pequeno, de tal modo que todo mundo que está lá se encontra.

Essas pessoas têm afinidades, é bom reencontrá-las (ou conhecê-las).

A organização é impecável. Sempre dá tudo certo.

O principal, para mim, é que lá exibem uma série de filmes de novos cineastas. É um dos raros festivais que se dá ao trabalho de buscar e revelar filmes que, às vezes, nem entram em cartaz.

O Cleber Eduardo é ótimo curador, de maneira que abre para um belo panorama anual do cinema brasileiro.

Acho que a maior parte dos festivais hoje é refém dos grandes prêmios, das grandes estruturas. Parece muito bom a princípio, mas depois se torna uma luta fratricida por prêmios, por aparecer, por vitórias que não são vitórias (enquanto não ganhar é queimativo).

Por Inácio Araujo às 23h19


29/01/2010

Onde estão os filmes de futebol?

 

Tenho a impressão de que essa pergunta vai e volta, desde os tempos em que Spencer Tracy era locutor esportivo.

Se temos uma grande paixão pelo futebol, então os filmes sobre o assunto deveriam constituir um filão ao menos tão rico quanto, digamos, o do cangaço.

"Invictus", o novo Clint Eastwood, ajuda a dar uma resposta, embora pudesse ser "The Longest Yard", a primeira versão, ou vários outros.

A resposta é: não existe filme sobre esporte. Os jogos não são um bom assunto, mas aquilo que existe em torno deles.

Existe também um pequeno filme, mas bem sucedido, me parece, chamado "Coach Carter", em que um técnico de basquete transforma uma escola público do depósito de gente que era em um lugar de formação, servindo-se para tanto do basquete.

Em "The Longest Yard" era o jogo de futebol americano opondo os presidiários aos guardas de presídio.

Clint Eastwood usa mais ou menos o menos recurso. Saca do rugby, um esporte que mal conhecemos por aqui, como o futebol americano, para dizer duas ou três coisas sobre Nelson Mandela e, sobretudo, a integração racial.

Em todos os filmes sobre esporte que dão certo o importante é o que está fora de campo. É o que está em torno dele. Aliás, foi assim que Ugo Giorgetti fez também em "Boleiros" (no primeiro, sobretudo) e deu muito pé.

Quanto a "Invictus" é aquela coisa: Clint tem algo a dizer e diz. Desde o estado de oposição entre brancos e negros na África do Sul (resumido de forma magnífica no plano de abertura) à ação de Mandela, servindo-se da paixão esportiva para criar a hipótese de esquecimento do "apartheid", passando pela inteligência dos grandes políticos, tudo está lá.

Mas me parece, antes de mais nada, um filme da era Obama. E Clint é o mais democrata dos republicanos, nunca vi.

(P.S. - Pode-se apontar uma série de fraquezas no filme. Pode-se dizer que existe um "núcleo branco" desenvolvido quase que nem em novela. Ou que a cena da distribuição de um ticket para a empregada é frouxíssima (dessa eu não discordo, aliás). Mas a grandeza de Clint está, em parte, em ser alguém muito prático. Faz filmes modernos não porque recorra a técnicas modernas ou acelere absurdamente a duração dos planos. Mas porque tem algo a dizer ao tempo presente, concorde-se ou não, e diz. Seu cinema nunca é um passatempo, embora pareça, de tão agradável que é.)

(P.S. 2 - O jogo em questão aqui é rugby, outro que no Brasil a gente mal sabe o que é. Mas a emoção que suscita é aquela de um esporte que conhecemos profundamente. Porque, como eu disse, a rigor o esporte não importa, ele é apenas o lugar vazio onde se joga uma grande carga emocional. O filme do Cao Hamburger era de certa forma assim, embora ali os dois assuntos, o desaparecimento do pai e o campeonato de futebol, corressem um tanto paralelos, como em "Pra Frente Brasil".)

Por Inácio Araujo às 07h44


26/01/2010

Jean Simmons: fé e erotismo


Acho que ninguém foi mais responsável por converter romanos ao cristianismo do que Jean Simmons.

Ou talvez nem seja tanto assim. Mas foi com ela que eu aprendi que a mulher era capaz de incutir a fé, qualquer fé, nos homens.

Em "O Manto Sagrado" era assim: o romano não resistia a Jean Simmons e se convertia.

Eu fantasiava que ela fazia parte de "Ben-Hur", mas não, o IMDb diz que não. Devia estar lá, em todo caso. Em "Spartacus" ela trabalhava, transmitindo ardor à luta de Kirk Douglas.

Parece que as superproduções gostavam dela. A fé coincidia com a franqueza, com a imagem de humildade que transmitia. Era uma mulher em que se podia confiar.

Mesmo nos tempos modernos em ninguém caiu melhor os trajes sisudos da pregadora. Era sargenta ou coisa assim do Exército da Salvação, em "Eles e Elas". Mas com aquelas roupas horríveis e tudo caía nas garras de Marlon Brando. Ou vice-versa?

E em "Elmer Gantry" era a coadjuvante ideal para o pastor Burt Lancaster.

Acho que vi Jean Simmons em outras situações, mas não me lembro. O que mais me impressionava nela era isso: a capacidade de, com seu rosto angelical e a expressão corporal completamente contida, seduzir os maiores galãs do cinema. Os romanos mais empedernidos cediam ao encanto de sua fé, de sua sinceridade, tanto quanto de sua beleza.

Com um terninho do Exército da Salvação era capaz de ficar mais provocante do que se aparecesse de biquini.

Desenvolveu o erotismo total, o erotismo pio.

Mas podia ser inteiramente perversa sob a aparência inofensiva. "Angel Face" é possivelmente sua obra-prima. E a de Otto Preminger também.

Jean Simmons morreu no dia 22. aos 80 anos. Deixa para nós ótimas lembranças.

Colateral

Peguei "Colateral" no comecinho, na TNT, ou seja: filme dublado e com as laterais cortadas até o talo.

Mas foi nessa visão, precária, que finalmente entendi o filme. Todo mundo me falava dele. Eu não conseguia achar nada.

Porque, talvez, julgava que o personagem principal era o Tom Cruise, quando na verdade é Jamie Foxx. Toda a aventura é dele, do chofer de praça.

Mas ele tem o volante, não o comando. E é na medida em que não tem o comando, em que precisa obedecer o assassino que leva no banco de trás que ele passará pela aventura e mudará sua vida, e de sonhador passará a agente.

No mais, me parece, de longe, o papel onde Tom Cruise está mais marcante.

Por Inácio Araujo às 23h02


19/01/2010

Rohmer, o libertador

 

A primeira vez que gostei, realmente, do cinema de Eric Rohmer foi vendo "O Amor à Tarde", isso nos anos 70.

Na minha frente havia alguém se mexendo, inquieto com tudo aquilo. Na saída descobri que era o Khouri, o bom Walter, grande diretor, mas a antítese do que Rohmer poderia propor.

No Amor à Tarde, uma velha e bela amiga de um homem hoje casado se põe a paquerá-lo.

Em qualquer outro filme, de qualquer outro diretor, o cara iria direto para a cama com a garota. Não no Rohmer. Ele resiste, pois tem um compromisso. Mas ela é o máximo... E insistente...

E nisso as coisas vão.

E o Khouri furibundo na saída com esses filmes em que se fala fala e não acontece nada.

Bem, nesse dia eu entendi que esse filme ia na direção contrária da idéia do francês erótico. Mas o que mais importou para mim foi descobrir que quando uma paquera não dá certo isso não se deve necessariamente a nós e a nossas deficiências, nem a qualquer outra questão psicológica. O mundo é assim, meio surpreendente, meio estranho quando tende a ser óbvio e, talvez, vice-versa.

Mais algum tempo e, quando a modernidade e a poesia eram deusas veneradas por mais ou menos todo mundo no cinema, leio uma entrevista dele com o pessoal dos "Cahiers" e quase esborrachei de rir.

A horas tantas um deles dizia mais ou menos o seguinte: O que a gente aprecia no seu cinema é que não existe transparência, a gente sente todo o tempo o trabalho da câmera.

E o Rohmer: Ah, então eu devo estar fazendo tudo errado. Eu quero que minha câmera seja imperceptível.

E ia por aí. À idéia de que os filmes não podiam mais ser lineares ele opunha a cronologia; quando lhe falavam de poesia, ele respondia falando de prosa; quando falavam em filmar pensamentos, ele dizia que isso não existe.

Não é preciso concordar com tudo. A independência, a audácia, o dar de ombros às modas era a lição fundamental: nunca correr atrás dos outros.

Anos mais tarde eu mostrei um projeto de tese que havia escrito ao Jean Douchet, que era muito próximo do Rohmer. Não serei modesto a ponto de dizer que ele não me elogiou (não sei se foi sincero, é outra história). Ele falou mais ou menos o seguinte: Oxalá todas as teses fossem assim!

Depois virou e completou: Agora, essa parte de semiologia que você colocou aí, é melhor jogar tudo fora. Está provado que não funciona no cinema".

Também acho que estava certo.

Bem, Rohmer morreu agora em janeiro. Já escrevi muito sobre seus filmes e admiro muito certas idéias, que trombam com todas as facilidades que o cinema toma para si.

Por exemplo, dizia ele: ao adaptar uma obra clássica, a única maneira de ser moderno é permanecer o mais fiel possível à época representada.

Se Guy Ritchie tivesse dado ouvidos a ele não faria um Sherlock Holmes idiota como fez.

Enfim, o que quero dizer: não tenho mais nada a dizer sobre Rohmer. Queria ler idéias outras, outros pensamentos, como uma vez li um texto muito bacana de uma moça cujo nome não me lembro na revista do Sergio Alpendre, a Paisà.

Queria sobretudo que alguns de seus filmes recentes pudessem ser vistos aqui, como Agente Triplo, que eu achei espetacular (espionagem falada!).

Boa posteridade!

Por Inácio Araujo às 18h52


18/01/2010

"Avatar" ou o elogio da liberdade

 

Aqui e ali leio que "Avatar" não passa de uma coleção de clichês. O filme mais desinteressante do mundo.

O que são esses clichês? Coisas como: o homem tem mais a temer da sua ciência e de si mesmo do que da natureza.

O militarismo é a ponta de lança das grandes corporações e tem na ciência uma espécie de subalterna um tanto inconsciente.

Algumas dessas coisas são evidentes e estão no filme de James Cameron. Todo filme grande precisa de formulações evidentes, às quais o espectador possa se identificar para funcionar. Todo bom filme grande os reinventa, os mostra sob uma ótica diferente, fresca.

Na verdade, em geral quem reclama desses clichês são reacionários. Reacionários só admitem dizer coisas como "não há almoço grátis". Isso não lhes soa como um clichê. Parece-lhes uma verdade que se repete eternamente, só isso.

Os clichês pertencem sempre ao outro. E o outro é necessariamente de esquerda, nesse caso. Essa direita só é capaz de raciocinar em termos de caça às bruxas.

Os comunistas desapareceram, todos pensávamos.

Não, eles estão apenas disfarçados, moitados, esperando para atacar. Tornaram-se perigosos ecologistas, prontos a colocar a natureza acima dos homens, a preservação acima do progresso etc. etc.

Bem, eu acho tudo isso uma grandíssima bobagem. Ou por outra, a relação militarismo/corporações/ciência me parece muito bem descrita no filme.

A ameaça maior não é a natureza, é a ciência. Ela é que cria os meios de destruição e em dado momentos os torna quase ilimitados.

No filme, existe um planeta ameaçado pelos homens, por possuir uma fonte de energia fabulosa, cobiçada pelos homens (ou seja, por uma grande corporação).

Na expedição vai também um soldado (Jorge Coli a comparou a uma expedição contra Canudos, o que faz todo o sentido). Esse soldado esteve, presumivelmente, numa dessas guerras inglórias em que os americanos se metem e ficou sem os movimentos dos membros inferiores. Mas ainda é um soldado.

Ora, quando se vê no novo planeta, duplicado, dotado de uma segunda vida em que tem seu corpo vivo integralmente, ele se verá maravilhado. Seu corpo se confunde com a visão que tem do planeta, Na'vi, se não estou enganado. Ele pode andar e pular.

Não será difícil, portanto, trair seus semelhantes, passar para o outro lado, defender esse planeta atacado em sua beleza e integridade.

Ali vive uma civilização primitiva. Em que é primitiva? Ela se conecta de maneira enérgica com a natureza. Seu grande desafio é sobreviver à natureza. Existe ali um animal alado que deve ser dominado para que se submeta ao sujeito. É preciso domá-lo como, no século 19 e no faroeste do século 20 se fazia.

É uma civilização da liberdade que se confronta com uma civilização da técnica irrestrita, ilimitada, acrítica, arrogante e destrutiva.

Não é tão diferente do "Titanic", afinal de contas: essa mesma autoconfiança sem fim, essa mesma crença na eficiência, essa mesma incapacidade de observar a realidade sob outros ângulos que não o da estrita competência (e de uma competência limitada, localizada, tacanhamente especializada) é que leva ao desastre.

Em "Avatar" não é tão diferente assim. É claro, existe uma civilização-espelho no filme. Mas essa civilização é, em grande medida, a própria América. Encarna certos valores da América (digo, EUA), como o culto à liberdade, bem mais do que os militares e cientistas, que são degenerações desse espírito.

E já que não existe natureza por aqui, ou quase, busca-se em outro planeta, onde a sobrevivência na natureza parece expressar a própria natureza dos seres: são feitos para viver numa natureza que é preciso dominar, saber dominar sem destruir. Porque o bicho em que voam (que é como o cavalo do cowboy) é seu meio de transporte. Não pode ser aniquilado.

Cameron não é um cínico. É um moralista na tradição americana, como John Ford. Ele não acredita em grandes homens, ao menos não naqueles vendidos como grandes homens. Seus grandes homens são obscuros, mas são de um modo ou de outro incorruptíveis. Não sabem fazer senão o que lhes parece certo. Eles não degeneram. A ciência hesita, porque a ciência já não conhece moral: ela só sabe caminhar, sem refletir sobre o caminho ou o destino. É o que faz Sigourney Weaver no filme.

Um filme que se descobre aos poucos. Que se entrega a nós aos poucos. Um elogio da liberdade contra uma civilização onde a liberdade tornou-se apenas uma palavra vazia. Um clîchê.

Um filme belo, livre.

Ah, mas então tudo isso é oportunismo para ganhar dinheiro às custas da floresta, da liberdade, etc. E daí? Só se pode ganhar dinheiro fazendo o elogio do militarismo? Isso está escrito em algum lugar? Trata-se de uma lei? Não há. Tudo isso não passa de mero juízo de intenção. Então toca o bonde.

Por Inácio Araujo às 00h23


15/01/2010

Meus Caros Amigos...

 

O título vem do filme de Mario Monicelli, um diretor de que todo mundo, acho, gosta, mesmo quando não gosta de seus filmes.

Diz respeito aos afetos. Claro, implica Eric Rohmer. Escreverei sobre ele em breve, temos toda a eternidade para ele, agora (mas escrevi um texto para a Folha, na emergência, saiu na quinta-feira; é possível acessá-lo no site da Folha (não sei se só para assinantes de Folha ou Uol, mas algum jeito se dá).

O fato é o seguinte: andei no interior, quase sem internet, quase sem telefone.

Não sem TV, que é uma fatalidade. Daí, escrevi umas linhas meio sem compromisso sobre a minissérie da Globo.

Houve quem discordasse, o que é normal. Mas, em geral, houve quem ficasse muito bravo. É sobre esse tipo de comportamento que me ocorreram algumas idéias, que transmito rapidamente. Não a esses leitores, mas aos caros amigos, que aqui conversamos regularmente.

1) O crítico é um fantasma permanente. Ele não é alguém que se dedica mais a assunto, que o estuda, que tem eventualmente alguma experiência acumulada. É o cara mau que vem falar mal daquilo que gostamos e, portanto, de nós. É o que julga, sim, mas a partir de critérios obscuros, ininteligíveis e talvez viciados.

2) O critério de autoridade é o argumento mais ou menos máximo e comum. Quem é você para falar disso? Você precisa ter visto tudo, do começo ao fim, para formar uma idéia de um objeto artístico como "Dalva & Herivelto". Eu me pergunto: será? Quem come um prato de macarrão precisa degustá-lo até o fim para saber se é bom ou ruim? É preciso ler todo um romance de Kafka para saber que ele escreve bem? Vemos o sol nascer todo dia. Não precisamos esperar até amanhã para saber que ele nascerá. A idéia central é, mais ou menos ostensivamente, essa: sabe com quem está falando?

3) O mais sério: a minissérie é uma dádiva. Chega em nossas casas, é melhor do que pastor falando, é melhor do que a novela. Tudo isso é verdade, mas revela duas ou três coisas angustiantes sobre a distribuição de cultura no Brasil. A TV é o único modo de contato permanente com a cultura metropolitana em boa parte do país. Eu estava aqui de perto de SP, e não tinha cinema, nem teatro. Em geral não existe também livraria, isso nem pensar. O lugar dado à cultura pelo Estado é de um penduricalho meio pesado que é preciso subsidiar para que um bando de artistas chatos não se ponha a reclamar nos jornais. É preciso entrar numa loja de DVD no interior para entender a precariedade do contato com o cinema. Eu já estou ficando chato de falar essas coisas, mas se a educação e a cultura não se aperfeiçoarem no país, e muito, podemos desenvolver e crescer até certo ponto, mas depois não terá nem mão de obra capaz de tocar o barco.

4) Este vale também para o blog do filme do "Lula". É muito frequente o uso disso que na França se chama "processo de intenção" e que invalida, de imediato, a argumentação de quem utiliza. Trata-se de julgar não o que está dito ou feito, mas a intenção suposta existente por trás. Então, você disse isso do Lula porque é contra o PT. Ah, falou aquilo é porque é a favor da Dilma. Trata-se de um vício muito frequente. Há os que acham que jornalista fala bem (ou mal) de algo porque recebe para isso. Até acho possível que tenham razão, em determinados casos, mas, como não há provas disponíveis que tal ficarmos com a matéria, com aquilo que está escrito, pois é absolutamente estéril afirmar que fulano diz tal coisa porque é favor ou contra a Globo, essas coisas. O fato é que pelo menos os frequentadores compulsivos de blogs, esses que aparentemente pulam de um a outro o dia inteiro, desenvolvem muito esse tipo de paranóia. Ela se apóia sobretudo em convicções políticas (eu diria antes: paixões políticas). Os mais veementes acham que descobrem uma grande coisa escondida quando dizem "ah, já vi, você é petista", como se isso fosse proibido, ou como se a tautologia (um petista é um petista) explicasse tudo por si só - quando na verdade não explica nada.

5) Algumas surpresas dos últimos dias:

a) vi finalmente "Bezerra de Menezes". A produção é pobre, não raro precária, mas há talento ali, muito mais que nuns diretores que vivem na coluna social: sentido de clima, intuição clara para o terror (a cena da menina possuída é ótima), desenvolvimento temático na mise en scene, mais que no roteiro (a idéia de articulação matéria/espírito num filme que trata disso). É soberba a passagem da imagem de um B. de M. já velho para a imagem de uma jovem de seu passado (na verdade, sua primeira mulher): é a um só tempo passado, memória, fantasma - um articulação exscelente). A cena em que Bezerra (Vereza), Lúcio Mauro (soberbo, parece tomado) e o ateu discutem é notável. Claro, o filme é desigual, mas não diria que isso é um defeito, dada a produção pobre. Um filme popular, sim.

b) "Leningrado". Outro de que fugia há tempos. Uma montagem notável (na tradição russa). Há cortes que parecem dar um solavanco no filme, juntar coisas distantes etc. Aliás é bom que se juntem coisas distantes. Há americanos, ingleses, russos e alemães na parada. O final é amargo, tremendamente amargo.

Caros, desculpem eu ter de sair correndo. É hora de pagar as contas atrasadas.

Por Inácio Araujo às 12h29


09/01/2010

Música é a alma de "Dalva & Herivelto"

 

Não vi inteira o que a Globo chama de microssérie, mas acho que dá o maior pé tratar de música brasileira, porque na pior das hipóteses há sempre a música.

Me disseram que o melhor dia foi um em que Dalva e Herivelto dialogavam (ou duelavam) via músicas. Perdi.

Minha impressão, pelo que vi, é que estamos a quilômetros de algo como "Anos Dourados", do Gilberto Braga.

E que a dramaturgia da Globo faz água. Como eu disse, não vi tudo, mas de tudo que vi a única coisa eram cenas de ciúmes, gritarias, choro, pilhas de choro, choro que virava música e por aí a coisa caminhava, trôpega.

Ora, mesmo sem saber nada da vida dos dois, me parece que havia alguns temas a explorar. Dalva tinha sido babá ou coisa assim. A ascensão social do negro (os traços dela são negros, não sei até que ponto, mas são) pelo rádio era um bom assunto de que se passou ao largo. As contradições implicadas, idem. Não seria essa uma questão para Herivelto?

Há um bom momento: ela observa que ficou de chinelo, que Herivelto não iria gostar. Mas isso não vai mais longe.

A série se contenta em fazer dela a vítima e dele o vilão. Não será um tanto redutor? Que contradições havia, de fato, na ligação entre os dois é coisa em que se poderia avançar, me parece.

Mas, como diz outra música, "nesta altura, como parte da rotina, o piston tira a surdina e põe as coisas no lugar".

Ou, entra uma música e tudo está salvo.

A mise-en-scène me pareceu ter "alma de executante", para evocar Bresson: padrão Globo.

É incrível, no entanto, a quantidade de diálogos de Maria Adelaide Amaral que chegam à boca dos personagens como uma banalidade ou ridicularia que nem Laurence Olivier conseguiria dizer.

Repito, digo isso sem ter visto tudo, mas, francamente, não sei se mudaria muito vendo de cabo a rabo. 

Por Inácio Araujo às 23h31


06/01/2010

Lula, o filme

 

“Lula, o Filho do Brasil” pode não ser um filme que vai entusiasmar os cinéfilos, nem tem muito por quê.

Cumpre as convenções que tem de cumprir um filme acadêmico, um filme feito para o sucesso. Ponto.

Mas é um produto complexo, desses de que se poderá falar por anos. Se der certo, em especial.

Há muitos aspectos a destrinchar. Vou apenas nomeá-los. Depois, conversa-se a respeito.

1) A mãe. O presidente tem razão: não é um filme sobre ele, é sobre a mãe dele.
Ou antes, é um filme sobre “a mãe”, a maternidade, os milhões de mães pobres que criam os filhos depois que os maridos ou parceiros desaparecem do mapa sem dar explicação. O filme investe sobre isso. Faz do pai um vilão que, lendo o livro, não percebi muito bem. O fator de identificação com as mulheres é muito forte.

2) O filho. É um sobrevivente. O brasileiro é um sobrevivente (sempre que sobrevive, claro). Fator de identificação com os homens.

3) Um homem pobre, não muito alfabetizado, chega à presidência da República. É o triunfo do “homem qualquer” (não no mau sentido, claro). É o fulano com quem qualquer pessoa pode se identificar e que triunfa, chega à presidência.

4) É um filme do culto da personalidade? Se eu fosse presidente nunca deixaria ninguém fazer um filme sobre a minha vida eu estando na presidência.
Me parece imprudente. Pode-se cair no ridículo ou no culto da personalidade. Talvez por isso minhas chances de chegar à presidência, ou mesmo à vereança, sejam praticamente nulas. Agora, também não dá para engolir essa de “pensamento único”, como se houvesse uma ditadura lulista em andamento. Não é isso. O presidente consentiu no filme, me parece, como outros consentem em que se escreva um livro sobre eles. Acho que é sensibilidade. Não acredito em cálculo político.

5) Será uma peça de campanha? Me parece que não, a menos que os publicitários decidam trabalhar a imagem de Dilma Rousseff como a mãe protetora do Brasil. Se isso acontecer, o filme pode entrar na roda. Caso contrário, acho que está perfeitamente isolado: é a história de uma mãe.

6) Qual a semelhança com “2 Filhos de Francisco”? Bem, há dois tutores fortes, no primeiro caso, um pai. No segundo, a mãe. Mas Francisco tem um quê de novo rico (digo isso: no filme, tal como é representado, não quer dizer que ele seja isso): seu horizonte é o êxito, a fama como maneira dos filhos saírem da pobreza. (Acho que isso não é verdade, na vida real: se não fossem sucesso, os filhos de Francisco seriam bons cidadãos, então tenho a impressão de que ele fez mais do que o filme diz). Já a mãe de Lula cria os filhos, um bando, porque cria, para que sobrevivam. Ela não visa o sucesso. Nisso, acho que identificação de “2 Fihos” é com os “vencedores”, os que são ricos ou acham que ser é indispensável. A identificação que “Lula” propõe é de outra natureza: somos brasileiros, nordestinos sobretudo, que lutam para sobreviver, para quem sobreviver é o heroísmo (ei, isso é quase Samuel Fuller).

7) “2 Filhos” não tem história. É filho do country. É recente. É novo-rico no sentido cinematográfico também. “Lula”, ao contrário, descende de “Vidas Secas”. Não acredito que o cachorro largado ali esteja por acaso. Em “Vidas Secas”, Baleia vinha junto. Aqui, o cachorro fica. É uma perda a mais. Mas “Vidas Secas” abria um ciclo no cinema novo, na vida de Luiz Carlos Barreto.

“Lula” encerra. Pode-se pensar que o Brasil melhorou nesses 45 anos. Me parece que sim, aos trancos e barrancos, com e sem ditadura, mas caminhou. Mas se os dois filmes servem para aferir o caminho cinematográfico, ficcional da nação, então demos para trás. As coisas não caminham necessariamente juntas, ao mesmo tempo. “Lula” é acadêmico, como um monte de outros filmes brasileiros. Ou mundiais, vamos ser francos. O cinema é algo a ser repensado em vários sentidos. Para falar com as massas agora será assim: dramaturgia evidente. Será difícil escapar disso. Bem, nesse sentido “Lula”, me parece, é eficaz. Se a publicidade caminhar bem, pode funcionar, sim. As decorrências políticas, na verdade, veremos depois. Não é um filme de campanha, isso é verdade. Mas pode, sim, produzir um clima capaz de favorecer a candidata do presidente.

Por Inácio Araujo às 10h58


04/01/2010

A pior imagem do ano (versão 2010, dia 1)

 

O ano começa com tudo. E o cinema está inocente.

Vamos a uma geral.

1. Parece piada, mas bem agora aparece uma entrevista do sinistro das Minas e Energia dizendo que o Brasil não pode ficar refém dos ambientalistas.

Não ficará. A coisa passou ao nível empírico de observação: estamos desabando em toda a costa leste, quando não estamos nos afogando. São Luiz do Paraitinga na prática sumiu do mapa. Temos em SP bairros ocupando nascentes e também desaparecendo. Estamos secando na Amazônia etc. Caramba, será que tudo não passa de uma sinistra trama ambientalista?

2. Quem viu Week End à Francesa, o filme do Godard, no fim dos anos 60, podia achar que era gozação. Quem for rever agora pensará que o filme foi feito aqui no Brasil.

3. Professores de cursinho choram as mágoas porque a redação era "muito abstrata" e dava margem a dispersão.

O que eles querem dizer é: o tema não era desses que eles podem ensinar mais ou menos ao aluno o que escrever.

Tratava da relação entre imagem e verdade. Bom. o vestibulando que segue o nosso blog devia estar em vantagem e achou moleza.

É algo que se deveria ensinar obrigatoriamente a partir do fim do primeiro grau. É algo com o que temos de nos entender todos os dias. Qual a verdade na imagem que nos vendem os produtos? E os políticos? No mais, aconselho a dar uma olhada num comentário feito à entrada "A Pior imagem do ano"  (o anterior, claro).

Por Inácio Araujo às 13h12


02/01/2010

A pior imagem do ano

 

 

Tudo que pode estar errado, está. Esses nomes bucólicos (Jardim Romano, Jardim Pantanal) para lugares infernais. A ocupação de mananciais quase patrocinada (quando não patrocinada) pelo descaso oficial e usada à saciedade por grileiros e outros bichos. E depois a enchente horrível, interminável, que já não era mais enchente, eram braços de rio tomando seu lugar. Por fim, a solução necessária, desajeitada e desumana: o abandono das áreas de manancial. Vai acontecer? Não sei, aposto que vão empurrar até a próxima e mais mortal enchente. 

Por Inácio Araujo às 13h27


27/12/2009

Os Dez + e outros mais

 

Algumas listas para resumir o ano

 

Estrangeiros:

 

1. Gran Torino

Clint fecha o círculo do justiceiro urbano, de Dirty Harry. Acompanha magnificamente as mudanças, os tempos, não só ao situar seu velho, racista, atrasado personagem numa Detroit não só demolida pela decadência, como ocupada pelos coreanos, como ao nos conduzir a uma viagem em que o próprio tempo se atualiza para seu personagem. Ao final, a idéia de que o combate da violência pela violência é inútil. O destino da violência é afundar a si própria.

 

As Ervas Daninhas

No meu sentimento, um filme que cresce a cada instante. Tudo nele é original, desconhecido, único. No entanto, podemos contactar esse único, comunicar com ele. Porque o único do filme, a aventura referida, é aventura do desejo, que vai por onde quer, faz o que quer. E, embora se inscreva de maneira diferente em cada pessoa, afeta a todos, de maneira que qualquer um conhece (já viveu) situações como aquela, ou melhor, não como aquela, mas análogas àquela.

           

 

3. Aquele Querido Mês de Agosto

Entre os Muros da Escola

 

Um par de filmes “em processo”. Um deles traz um assunto grave (as transformações da educação francesa, num país ao mesmo tempo de cultura muito forte e tradicional, cada vez mais às voltas com estudantes que não se identificam a esse universo. Que fazer?) o outro, bem menos (um mês de férias, um encontro, algumas músicas). Ambos, no entanto, se gestam no fazer, procuram fugir da mumificação dos planos representados à exaustão. Se “Mês de Agosto” parece a todo instante querer escapar de seus limites é porque nos lembra, todo o tempo, que o mundo é maior do que aquele que uma ficção pode conceber. “Muros da Escola”, ao contrário, permanece dentro desse limite: a escola é em si um mundo.

 

5. Bastardos Inglórios

Inimigos Públicos 

Dois filmes de prazer do cinema. À guerra revista e corrigida de Tarantino corresponde a guerra do criminoso contra o Estado, em Mann, uma postulação individualista e anárquica quase à velha maneira, de um Walsh, de alguém assim. Dois belos filmes.

 

7. Avatar

James Cameron faz filmes de 300 milhões de dólares sem fugir da atualidade. De certa forma ele nos lembra aqui essa característica das guerras contemporâneas que consiste na vitória dos fracos contra os fortes. Primeiro foi o Vietnã. Depois, o Afeganistão, o Vietnã dos Russos. E agora o Afeganistão, o Afeganistão dos Americanos.

 

8. Amantes

Horas de Verão

O Nome Dela É Sabine

 

O mais inesperado:

Distrito 9 – bela ficção científica

O Lutador – a volta de Mickey Rourke

 
dentro do esperado (ou seja: esperava-se mais):

Abraços Partidos

 

perdi:

A Onda

 

ficar atento ao que vier:

A Partida

 

 

 

Brasileiros:

 

1. É Proibido Fumar

Se com “Durval Discos” Anna Muylaert tateava, seu segundo filme chega mais seguro e maduro. Fui rever por causa de alguns comentários aqui. Há quem considere impossível uma pessoa morrer num acidente daqueles. Digo: vocês não viram direito. Aquele impacto dá para matar um cavalo. Isso não tem, aliás, a menor importância. Mas por que ninguém reclamou de um buraco aberto na parede sem que ninguém notasse? Claro que nem tudo funciona. Sergio Alpendre já assinalou. A cena de sexo é horrível. A atriz vacila no início. E daí? O saldo é enormemente positivo em nossa tímida ficção cinematográfica.

 

2. Jean Charles

Eu esperava o pior: aquela exploração nacionalística da morte realmente lamentável, para não dizer criminosa, do brasileiro na Inglaterra. Em vez disso, o filme usa muito bem Selton Melo como agente provocador, digamos assim, para melhor mostrar o meio dos brasileiros da diáspora.

 

3. Cidadão Boilesen

É animador que nem todo mundo se conforme com a anistia à tortura. O realizador fez uma pesquisa de primeira em torno de um personagem estranho. De sua dupla personalidade à percepção do modo de agir dos agentes oficiais da tortura, da cegueira daqueles a quem interessava permanecer cego e da cooptação dos civis para a cumplicidade na tortura, tudo ilustra uma época que, por alguma misteriosa razão, hoje tende a parece bem menos perversa do que foi.

 

4. A Erva do Rato

“As Ervas Daninhas”? Não sei, precisaria rever. Mas é belo.

 

5. Moscou

Eduardo Coutinho não aceita os limites a que chega. Não para e deixa seus filmes se repetirem. Aqui, documenta a ficção. Ou vice-versa?

 

6. Para Aceitá-la Continue na Linha

Um telefilme e um telefone. Poucos recursos. Não era preciso mais. O golpe do seqüestro. Uma mulher levada pelo suposto seqüestro da filha. No fim, terá sido talvez o único dia interessante de sua vida. O responsável por isso ela não conhecerá. Nem o inverso.

 

7. No Meu Lugar

Aqui é Eduardo Valente que ainda tateia, em sua estréia. Desbanaliza a violência, os atos de violência no Rio. Mas permite que a estrutura se imponha à ficção em vários momentos, o que enfraquece um pouco o filme. Mas temos aí um cineasta.

 

8. Apenas o Fim

E aqui, o que temos? De certa forma, um filme completo. Simples: um namoro que termina. Há quem fale em Richard Linklater como influência excessiva. A questão é: foi intuitivo ou voltará a se repetir? Ou será como Domingos de Oliveira, que faz mais ou menos sempre o mesmo filme?

 

9. Loki

Um personagem que se descobre ou redescobre.

 

10. Menino da Porteira

Sincero remake

 

Perdi:

Se Nada Mais Der Certo

 

+ e - (Mais e Menos) :

 

Coleção Resgate do Cinema Brasileiro, da Cinemateca Brasileira

(mas por quais diabos ela não pode ser vendida? Certas leis só servem para atrapalhar)

 

Por Inácio Araujo às 11h04


25/12/2009

Amores loucos e filmes fatais

Não existe história de amor original.

A única coisa capaz de fazê-la original é que seja a nossa história, que estejamos nela.

Mas nunca estamos, nas histórias dos filmes.

Eu me senti tremendamente identificado no filme novo do Resnais, "As Ervas Daninhas", por isso justamente: porque lá ninguém bate muito bem. E amantes nunca batem bem.

Lá está Georges, ou André Dussolier. Quem é ele? O que se passou com ele? Por que não trabalha? Não se sabe direito até o final.

Um momento parece que é um tarado completo. No momento seguinte, um homem de normalidade aborrecida.

Uma hora ele é ameaçador ao ponto de rasgar os pneus do carro da dentista. Pouco depois pinta tranquilamente a casa.

Mas não somos todos assim? Não podemos ser todos assim, pelo menos?

O mesmo com Margô, Marguerite, Sabine Azéma. Uma dentista e uma aviadora. Duas coisas sem nenhuma relação uma com a outra, ou estou enganado?

Ela mesma dispensa o sujeito. Ela mesma vai atrás dele.

Daí Resnais filmar uma história de amor original, coisa que me parecia quase impossível, e ao mesmo tempo trivial, como elas devem ser.

Tudo isso com um ar de quem não quer nada.

(Dia de estréia, sessão das cinco da tarde, esperava o cinema cheio, não estava nada disso, e quase sempre gente mais velha. É de meter medo.)

 

Por Inácio Araujo às 20h07


Ervas nem sempre daninhas

Hoje acordei lembrando de um episódio de alguns anos atrás, véspera de Natal, quando fui à região do Mercado, em São Paulo, fazer umas compras.

Ao voltar para o carro percebi que estava sem a minha bolsa de documentos e, reconstituindo mentalmente os acontecimentos, me dei conta de que, ao sair, ela deve ter caído do meu colo sem que eu tivesse me dado conta e caído na calçada. Mas não estava lá.

Cheguei em casa sem esperança de encontrá-la, e pouco depois recebi o telefonema de uma moça que dizia ter encontrado a bolsa. Ela me deu o nome: Quitéria.

Marcamos encontro num ponto que pareceu acessível a ambos, já que eu não saberia como chegar até sua casa, na Zona Leste. O ponto era o terminal de ônibus Leste, perto do Brás.

Eu a recoheceria porque ela era cenourinha, disse. Não entendi nada, mas ela me deu o celular, e achei que com isso as coisas funcionariam mais do que com a descrição que ela dera.

Pouco depois vi, ainda à distância, uma moça e entendi que "cenourinha" era a designação que se dá às moças que varrem as ruas da cidade, por causa do uniforme.

Ela era uma negra muito forte e bonita. Ela acenava com a minha bolsa na mão. Eu lhe dei um grande beijo quando chegou, não porque fosse bonita, mas porque me senti ligado fortemente a ela, que poderia muito bem não ter se dado ao trabalho de me procurar, depois de ir me encontrar, podia jogar a bolsa fora e pronto (foi o que alguém lhe recomendou, aliás).

Ela se sentiu agradecida pela minha reação, e disse, quase numa entrefrase, que as pessoas nem olham para as cenourinhas. É como se elas não existissem para a população. E isso me pareceu absurdo. Por que não olharíamos para elas?

O fato é que, desde então, percebi que passamos por alguns trabalhadores sem notar que estão lá. As varredoras de rua, por exemplo. Não imaginei que isso pudesse afetá-las. Mas ser reconhecida a deixava sensibilizada.

Conversamos um pouco. Era uma brava mulher, digna desse nome de heroína (também ela ignorada, não sei bem por quê).

Disse a mim mesmo que voltaria a procurá-la. Por algum motivo perdi o número do seu celular.

Por que lembro tão bem desse episódio hoje?

Talvez porque tenha acabado de ver "As Ervas Daninhas", onde tudo ocorre em função do acaso. Alguém rouba uma bolsa e joga uma carteira fora. Outra pessoa encontra a carteira e decide devolvê-la.

Segue-se um filme formidável, encantador cena por cena.

Talvez seja, também, porque ontem revi um pedacinho da história fantástica de Alvin Straight, que atravessa não sei quantos estados para encontrar o irmão. Também é uma história de perdas e encontros, a do filme de David Lynch.

Alguns ficam conosco, outros se perdem. Mas a vida é feita disso, não há dúvida, como dizia o Vinicius de Moraes.

 

Por Inácio Araujo às 10h34


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

Busca

Blogs Relacionados

Links Úteis

Histórico