UOL Cinema

20/11/2009

A estréia de Eduardo Valente está valendo

(Vai em frente, Valente)

Tinha pouca gente no cinema, quando fui ver "No Meu Lugar". Verdade que era a última sessão de quarta-feira, dia de futebol na TV.

Havia cinco pessoas na sala, no início do filme. No final, três.

A impaciência que existe no Brasil com bons filmes é inacreditável. Se alguém fizer uma bobagem tipo Heitor Dhalia, aquela coisa publicitária mal disfarçada, não faltará quem ache muito interessante, "bem feito", progressos, essa conversa mole.

É o preço inviável que pagamos pelas novelas de TV como padrão ficcional.

Quando aparece um filme capaz de observar as pessoas, o mundo, dá-se uma apatia estranha em torno dele. Os defeitos ficam enormes e as virtudes parecem não importar.

Como quase ninguém viu, aqui vai um resumozinho. No início, ocorre um crime. Um tenente de polícia atende a um chamado histérico. Vê que, dentro de uma casa, um assaltante faz um refém. Decide não esperar reforços, mas usar a sua arma. A câmera não mostra a ação dentro da casa, apenas ouvem-se tiros e gritos. Fade out longo. Longo até demais.

A narrativa em três tempos que se segue me pareceu muito forte e bem concebida, justamente porque o sentido não se completa, fica aberto, vivo, flutua. Não é usada como o macete narrativo que vemos habitualmente (e que tanto impressiona). Ela procura oferecer um olhar novo não à "questão da violência no Rio", mas às pessoas que vivem lá, ao menos as que estão no filme.

Temo que o espectador brasileiro (a maior parte deles, claro) não convive muito bem com isso, atualmente. Ele não suporta o enigma. Ele quer tudo ali no fast food, por alguma razão que desconheço (mas temo que sejam as novelas e similares!). Se ele não identifica no ato todos os elementos, todos os sentidos, etc., ele acha que o filme é que está errado. "Mal feito".

Eu não o culpo de todo. Quando tem aquele longo fade out, depois dos tiros, primeiro há um belo trabalho de som, mas depois um longo silêncio no escuro. É inquietante por conta do filme, no começo. Depois eu fiquei pensando: pô, acho que o projetor foi pro beleléu.

Depois do fade out temos três narrativas em três momentos. Os "ricos", digamos, assim, que é a família que vem ocupar a casa onde se deu o tiroteio. Os "ferrados", que são o policial que deu o tiro, e sua filha. E os pobres, representados pela empregada da casa e pelo entregador do mercado.

Eu precisaria rever O Sol Alaranjado, mas me parece que isso já está lá, essa coisa dessas famílias incompletas e tão afetivas porque incompletas. Existem dependências muito grandes. O pai policial e a filha fazem uma relação quase incestuosa, nem se fala de mãe. O pai rico das crianças não é pai, mas padrasto, e lembrar ou não do verdadeiro pai, o que morreu, é um problema para as crianças. Engraçado que o Valente fala de alguns filmes argentinos que o marcaram na época em que concebia o seu, mas aquele a que mais "No Meu Lugar" remete é "Valentin", onde são muito presentes essas afetividades tão mais fortes quanto deslocadas.

Os três núcleos, para falar como nas novelas. O perfeito me parece o do policial: a filha, os amigos, as relações, as tensões, as dores, o ator. Tudo. Acho irretocável.

A família: a mãe-viúva é a personagem mais bem resolvido, mas o pai-padrastro também está ok. Agora, os filhos, não sei, me pareceu um pouco desigual, tem horas que eles se enchem o saco, o que é compreensível, e enchem o nosso também, o que é menos.

O núcleo pobre me parece francamente precário. Aquele rapaz que ri o tempo todo, o entregador, não entendi a ação dele, porque faz as coisas que faz. Me parece que à força de ser sutil, o roteiro acabou se tornando um tanto vago, sem foco, e, portanto, arbitrário. O roteiro é francamente omisso em relação a esse rapaz. Se eu tivesse que palpitar diria que a mãe do rapaz deveria ter o tempo todo um olho nele, vigiá-lo, desconfiar de seus atos. Ela o mima muito. A conversa dele com o tio é inútil.

São primeiras impressões. É uma estréia sólida, vem de alguém que sabe o que faz, porque faz, é cultivado, não caiu de para-quedas, que é coisa muito frequente no cinema brasileiro. Aceita correr riscos. De maneira que o silêncio em torno dele (ah, acho que o filme não foi bem vendido, desde o trailer, que é horrível, sugere que o filme será coisa muito diferente). Como disse, tem coisas que não entendo, como a iluminação. Mas, como no curta-metragem, Valente se mostra uma personalidade a reter. Vai seguir em frente, tem muito para caminhar (quero dizer: tem capacidade intelectual e conhecimento para isso).

* * *

Abaixo, reproduzo a  resposta do Valente postada na caixa de comentários:

"inácio, valeu pelo olhar atento. claro que concordo e discordo de várias coisas que vc diz sobre o filme, mas isso além de inerente, é coisa pra um papo depois com calma. só queria dizer sobre a vendagem do filme que

"1) fui eu mesmo quem fez o trailer - ou melhor, eu junto com a assistente de montagem do filme. talvez ele seja ruim mesmo, talvez não (já ouvi o contrário, o que não invalida em nada a sua opinião), mas o principal é que o difícil ali era exatamente "vender" este filme. por tudo que vc diz que o move. ele não quer ser "vendido", só que precisa fazê-lo. ok, faz parte do jogo. mas não sei se havia outra maneira melhor de fazê-lo, pois ele não se adequa muito ao jogo de venda. donde me leva ao ponto que me importa mesmo que é o

"2) eu não acho que aja um silêncio sobre o filme. eu mesmo ouvi (ou li) muita coisa sobre ele. isso porque temos exibido o filme da maneira que podemos, sempre que podemos. ele já esteve (ou ainda estará) em quase 15 festivais internacionais onde foi visto por platéias tão distintas quanto podem ser a polonesa, americana, francesa, coreana, cubana, sueca, etc. já foi exibido com debate posterior em pelo menos 10 lugares no Brasil, indo de Aracaju, Salvador e Recife a Brasília, BH e SP, além de festivais onde a "classe" (leia-se principalmente crítica e jornalistas de cinema) está em peso, como Tiradentes ou Paulínia. ele já foi lançado em 8 capitais e ainda vai a outras 15 (inclusive no Sul só em janeiro com direito a mais debates e até uma mostra curada por mim acompanhando sua exibição em POA e CTBA). ele teve textos aprofundados sobre ele nos principais jornais e revistas impressas, eletrônicas (quase todas), blogs, etc. tem sido bastante discutido por aí. aí vc diria: "tudo isso junto é um subterrâneo perto da superfície do tamanho do Brasil e do que deveria ser o público de cinema". e eu concordarei (antes lembrando, claro, que ele sai depois em DVD, TV a cabo, torrents, etc).

"onde eu quero chegar com isso tudo é: uma coisa é saber por que no Brasil (e aí eu digo, como quem esteve morando um pouco na França recentemente: no Brasil não, no mundo, até na meca do cinema como foco cultural, como é a França) o cinema que arrisca minimamente (nem acho meu filme um prodígio de risco ou novidade, diga-se) tem que ocupar este espaço tão marginal? é uma longa conversa, mas é um fato. e um fato que eu sabia ao fazer o filme, portanto não posso agora fingir choque nem desespero. mas dentro deste panorama ainda há o que fazer, há o que deve ser feito, e isso me sinto orgulhoso que o filme tem feito. ele não está no silêncio, apenas ele está em pauta pra quem ainda se dispõe a ouvi-lo. é por eles que eu trabalho, sempre, porque acho que senão isso sim seria aceitar o silêncio. adoraria que meu filme estivesse em pauta e nos olhos de mais gente, mas pra isso acontecer seria preciso ser um outro filme, quiçá igual a tantos outros. melhor não, então. mas me recuso a achar que este espaço mesmo reduzido seja igual ao silêncio. como realizador, eu já ouvi muito com o filme. e é isso que eu posso querer, sempre. o esforço foi e está sendo feito pra se chegar a cada mínimo espaço onde ainda se pode. só não dá pra se decepcionar com não chegar aonde não mais se pode, porque talvez pra lá chegar tivéssemos que mudar tanto que não faria mais sentido lá estar. resta continuar sussurrando, talvez, mas acreditando que vários sussurros podem ter a força de um grito.

Comentário adicional:

Passei a resposta do Valente para cá para que se possa melhor discutir o filme ou até coisas em torno deste filme que merece bem ser discutido.

Por Inácio Araujo às 16h36


19/11/2009

Os novos "Cahiers": primeira impressão

 

Primeiras impressões sobre os Cahiers du Cinéma sob nova direção.

Provisórias, claro, já que são só dois números dirigidos por Stephane Delorme.

O primeiro dedica a capa a Judd Apatow e à redescoberta de Fellini.

Apatow me deixou sinceramente espantado. Até hoje não vi nada de mais. Será que vi de menos? Vou dar uma atenção ao próximo filme.

Mas o importante, aqui, é a disposição da revista de se abrir a um outro cinema, mais ao gosto do grande público. Ela há muito tempo é extremamente seletiva (ou seletiva demais) em relação ao cinema americano. Para ser franco, desde os anos 60.

Quanto ao destaque a Fellini vejo uma disposição a fincar pé na atualidade. Fellini está sendo objeto de uma grande exposição em Paris. A revista está, portanto, se pondo em sintonia com uma platéia prioritária para ela. De passagem, parece (digo isso porque não li) dispõe-se a uma revisão do diretor italiano, que, sabe-se, nunca foi muito ao gosto da revista.

No segundo número, capa para Alain Resnais ("Les Herbes Folles", sempre) com vasta entrevista.

Entrevistas também com Marco Bellocchio e Bruno Dumont. Pô, Bellocchio deveria estar na capa.

O importante nesse ciclo de entrevistas (que parece refletir mais o que será a nova gestão do que o anterior) é a disposição da revista de perguntar e de ir atrás de respostas.

Na gestão anterior, J.M. Frodon já parecia ter todas as respostas a todas as questões do cinema e da arte. No mais, ele escrevia a revista quase inteira. Além de ter criado um projeto gráfico deprimente, meio que imitação da Première.

A impressão é de que agora os caminhos do cinema estão incertos e abertos para os Cahiers. Bom sinal. Nesse sentido, lembra um pouco os amarelos. Espero que lembre em muitas outras coisas também.

Por Inácio Araujo às 16h39


17/11/2009

Quando o erotismo batia à nossa porta

 

Estava vendo na TV "O Destino Bate à sua Porta", a versão de Bob Rafelson, com Jessica Lange e Jack Nicholson. Lá tem a transa mais sensual de todos os tempos. Será? Ao menos que eu me lembre: uma cena que é de puro desejo, alucinante. Não é está que está aí acima, é outra. Mas esta tem quase a mesma intensidade.

Existe a outra versão, a de Tay Garnett, com John Garfield e Lana Turner. Não vejo há algum tempo. No You Tube encontrei a cena aí de baixo. É de 1946, tudo é mais contido e mais climático, mas não menos intenso. As sugestões são muito fortes. Diferente do filme de Rafelson, mais direto. São ambos filmes de tesão, porém.

Hoje quase não há cenas de sexo no cinema, ninguém mais filma.

Quando filma, em geral melhor seria que não tivesse filmado.

Há algumas, como em "A Enguia", do Shohei Imamura, soberbas. Há algumas sem-vergonhices fantásticas, como a cruzada de pernas da Sharon Stone em "Instinto Selvagem", ou Norma Bengell na praia, em "Os Cafajestes", ou ainda coisas tão mais inesquecíveis quanto inexplicáveis, como aquela luva que Rita Haywrth tira em "Gilda".

É uma pena que o bom-tom tenha virado regra. Quem lembrar de outros filmes ou outras cenas eróticas notáveis (elas existem) pode dar um alô.

 

Por Inácio Araujo às 23h07


13/11/2009

Imagens produzem sombras

 

Lá vou eu me meter onde não devo, já que os mais respeitáveis, os mais lúcidos dos analistas do esporte acreditam que o olho eletrônico vai resolver o problema das arbitragens no futebol.

Não é sem motivos. O Juca Kfouri, por exemplo, diz que existe um massacre semanal dos juízes, por conta da repetição pela TV. Faz sentido.

Se eu entendi corretamente, só esta semana dois juízes foram suspensos por causa de erros (supostos ou verdadeiros) de arbitragem.

A idéia ganhou força, primeiro, com o gol do Palmeiras anulado pelo juiz Simon no último domingo.

Se não estou enganado, esse mesmo juiz (se não foi ele, não altera a questão) foi motivo de chacotas, ofensas, tudo o que se quiser, por não ter dado o chamado "pênalti claro" para o Flamengo contra já não me lembro quem (ou era contra o Flamengo? Enfim...) há alguns meses.

Isso até que aparecesse uma imagem de outro ângulo, insuspeito, a provar que, no lance do "pênalti claro" o suposto agressor não havia nem mesmo tocado na suposta vítima.

E aí, evidente, o que era claro se tornou obscuro e todo mundo enfiou a viola no saco.

Na minha amadorística opinião, o lance com o Palmeiras, no domingo, foi mero perigo de gol. Mas já ouvi falar de um outro e inédito ângulo a demonstrar que o atacante fez falta sim e etc. e tal.

Ou seja, voltamos à obscuridade.

No primeiro lance, o do Flamengo, se o cara fosse consultar o video teria dado um pênalti absurdo.

No segundo, o do Palmeiras, em nenhum momento o juiz disse que gostaria de ver o lance melhor, que talvez tenha visto coisa demais ou de menos. Nada disso. Disse que o atacante segurou o beque. Portanto, não recorreria a videoteipe algum.

No mais recente, no meio da semana, outro jogo do Palmeiras, a questão agora é o som: um apito soa e paralisa os jogadores do Sport, enquanto o palmeirense faz o gol.

A partir daí, cada um puxa a brasa para a sua sardinha, pois não se sabe nem mesmo se o apito veio do juiz ou de alguém na arquibancada.

O meu ponto é: a imagem é uma ilusão. Não é coisa em que se deva acreditar. É isso que nos ensinaram mais ou menos todos os grandes diretores de cinema, sem contar os filmes (e livros) de vampiros. Certas coisas são pura imagem.

Talvez, no dia em que a TV seja em 3D a imagem possa ser mais confiável. Por enquanto, está visto que seu uso produzirá mais equívoco e ambiguidade do que outra coisa.

(Não falo nem do melê que vai ser quando uma grande torcida pedir pênalti, por exemplo, e o juiz mandar o jogo em frente sem olhar no VT).

Como efeito suplementar, e já fora do âmbito do juiz ladrão, me parece que o uso imoderado da câmera lenta provoca juízos igualmente equívocos.

Às vezes me pilho pensando em como tal goleiro não pegou aquela bola que passou ao seu lado. Ora, percebo depois, foi chutada com força enorme e a pequena distância. O efeito analítico da câmera lenta se torna, na maior parte dos casos, perverso. Do mesmo modo, quando uma falta passa em câmera lenta, com muita frequência parece uma agressão violentíssima. Não me digam que isso só afeta a minha percepção.

É claro que em certos casos, a eletrônica pode ajudar. Algo semelhante à arbitragem de tênis, onde se vê direitinho onde foi a bola, é concebível. Dizem que no futebol americano os juízes também costumam consultar as câmeras, mas não entendo nada desse (e, atenção, trata-se de um jogo truncado por natureza).

O uso no basquete é raro. No basquete americano, até onde sei, só se pode usar a imagem para conferir tempo (se uma jogada aconteceu dentro do tempo regulamentar e tal). Faz sentido, porque aí o olhar se engana com mais facilidade, neste caso.

Há uma coisa boa no regulamento da NBA: quem, jogador, técnico, cartola que reclamar dos juízes leva multa e/ou suspensão.

Se querem realmente acabar com essas discussões histéricas, me parece muito mais útil proibir as pessoas que mais as incitam (cartolas, técnicos e jogadores) de comentar os juízes.

Bem, isso parece que não tem nada a ver com cinema, mas tem tudo. O fundo da imagem é escuro como esse blecaute de outro dia. Ela só consegue mostrar que não existe imagem verdadeira, final, única.

A imagem só mostra o que ela quer tornar visível.

Não é questão de má-fé, é da sua natureza.

Como uma falsa amiga, seu uso só criará casos de injustiça flagrante, quando, por exemplo, mostrar um jogador agredindo um outro. E nos milhares de casos sem câmera, azar.

Bem, devo dizer o seguinte. Pensei nessas coisas quando via "A Imperatriz Yang Kwei Fei", do Mizoguchi, e veio o blecaute.

A primeira sensação é de cegueira. Pouco depois, é de inconformidade: como posso ter a vida interrompida desse jeito? Uma sensação de desamparo. Em seguida, porém, me senti numa pausa: nós vivemos abarrotados de imagens de toda natureza, o tempo todo. Acho que até quando dormimos, há as imagens do sono. Elas não param. Então, essa interrupção me privou de um belo filme, mas me deu o silêncio, um instante de obscuridade, de não imagem: um pouco como Kiarostami em "Shirin". Um pouco como Ozu, em que o personagem faz o gesto de nos mostrar um bairro inteiro, mas a câmera não mostra nada. Quanto mais imagens, mais sombras, maior a ilusão de ver.

Nos comentários que fazem os leitores nos blogs esportivos, parece que já não existe mais o jogo, só o juiz. Eles só acreditam na má-fé. O juiz só apita assim para roubar alguém. O cronista só diz tal coisa porque é corinthiano ou palmeirense, ou bairrista, ou interessado. A arbitragem com imagem não vai mudar esse tipo de coisa. Só vai acentuar.

Tudo continua a ser uma questão de crença. A imagem só torna as pessoas mais crispadas.

Por Inácio Araujo às 18h12


09/11/2009

Rossellini e a televisão (enfim acessíveis)

por Juliano Tosi 

“Há uma crise hoje que é não apenas do cinema, mas de toda a cultura. O cinema, que é o instrumento por excelência para difundir ideias, teve o mérito de deixar esta crise evidente, diria quase palpável. Por este motivo eu pretendo me aposentar do cinema e me dedicar à televisão, e assim reexaminar tudo desde o início, em plena liberdade, para poder refazer a trajetória do homem em busca da verdade”.

 

As palavras são de 1963, ditas por Roberto Rossellini numa famosa e polêmica entrevista.

 

Pouco mais de dez ou quinze anos haviam se passado desde Roma, Cidade Aberta e Paisà e o sucesso de seus filmes ditos neo-realistas parecia, cada vez mais, um grande mal-entendido.

 

Rossellini vivia, de fato, num beco-sem-saída: largamente ignorado pelos espectadores, negligenciado por boa parte da crítica, sobretudo a de esquerda italiana, quando não sabotado pelos produtores.

 

Era a cada ano mais penoso levantar financiamento para novos filmes. Os projetos abortados (como uma biografia de Sócrates, que filmaria nos anos 1970) eram tão fascinantes quanto, naquele momento, impossíveis de realizar.

 

*

 

Como diz Tag Gallagher, em sua biografia de Rossellini: “O mundo acreditava que Roberto estava acabado. Roberto acreditava que o mundo precisava ser consertado”.

 

Rossellini tinha um pensamento tipicamente iluminista: dissipar as trevas através do conhecimento. Não por acaso ele denominou seu projeto como uma enciclopédia visual: documentar a atividade humana, em suas mais variadas formas, através de “uma nova pedagogia através das imagens”.

 

Neste sentido, mais do que uma ruptura, o que ele propunha era de uma continuidade total com seus filmes neo-realistas: a crença na imagem (como um dado salvador do homem, inclusive) e o registro histórico sobre o mundo.

 

Aliás, não seriam os filmes mais consagrados de Rossellini um documentário, a quente, sobre os males no mundo àquela época? Às desgraças da Segunda Guerra (sua trilogia iniciada com Roma, Cidade Aberta), seguiu-se o mal-estar do renascimento e da prosperidade (Europa 51 e Viagem à Itália), e por aí segue.

 

Da mesma forma, desde sempre sua ideia para “curar o mundo” passava, sobretudo, por uma mudança cultural: antes, pela economia de meios, pela fuga dos estúdios e pela liberdade no filmar; agora, pelo que chamava de denúncia da sociedade do espetáculo.

 

“Pela primeira vez, desde que o homem existe, possuímos um meio de comunicação universal imediato, ao contrário da escrita, que supõe toda uma bagagem cultural. E em que o transformamos? Em uma espécie de jogo circense que corrompe todo o mundo e todos os seres”, escreveria ele em seu livro de memórias.

 

*

 

Restava, porém, um terreno livre para a experimentação, um meio novo ainda aberto a ideias novas: a televisão (por incrível que possa parecer hoje afirmar isto).

 

Eram, obviamente, outros tempos, pré-Berlusconi, quando a Itália parecia (a se fiar no que se assiste hoje na RAI) algo mais do que um programa de auditório brega. Quando a TV italiana produzia e exibia, por exemplo, esta incrível série de filmes (eram rodados em película) de Rossellini que, finalmente, estão acessíveis, graças, sobretudo, a um trabalho notável da Versátil.

 

Nem sempre são filmes exatamente fáceis de digerir e apreciar. Mas uma vez que entramos neles, a recompensa é certa.

 

*

 

Já foram editados em DVD pela Versátil Sócrates, Descartes, Santo Agostinho e Pascal (O Messias também foi lançado por uma distribuidora católica cujo nome me escapa). Para o próximo mês, está prometido o raríssimo A Tomada de Poder por Luís XIV, tido como a jóia de seus telefilmes.

 

E há algumas semanas chegou às locadoras Anno Uno - O Nascimento da Democracia Italiana, biografia de Alcide de Gasperi, nome chave da Democracia Cristã.

 

Não são poucos os motivos para alugar/comprar o disco. Fiquemos com um que poderia passar em branco: os depoimentos compilados no documentário Rossellini por Rossellini, dirigido pelo crítico italiano Adriano Aprà (e do qual segue um trecho abaixo).

 

Os momentos mais notáveis são, justamente, quando Rossellini fala de sua aversão aos rumos do cinema à época (o que diria do cinema de hoje?) e de sua conversão à televisão.

 

Pode-se discordar de seus argumentos. Pode-se, por vezes, até ver neles algo conservador. É difícil, porém, deixar de reconhecer que são fascinantes. Rosselini me parece, a cada dia mais, um cineasta essencial.

 

Por Inácio Araujo às 19h41


08/11/2009

A barbárie de cada dia

 

A imagem chocante é da estudante saindo da faculdade escoltada pela PM, dias atrás.

Não menos chocante é saber que a Uniban houve por bem expulsar a garota.

As justificativas são, para dizer o mínimo, um acinte. Em linhas gerais é como dizer que se a mulher foi estuprada é porque provocou!

Um procedimento que nem delegados de polícia usam mais.

Acusá-la de usar trajes "inadequados" de maneira regular é simplesmente ridículo. Primeiro, porque é. Trata-se de uma maneira rudimentar de inocentar a turba (ou seja, a sua freguesia).

Segundo porque se a direção julga certos trajes inadequados tem a obrigação de definir o que se pode ou não usar numa faculdade e chamar a atenção de seus alunos para o respeito ao que foi determinado. Ou seja: se havia motivo, a advetência já devia ter sido feita.

Por fim: chamar tentativa de linchamento de "reação coletiva de defesa do ambiente escolar" beira a insânia, por mais vagabunda que seja essa faculdade.

No mais, à luz da gritaria no filmete acima, pode-se perguntar que educação recebem os alunos desse tipo de estabelecimento comercial.

A finesse de Caetano

Não era sobre esse caso que eu pretendia escrever, mas ele é sórdido demais para passar em branco.

Estava chocado, antes disso, com uma sequência de Caetano Veloso. A ordem em que soube das coisas foi essa:

1) Ele disse que o presidente da República é analfabeto e grosseiro.

2) Ele disse que lê as críticas que recebe no banheiro.

Boto todas as reservas do mundo, e gostaria que alguém me dissesse que essas versões são falsas, porque não condizem com Caetano Veloso.

A ser verdade que ele disse essas coisas, porém...

Bem, todo mundo pode pensar o que bem quiser do presidente. Mas a segunda frase merecia muito bem o Pulitzer da grosseria. Não me lembro de nenhum momento em que Lula tenha feito um tipo de comentário nem de longe grosseiro (e baixo) como esse.

Por Inácio Araujo às 09h53


07/11/2009

Anselmo Duarte (1920 - 2009)

 

Procurei uma imagem que sintetizasse o que foi Anselmo Duarte para o cinema brasileiro e para quem o conheceu.

Foi ator, galã, conversador, contador de histórias fantástico (histórias não raro inacreditáveis), diretor premiado, diretor atrabiliário.

Enfim, alguém cuja obra ocupa uns 40 anos de história do cinema, de que fazem parte Atlântida, Vera Cruz, Oswaldo Massaini, Cannes, Palma de Ouro, sucessos, fracassos, que concentra muitas coisas e se irradia para muitas partes.

Enfim, não encontrei um clip, uma foto que dessem conta desses aspectos todos da vida de Anselmo.

Sua obra é a rever.

Por Inácio Araujo às 11h54


04/11/2009

Cacá Diegues enfrenta a crítica francesa


Mesmo quando é para discordar, todas as vezes que Cacá Diegues pega da pena algo interessante acontece.

Hoje (4/11) ele publica na Ilustrada o artigo "Frodon mostra ter visão colonialista".

Ou seja, a Ilustrada está pulsando. Com cheiro de boas polêmicas (ou seja, troca de idéias), pois sem isso nada anda.

Vou retomar uma frase dele apenas, referindo-se aos críticos franceses: "Não lhes ocorre tentar entender o país através dos filmes realizados, em vez de construir um país teórico através de filmes que não foram feitos".

Antes mesmo de refletir sobre se isso é de todo verdadeiro, mas a elegância e a precisão da escrita já são arrebatadoras.

Bem, o melhor dessas coisas é que não existe verdade final, porque nenhuma visão é completa. O dia em que isso existir, o cara é Deus.

Cacá tem razão e é verdadeiro, me parece, quando observa que a intelectualidade francesa não raro divide o mundo em diferentes humanidades, "cujos papéis estão sempre pré-determinados pela força mesma das coisas". É uma tendência, talvez não uma regra (se falarmos de regra vamos incorrer no mesmo procedimento com direção oposta).

Me parece ter menos razão quando defende nossa produção (ou supõe defender) da afirmação segundo a qual sofre "de uma dependência cultural de Hollywood". Nesse ponto, Cacá sugere a existência de "um outro colonialismo cultural, mais sofisticado, [que] nos sufoca".

Bom, embora entenda a referência à sufocação, tenho a impressão de que nesse particular ele dá uma boa viajada. A dependência cultural de Hollywood, de certa forma, é mundial. No Brasil ela se manifesta fortemente, desde sempre, pela ocupação agressiva do mercado. Aqui, quem entrar numa locadora verá que filme "nacional" é um gênero, "europeu" é outro. Somos uma particularidade em nosso próprio país. A exceção a isso hoje é a produção Globo. Não sei se há grande vantagem.

Ora, a sugestão de um modelo de indústria onde o principal é a modéstia e o caráter cooperativo, me parece não uma sugestão colonialista, mas a constatação de que a independência da produção se dá mais facilmente quando o aspecto econômico é ajustado ao mercado de que se dispõe. Quando se trabalha entre amigos, e não apenas entre profissionais, melhor ainda. Não me parece nada tão diferente do que fez entre nós, por exemplo, o cinema novo.

Também não entendo muito bem Cacá quando diz que aos críticos franceses não "ocorre tentar entender o país através dos filmes realizados, em vez de construir umn país teórico através de filmes que não foram feitos".

Como assim? Que filmes foram feitos e quais não foram feitos? Há os de Fernando Meirelles e os de Andrea Tonacci, há "Viajo porque preciso ..." e há "À Deriva". Há Paulo Saraceni e as comédias do Alvarenga. Nossa produção, Cacá sabe bem disso, é diversificada. Todos os filmes fazem, de algum modo, sentido.

A questão é: qual representa melhor o país diante dessa entidade chamada "cinema"?

Quem representa a Argentina? Lucrécia Martel ou aqueles melôs chorosos que chegam aqui de vez em quando?

Quem representa Israel, a Palestina, o Irã, a China, a França?

O que retemos de um cinema francês recente: Olivier Assayas ou Luc Besson?

O que nos interessa da India? Bollywood ou S. Ray? Etc.

Então, estou de acordo com Cacá, quando diz que "estamos fazendo nossos filmes com diversidade, sem dogmas ou fronteiras intransponíveis, sem modelo único". Nem me parece que J-M Frodon esteja propondo algo desse estilo, francamente. Isso leva,noentanto, à conclusão do artigo, que, até onde eu entendo, não chega a fazer sentido: "Temos que ouvir atentamente um pensador do cinema da qualidade de Frodon e todo mundo tem o direito de gostar ou não dos filmes que vê. Mas cada macaco no seu galho - quem diz como esses filmes devem ser é quem os faz".

Afinal, existe o direito de opinar ou cada macaco deve ficar em seu galho? Ouvimos atentamente o que diz um pensador ou o cineasta, esse autista, determina o que faz e dá uma banana pra todo mundo?

Me parece que nesse ponto Cacá não tem ainda uma idéia clara.

P.S. - Quanto à nossa produção, o dado que me aterrou há pouco tempo não tem nada, ou quase, a ver com isso.  É o seguinte. Na Argentina, há pouco tempo, a proporção de público entre o filme "comercial" e o do filme "independente" era de 5 ou 6 para 1. Cada 1,2 milhão de espectadores do filme comercial significaria 200 mil para os Trapero, Burman, Martel. A relação me pareceu mais que saudável. Como anda a nossa por aqui? Alguém sabe disso? Minha sensação é de um esmagamento contínuo e sistemático (isto é, diz respeito a sistema) da produção, digamos, independente).

Por Inácio Araujo às 12h30


02/11/2009

Para que serve a crítica?

  

Essa é a pergunta que todo mundo faz aos críticos e que eles mesmos, no mais, vivem se fazendo.

Ela é muito atual neste momento, em que o marketing das grandes companhias procura, justamente, acabar com a crítica e com a troca de idéias sobre os filmes. Funciona como se todo mundo devesse ver a mesma coisa, ainda que suas experiências pessoais possam ser muito diferentes.

Jean-Michel Frodon, que foi diretor-geral dos "Cahiers du Cinéma", diz a Ana Paula Sousa, na Ilustrada, que a crítica não tem a menor influência na frequência aos cinemas (nem deve ter, acrescento eu) e que uma função da crítica é chamar a atenção para o cinema que é feito, 95% do cinema, segundo ele, que tem muita dificuldade para ser visto pelo público em geral.

Antes, ao comentar o cinema brasileiro, ele enfatiza que, na sua opinião, nosso problema não é econômico, mas de dependência cultural a Hollywood. E que o cinema brasileiro hoje lhe parece, de modo geral, decepcionante.

Aqui, há pontos a conversar. A crítica francesa sempre teve muita dificuldade para ver o que fazemos de melhor, e passou a vida ignorando, digamos, Rogério Sganzerla.

Temos hoje bons filmes, e certamente "Mutum" não é o último deles. Temos maus filmes, também, às pencas. Mas a produção de 2008, por exemplo, me espantou. Havia "Serras da Desordem", "Falsa Loura", "Cleópatra", "Deserto Feliz", todos filmes muito fortes, sem contar "Corpo", que é uma estréia cheia de irregularidades, mas muito interessante. Enfim, existe uma produção que não chega ao público e, muito menos, ao exterior.

Por que isso acontece? É complicado, envolve desde a política local até uma certa falta de curiosidade dos europeus. Vamos ser francos: o Cahiers mesmo comprou por anos a fio o que Sylvie Pierre vendia sobre o cinema do Brasil. E que era, para dizer o mínimo, extremamente parcial.

Digo isso porque acho que houve uma abertura considerável, do lado do "Libération", quando Serge Daney estava lá com Louis Skorecki e Edouard Weintrop, e ele mesmo Daney vinha aqui ver as coisas e, mesmo comigo, lembro de ter ficado horas conversando com ele num boteco perto da Folha, sem compromisso, só falando.

E estávamos diante de uma crise dos diabos, que não acontece hoje.

Voltando aos fatos. Tenho lá minhas reservas em relação a algumas afirmações dele, e sobretudo ao não reconhecimento ao jovem cinema de Pernambuco (e arredores).

Porque não é um cinema empírico, é algo que vem de uma cultura não só cinematográfica muito forte. Isso é muito diferente da maior parte do cinema recente de Rio/SP, que só pensa em fazer sucesso e aparecer na coluna social, mas parece que não leu um livro, que não viu um filme, nada.

Me parece interessante, ainda, a observação sobre o cinema asiático recente, que conheço bem mal, segundo a qual os diretores colaboram uns com os outros e com isso conseguem fazer filmes baratos. Aqui, parece, às vezes, que o objetivo não é fazer bons filmes, mas ver quem faz o filme com a maior equipe. Isso é um equívoco, uma bobagem.

Para terminar, e voltando ao papel da crítica. Me parece que é importante, não na França, onde a relação com o cinema é privilegiada (se vai ao cinema como se vai ao museu, etc.), mas aqui, sim: o crítico precisa, na medida do possível, relacionar coisas: escolas, épocas, tradições. Senão fica parecendo que o cinema vive num presente eterno, que os filmes surgem do nada. E não é bem assim.

De volta à Mostra. Alguns filmes grandes que vi nos últimos dias: "Mother", coreano, e "Vencer", do Marco Belocchio. Já vi que "Mother" está comprado pela Paris. O Belocchio, isso assusta, não. Mas é filme de mestre.

Enfim, para que serve a crítica?

Dizia o Roland Barthes que criticar quer dizer "pôr em crise". É uma boa definição. É o que desarruma o muito arrumadinho.

O Jean Douchet tem outra, de que gosto muito: é a arte de amar.

Acho que são complementares.

Por Inácio Araujo às 08h47


31/10/2009

"Chanel", uma biografia decente

 

Fui ver "Coco antes de Chanel" para descansar dos filmes da Mostra e depois de ver o espetacular "Mother", coreano.

Esperava pelo padrão habitual das cinebiografias francesas tipo "Piaf", ou seja, algo insuportável salvo por uma atriz, ou pela música, essas coisas.

Mas me surpreendi. Na primeira sequência, ela e a irmã chegando a um orfanato, temi pelo pior. Mas desde ali, o filme chama a atenção para o olhar da menina, um olhar muito perspicaz.

Mais tarde, ela já cortesã, é interessante como o filme enfatiza o tipo de moda pré-Chanel, que vai do espartilho à sobrecarga de tecidos, cores, adornos, passando pelos chapéus que ela chamava de merengues.

Existe então essa sensibilidade que adivinha um mundo que está acabando (a belle époque, o pré-Primeira Guerra), e ela vai encarnar em grande medida isso, vai encarnar para o lado da moda, que hoje é indústria de ponta, "limpando" a mulher de toda aquela traquitana.

É claro, não é filme que muda o mundo, mas os atores estão muito bem dirigidos, a direção de arte é correta e a mise en scène tem fundamento, por isso o filme não é um mero acumular de fatos, como se vê com frequência no gênero. E, coisa importante, sabe quase sempre evitar o sentimentalismo e a grandiloquência.

Alcino Leite, que além de ótimo crítico de cinema também trata de moda, diz que o filme dá umas edulcoradas na figura de Chanel, o que deve ser verdade, e que às vezes puxa a sardinha para a brasa dela, mas essas coisas são esperáveis nesse gênero de filme.

Ele também chama a atenção para o academismo da imagem. Acho que nisso há certo exagero. Eu diria que a imagem é tradicional, própria de um filme comercial. O que "Chanel" é. Mas tem essa vivacidade bem acima da média do cinema comercial francês, que, como se sabe, tende ao horripilante.

Por Inácio Araujo às 08h51


29/10/2009

"O Bandido", agora em livro


Uma festona na Mostra: o lançamento dos 38 novos livros da coleção Aplauso. Estava intransítável. Ou, para falar bem francamente, insuportável.

Sem demérito para os outros livros, o destaque para mim é, de longe, o roteiro do "Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla.

Essencial para quem queira se deter sobre a relação texto/filme, palavra/imagem. Para saber o que é um filme, afinal.

Helena Ignez deu a honra de me convidar para escrever o prefácio. Fui conferir. Antes de chegar no prefácio tem uma montanha de introduções de políticos etc. É quase metade do livro.

Ou seja: a coleção é uma bola dentro. Tenho aqui uns volumes antigos. Só têm uma introdução do Hubert Alquéres, diretor da Imprensa Oficial e olhe lá.

Agora todo mundo quer tirar uma lasquinha, entre eles os inúmeros políticos presentes à festa. (Mas se alguém tem mérito nessa história é o Rubens Ewald, que bolou e dirige a coisa).

Bem, depois que se vence as introduções todas e o meu prefácio, vem o manifesto escrito por Rogério quando fazia o filme: precioso.

Um dos itens diz mais ou menos o seguinte: "Com Orson Welles aprendi a não distinguir crime e política".

Hora de sair do Shopping: impossível pegar o elevador.

Desço até o térreo de escada, com o Cakoff, que ia apresentar o Angelopoulos sei lá aonde.

O Leon está entusiasmado com o volume "Os Filmes da Minha Vida". O lançamento vai ser dia 3, lá no Conjunto Nacional. O Leon garante que eu colaborei com o livro. Não lembro de nada, mas ele não deve estar mentindo.

Por Inácio Araujo às 13h32


27/10/2009

Desastre na Osesp

 

Aqui, um trechinho da música que Almeida Prado compôs para filme mudo de André Savage. A estréia da música foi com a Osesp, no quadro da 3ª Jornada do Cinema Silencioso, promovida pela Cinemateca Brasileira.

Desde que foi reestruturada, a grande vantagem da Osesp era ser uma orquestra pública de qualidade. Ênfase em pública.

Isso significa que permitia o acesso a espetáculos normalmente frequentados apenas por pessoas muito ricas a um outro público que não o habitual círculo de milionários das sociedades privadas de espetáculos musicais.

Pelo que escreve Marcus Preto na Folha de hoje, 27 de outubro, certas assinaturas, justamente as destinadas a estudantes e aposentados, sobem qualquer coisa como 70%.

Os ingressos avulsos são os que menos sobem: 17%, ou seja, mais ou menos 12,5% acima da inflação prevista para este ano.

As explicações da organização da Osesp (que significa Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) são, para dizer o minimo, patéticas. O aumento, diz o site da orquestra citado na matéria, refere-se uma nova taxa "para manuseio e envio do ingresso e gerenciamento do Sistema de Assinaturas e do Banco de Ingressos".

Caramba! Até onde isso pode ser compreensível, o envio de ingressos sempre ocorreu. Espero que o manuseio também, porque senão seria difícil enviá-los. O gerenciamento do sistema de assinaturas, espera-se, também já existia, ou então o caos era muito bem disfarçado.

A coisa não para por aí. Para que tintas mais kafkianas apareçam na história, "a organização" da Osesp explica ao repórter que a tal taxa diz respeito a "série de serviços e benefícios adicionais completamente desvinculados do custo das apresentações", o que inclui "a comodidade de ter lugar cativo na platéia".

Ora, isso não é um conforto adicional e nem é novo. É evidente que quem compra uma assinatura de orquestra compra um lugar fixo. Tal seria. Imagine as pessoas entrando numa sala de concerto e disputando lugar como se fosse um jogo de futebol.

Completa dizendo que "seu valor é suficiente apenas para cobrir os custos".

Que custos? Os dos serviços? O de ter um lugar marcado? Então até agora esses custos eram cobertos por quem? Há muita coisa não dita nessa história e as explicações são feitas julgando que os assinantes são retardados.

Por fim, para o aumento, também brutal, de 17% nos ingressos avulsos, a Osesp sustenta que "resolveu alinhar os seus preços e deixá-los mais próximos aos do mercado para espetáculos congêneres".

Inútil dizer: se é para ostentar preços "de mercado", para que uma orquestra pública?

Ou, em outras palavras: velhinhos e estudantes de música frequentadores da Osesp, convém aproveitar bem 2009. O futuro promete ser árduo.

P.S. - Eu agradeceria se não se visse nisso essa história de brigas políticas, a favor ou contra o governador. Tenho visto José Serra ser acusado de muita coisa ao longo da vida, mas nunca de burro ou insensato. Isso parece mais coisa de sabotador.

Por Inácio Araujo às 10h44


26/10/2009

Wajda, vivo como a vida + Ken Loach

 

A principal razão para ver “Alga Doce” é que Wajda filma bem. O que isso quer dizer? Que estamos diante do filme de um velho mestre e que a câmera parece estar sempre no único lugar possível. Filma como um mestre. Como o mestre que é. É simples e exato, isento de dúvidas ou hesitações, tudo é simples, limpo. Notável.

A segunda, que torna um tanto urgente o deslocamento a um cinema, é que eu tenho dúvidas sobre se um filme desse porte terá lançamento no Brasil (temo o mesmo por "Adam Resurrected", de Paul Schrader, mas, enfim, talvez até já tenham distribuidor). O sistema cinematográfico parece cada vez menos propenso a aceitar filmes como esse.

Por fim, existe Krystyna Janda, a magnífica atriz das duas atrozes histórias que se superpõem. Primeiro, num tempo presente, existe uma atriz de luto num quarto quase sem luz, a nos lembrar que este filme atrasou um ano por causa da doença e da morte de seu marido. Ela recita seu monólogo, em um único plano. A câmera enfatiza o efeito teatral.

Em seguida, temos a história que se passa alguns anos, dez ou quinze, depois da guerra. Ali, uma atriz (a própria Janda) viverá a mulher às voltas com o luto pela morte do próprio filho. O monólogo da primeira época (que na verdade é a atual) foi escrito pela própria Janda e diz respeito à morte do próprio marido, que era fotógrafo de Wajda.

Claro que é "pra baixo". Não sei se a tendência dos multiplexes hoje seja aceitar sensibilidades verdadeiras. As preferidas são as portáteis.

As duas épocas dão bem a idéia de um filme que se monta debaixo de nós, vivo como a vida, sofrido também. Verdadeiro a cada instante. Filme de velho mestre, com a vitalidade que os velhos mestres vêem demonstrando.

À Procura de Eric

Pensava em escrever, mas acabei esquecendo.

É o mais querido dos autores que não gosto. Isto é, tudo nele me parece um pouco antiquado, sua relação com o cinema me interessa pouco etc.

Mas é, inegavelmente, um bom homem. E isso se reflete necessariamente em seus filmes, ou na maior parte deles.

Neste, Eric é um carteiro que cometeu erros na vida, no passado, e arca com a responsabilidade deles segundo a segundo.

É também um torcedor de futebol fanático e fã de outro Eric, Cantona, jogador de futebol genial e temperamental.

Bem, é por aí que tento entender a ambiguidade dos meus sentimentos em relação a Loach. Ele se interessa tão apaixonadamente por seus personagens que tanto eles quanto as questões que suscitam terminam por nos interessar igualmente.

A hipótese de um homem se levantar, sair de seu pesadelo, ganhar uma segunda chance por efeito de uma idolatria, de uma relação com esse fantasma que são, na escala popular, os jogadores de futebol, tem alguma coisa de sublime. Por um lado nos lembra que esse tipo de relação faz sentido, é profunda (entre os fãs de futebol e seus ídolos) e pode ser construtiva.

Seu estilo me interessa pela franqueza, pela honestidade, embora não me entusiasme (prefiro Stephen Frears, para não sair da Inglaterra). Algo que me incomoda bastante neste filme, mas não é a primeira vez que me acontece em filme dele: a sensação de que a classe operária é mais objeto de reflexão do que propriamente sujeito de seus filmes. De certa forma, pode ser esse o limite de seu realismo. Acho que esse entra em cartaz.

Por Inácio Araujo às 11h29


25/10/2009

Quebrando a cara

 

 

Quanto mais vejo filmes coreanos, menos me sinto capaz de compreender a alma desse povo.

Já corrijo: quando apenas começavam a entrar no mercado mundial, vi na Mostra mesmo coisas muito delicadas.

Agora os filmes são carregados de uma perversidade alucinante, para o bem e para o mal. Em "Voluntária Sexual" (que escolhi por causa do nome), existe uma jovem estudante de cinema que faz filme sobre prostitutas, ocasião em que vai pessoalmente a um bordel, representar o papel. Se bem entendi, é nessa ocasião que acaba transando com o pai, por, digamos, orgulho profissional. A mãe dela faz trabalho de defesa e esclarecimento das prostitutas.

Mas o "plot" não é esse, e sim que a garota transa com um homem que sofre de paralisia cerebral, com as bênçãos de um padre. E, claro, há uma jornalista chata que fica atrás da menina para levantar a história e fazer o devido sensacionalismo (velha oposição cinema vs. imprensa)

A sinopse é boa, embora manifeste esse gosto pelos extremos que parece uma característica muito frequente do filme coreano. Mas o cara filma quase o tempo todo o pobre homem com paralisia cerebral. Quando não, tinha o padre chato. Quanto não, tinha uma música insuportavelmente alta.

Resultado: fui ver para fazer hora para o "35 Doses de Rum" e acabei nem vendo a Claire Denis, a sessão era à meia-noite e eu estava morto de sono.

Confio em Portugal. O que têm mostrado os filmes de lá me levaram a ir atrás de "Cinerama".

Uma roubada. Não entendi aonde a moça queria ir, temo que nem ela tenha entendido muito. Imagem sem força sempre, apesar de algumas locações muito bonitas, uma idéia inicial brilhante (alguém pendurado sugere um enforcamento que não está acontecendo, mas ao qual o filme remete) e Diogo Dória no meio disso tudo.

Apostas ganhas: "Seguindo em Frente", de Kore-Eda, e "O que Resta do Tempo" (ou "O Tempo que Resta"?), de Elia Souleiman.

Por Inácio Araujo às 11h38


23/10/2009

A Mostra 33 começa com saúde de ferro


Depois de muitos anos fui a uma abertura de Mostra, mais porque não conhecia o Auditório do Ibirapuera. Que é, realmente, um assombro. Não dá para entender, hoje, como se queria impedir sua construção: sem ele, havia algo faltando no parque.

Bem, é a Mostra 33. Se bem estou lembrado, a última abertura a que eu fui era no vão livre do Masp, com aquele filme "Assassinos por Natureza".

De todo modo, abertura é chato, cheia de atropelos, e eu gosto da Mostra porque, além dos filmes, encontro um monte de amigos que não posso ver muito durante o ano.

Parece que o mundo virou do avesso. Havia uma dezena de patrocinadores para falar. É meio chato o falatório e tal, mas, caramba, eu me lembro do tempo em que o Leon corria atrás de um, de um só patrocinio para fazer a Mostra.

Hoje as possibilidades são outras. A gente não pode esquecer que a Mostra nasce como parte de uma resistência cultural ao governo militar. À censura, etc.

Então, os tempos mudam. Todos os governos (União, Estado, Município) estavam presentes. A Mostra é um acontecimento tão oficial quanto a Bienal.

A diferença é que a Bienal já foi devidamente saqueada e, no mesmo dia, no mesmo horário, lá se promovia um jantar todo todo para arrancar dinheiro de possíveis mecenas.

Que ela encontre esse dinheiro, que se reerga, é coisa de que o ar que respiramos precisa, tanto quanto da Mostra.

Dito isso, o filme do Ken Loach, que foi exibido, é bem Ken Loach. Tem uma observação muito carinhosa da classe operária, que consegue articular a coisas como futebol de maneira brilhante. Talvez ele gonfle um pouco as coisas no final, em busca de efeitos emocionais. Mas, caramba, também o John Ford tinha essa fraqueza.

Hoje (sexta) pela manhá, a Ilustrada publica um artigo com o qual não concordo muito, a respeito de um sentimento de urgência que haveria no passado e não agora, quando sabemos que os filmes vão entrar, etc e tal.

Não estou nada certo disso. Entrei nessa conversa no ano passado e não fui ver o  "Redacted", pensando, "bah, filme do Brian de Palma não tem erro, vai entrar". Ou seja, se não fosse pela cópia baixada de internet que me emprestaram eu até hoje não teria visto este filme (o melhor de 2008, segundo "Cahiers du Cinéma").

Enfim, vamos à luta.

Por Inácio Araujo às 12h13


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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