A estréia de Eduardo Valente está valendo
(Vai em frente, Valente)

Tinha pouca gente no cinema, quando fui ver "No Meu Lugar". Verdade que era a última sessão de quarta-feira, dia de futebol na TV.
Havia cinco pessoas na sala, no início do filme. No final, três.
A impaciência que existe no Brasil com bons filmes é inacreditável. Se alguém fizer uma bobagem tipo Heitor Dhalia, aquela coisa publicitária mal disfarçada, não faltará quem ache muito interessante, "bem feito", progressos, essa conversa mole.
É o preço inviável que pagamos pelas novelas de TV como padrão ficcional.
Quando aparece um filme capaz de observar as pessoas, o mundo, dá-se uma apatia estranha em torno dele. Os defeitos ficam enormes e as virtudes parecem não importar.
Como quase ninguém viu, aqui vai um resumozinho. No início, ocorre um crime. Um tenente de polícia atende a um chamado histérico. Vê que, dentro de uma casa, um assaltante faz um refém. Decide não esperar reforços, mas usar a sua arma. A câmera não mostra a ação dentro da casa, apenas ouvem-se tiros e gritos. Fade out longo. Longo até demais.
A narrativa em três tempos que se segue me pareceu muito forte e bem concebida, justamente porque o sentido não se completa, fica aberto, vivo, flutua. Não é usada como o macete narrativo que vemos habitualmente (e que tanto impressiona). Ela procura oferecer um olhar novo não à "questão da violência no Rio", mas às pessoas que vivem lá, ao menos as que estão no filme.
Temo que o espectador brasileiro (a maior parte deles, claro) não convive muito bem com isso, atualmente. Ele não suporta o enigma. Ele quer tudo ali no fast food, por alguma razão que desconheço (mas temo que sejam as novelas e similares!). Se ele não identifica no ato todos os elementos, todos os sentidos, etc., ele acha que o filme é que está errado. "Mal feito".
Eu não o culpo de todo. Quando tem aquele longo fade out, depois dos tiros, primeiro há um belo trabalho de som, mas depois um longo silêncio no escuro. É inquietante por conta do filme, no começo. Depois eu fiquei pensando: pô, acho que o projetor foi pro beleléu.
Depois do fade out temos três narrativas em três momentos. Os "ricos", digamos, assim, que é a família que vem ocupar a casa onde se deu o tiroteio. Os "ferrados", que são o policial que deu o tiro, e sua filha. E os pobres, representados pela empregada da casa e pelo entregador do mercado.
Eu precisaria rever O Sol Alaranjado, mas me parece que isso já está lá, essa coisa dessas famílias incompletas e tão afetivas porque incompletas. Existem dependências muito grandes. O pai policial e a filha fazem uma relação quase incestuosa, nem se fala de mãe. O pai rico das crianças não é pai, mas padrasto, e lembrar ou não do verdadeiro pai, o que morreu, é um problema para as crianças. Engraçado que o Valente fala de alguns filmes argentinos que o marcaram na época em que concebia o seu, mas aquele a que mais "No Meu Lugar" remete é "Valentin", onde são muito presentes essas afetividades tão mais fortes quanto deslocadas.
Os três núcleos, para falar como nas novelas. O perfeito me parece o do policial: a filha, os amigos, as relações, as tensões, as dores, o ator. Tudo. Acho irretocável.
A família: a mãe-viúva é a personagem mais bem resolvido, mas o pai-padrastro também está ok. Agora, os filhos, não sei, me pareceu um pouco desigual, tem horas que eles se enchem o saco, o que é compreensível, e enchem o nosso também, o que é menos.
O núcleo pobre me parece francamente precário. Aquele rapaz que ri o tempo todo, o entregador, não entendi a ação dele, porque faz as coisas que faz. Me parece que à força de ser sutil, o roteiro acabou se tornando um tanto vago, sem foco, e, portanto, arbitrário. O roteiro é francamente omisso em relação a esse rapaz. Se eu tivesse que palpitar diria que a mãe do rapaz deveria ter o tempo todo um olho nele, vigiá-lo, desconfiar de seus atos. Ela o mima muito. A conversa dele com o tio é inútil.
São primeiras impressões. É uma estréia sólida, vem de alguém que sabe o que faz, porque faz, é cultivado, não caiu de para-quedas, que é coisa muito frequente no cinema brasileiro. Aceita correr riscos. De maneira que o silêncio em torno dele (ah, acho que o filme não foi bem vendido, desde o trailer, que é horrível, sugere que o filme será coisa muito diferente). Como disse, tem coisas que não entendo, como a iluminação. Mas, como no curta-metragem, Valente se mostra uma personalidade a reter. Vai seguir em frente, tem muito para caminhar (quero dizer: tem capacidade intelectual e conhecimento para isso).
* * *
Abaixo, reproduzo a resposta do Valente postada na caixa de comentários:
"inácio, valeu pelo olhar atento. claro que concordo e discordo de várias coisas que vc diz sobre o filme, mas isso além de inerente, é coisa pra um papo depois com calma. só queria dizer sobre a vendagem do filme que
"1) fui eu mesmo quem fez o trailer - ou melhor, eu junto com a assistente de montagem do filme. talvez ele seja ruim mesmo, talvez não (já ouvi o contrário, o que não invalida em nada a sua opinião), mas o principal é que o difícil ali era exatamente "vender" este filme. por tudo que vc diz que o move. ele não quer ser "vendido", só que precisa fazê-lo. ok, faz parte do jogo. mas não sei se havia outra maneira melhor de fazê-lo, pois ele não se adequa muito ao jogo de venda. donde me leva ao ponto que me importa mesmo que é o
"2) eu não acho que aja um silêncio sobre o filme. eu mesmo ouvi (ou li) muita coisa sobre ele. isso porque temos exibido o filme da maneira que podemos, sempre que podemos. ele já esteve (ou ainda estará) em quase 15 festivais internacionais onde foi visto por platéias tão distintas quanto podem ser a polonesa, americana, francesa, coreana, cubana, sueca, etc. já foi exibido com debate posterior em pelo menos 10 lugares no Brasil, indo de Aracaju, Salvador e Recife a Brasília, BH e SP, além de festivais onde a "classe" (leia-se principalmente crítica e jornalistas de cinema) está em peso, como Tiradentes ou Paulínia. ele já foi lançado em 8 capitais e ainda vai a outras 15 (inclusive no Sul só em janeiro com direito a mais debates e até uma mostra curada por mim acompanhando sua exibição em POA e CTBA). ele teve textos aprofundados sobre ele nos principais jornais e revistas impressas, eletrônicas (quase todas), blogs, etc. tem sido bastante discutido por aí. aí vc diria: "tudo isso junto é um subterrâneo perto da superfície do tamanho do Brasil e do que deveria ser o público de cinema". e eu concordarei (antes lembrando, claro, que ele sai depois em DVD, TV a cabo, torrents, etc).
"onde eu quero chegar com isso tudo é: uma coisa é saber por que no Brasil (e aí eu digo, como quem esteve morando um pouco na França recentemente: no Brasil não, no mundo, até na meca do cinema como foco cultural, como é a França) o cinema que arrisca minimamente (nem acho meu filme um prodígio de risco ou novidade, diga-se) tem que ocupar este espaço tão marginal? é uma longa conversa, mas é um fato. e um fato que eu sabia ao fazer o filme, portanto não posso agora fingir choque nem desespero. mas dentro deste panorama ainda há o que fazer, há o que deve ser feito, e isso me sinto orgulhoso que o filme tem feito. ele não está no silêncio, apenas ele está em pauta pra quem ainda se dispõe a ouvi-lo. é por eles que eu trabalho, sempre, porque acho que senão isso sim seria aceitar o silêncio. adoraria que meu filme estivesse em pauta e nos olhos de mais gente, mas pra isso acontecer seria preciso ser um outro filme, quiçá igual a tantos outros. melhor não, então. mas me recuso a achar que este espaço mesmo reduzido seja igual ao silêncio. como realizador, eu já ouvi muito com o filme. e é isso que eu posso querer, sempre. o esforço foi e está sendo feito pra se chegar a cada mínimo espaço onde ainda se pode. só não dá pra se decepcionar com não chegar aonde não mais se pode, porque talvez pra lá chegar tivéssemos que mudar tanto que não faria mais sentido lá estar. resta continuar sussurrando, talvez, mas acreditando que vários sussurros podem ter a força de um grito.
Comentário adicional:
Passei a resposta do Valente para cá para que se possa melhor discutir o filme ou até coisas em torno deste filme que merece bem ser discutido.
Por Inácio Araujo às 16h36






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