UOL Cinema

21/10/2010

Mudança de endereço

 

Caros,

A partir de agora os blogues do Uol terão uma nova plataforma (Wordpress) e um novo visual.

Na prática, isto quer dizer que o Cinema de Boca em Boca estará em um novo endereço:  http://inacio-a.blogosfera.uol.com.br/

Já está no ar um primeiro post.

Por favor, atualizem seus links e favoritos.

Por Inácio Araujo às 13h03


14/10/2010

O Retorno a Ford

 

Uma das histórias de John Ford (ou lendas em torno de?), recontada com todas as imprecisões que vêm ao caso: Carrol Baker insistia para que fizesse uma cena à maneira de Ingmar Bergman. Ford escuta calado. A horas tantas vira-se para ela e pergunta: "Mas quem é Ingmar Bergman?". Carrol não retruca, claro.

No dia seguinte, Ford chega ao set e vai direto para ela: "Já sei quem é Ingmar Bergman. É aquele sueco que me considera o melhor diretor do mundo".

Assim era nos idos de 1960: ninguém duvidava da grandeza de Ford.

Não que hoje se duvide. Mas o surgimento dos cinemas novos, a preocupação com a linguagem, o simples correr do tempo, as mudanças tecnológicas, as simples novidades, tudo isso acabou por deixar Ford um tanto na surdina.

A mostra o traz de volta.

Volta é modo de dizer. Ele tem uma quantidade enorme de filmes em DVD no Brasil (ainda que uma parte seja da Continental...). Mas uma mostra dessa extensão faz de Ford, outra vez, objeto crítico.

A retrospectiva, aliás, tratou de não dar ponto sem nó: editou um catálogo magnífico, desses dignos da Cinemateca Portuguesa. Artigos de origem francofone (Serge Daney, sobretudo), anglofones (Ted Gallagher tem uns três títulos, notáveis), lusófonos (João Benard da Costa, mas também a introdução de Ruy Gardnier) compõem um conjunto fascinante que propõem a atualidade de Ford.

Na ótica dos autores (ou da parte deles que eu já pude ler), Ford deixa de ser um "ilusionista clássico" (o que, nos tempos da semiótica se tornou quase um xingamento). Gallagher (se não estou enganado), por exemplo, propõe que observemos como os cortes de John Ford devem ser sentidos pelo espectador como cortes.

Mas isso é quase um detalhe. O conjunto de textos dá conta, analisa, reconstitui aquilo que para o espectador é quase da ordem da evidência: Ford é um monstro.

Não importa se para cada um de nós em particular o "Homero do Oeste", como o chamou Sergio Augusto, é o melhor, o segundo ou o décimo melhor cineasta. Isso não importa nada.

Só a análise de como trata o roteiro (texto de base a partir do qual suprime diálogos e formula idéias em imagens) é uma aula insubstituível do que seja cinema, de como observá-lo, de como fazê-lo.

Marlene Dietrich, a Tanya de "A Marca da Maldade", diz uma coisa inesquecível a respeito da pianola que toca em seu bar, algo como: "o velho é o novo".

O velho Ford que se oferece a nós hoje é novo em folha, como um bom clássico, como grande autor clássico que é.

 

Por Inácio Araujo às 18h36


07/10/2010

"Tropa de Elite 2" tem muito a dizer à nação

 

Ao sair da sessão de "Tropa de Elite 2" não pude evitar de pensar em alguns filmes.

O caminho escolhido pelos autores, desta vez, me pareceu próximo ao dos grandes filmes político-policiais italianos, como Elio Petri e Damiano Damiani, sobretudo, fizeram.

No policial italiano, quanto mais um crime é investigado, mais se sobe na hierarquia, mais se adensa o mistério: topa-se, no fim da linha, com a Máfia.

No novo "Tropa", o agora tenente-coronel Nascimento é elevado à categoria de subsecretário da Segurança Pública.

De certa forma, é encostado num gabinete.

Só que estamos falando, ainda, do velho Nascimento. De maneira que ele, dali, consegue mexer seus pauzinhos para controlar o tráfico.

O problema é que aí já não se trata mais com os renegados de Canudos, da Revolta da Vacina, com os pretinhos, pardos e mulatinhos que o Bope costumava arrebentar sem dó.

Não se trata mais dessa imensa população que o Brasil culto não entende, não quer entender e tem raiva de quem entende.

(Daí Euclydes da Cunha ser, a rigor, tão pouco lido e uma das frases mais desinteressantes do livro inteiro ter se tornado lugar-comum).

Agora são os que ou passaram daquela faixa para outra, tornando-se policiais, ou mesmo os beneficiários da corrupção endêmica no país.

Ou seja, isso que o coronel chama de "o sistema".

A polícia, corrupta, transforma-se nas Milícias e garante "a paz" nas favelas ao mesmo tempo em que pratica a extorsão livremente.

A mídia (representada por um programa de TV tipo Datena) adora isso e fatura em cima. O governador, que quer se reeleger, acha ótimo.

E assim vamos.

Mas Nascimento se mantém intacto e puro.

A pureza contra a política?

Bem, aí entra o outro filme que me veio à cabeça: "Arquitetura da Destruição".

Esse magnífico ensaio sustenta que Hitler não aspirava senão a criar um mundo de beleza, livre de impurezas como retardados mentais, ciganos e, claro, judeus.

Acho que isso pode ser um paradigma: o caminho do excesso, no caso, não leva à sabedoria, como dizia William Blake.

Leva ao desatino.

Então, penso, todo esse excessivo combate à instituição política que vemos em "Tropa" leva a quê?

Terror em Paulínia

Não sei dizer, com franqueza, se o que me assusta é o filme ou uma parte da população brasileira.

Essa parte que, na sessão em Paulínia, aplaudia em cena aberta no momento de um brutal espancamento.

Talvez o filme esteja certo e nossa política seja mesmo uma porcaria.

Mas eu me pergunto se vivemos num país de imaculada pureza dominado por um núcleo de desviantes corruptos ou coisa parecida.

O Congresso Nacional, por onde o filme passeia a horas tantas, não seria então representativo do que é o Brasil, do que somos nós?

Somos todos bons e os políticos são ruins? É isso, então? A idéia é consoladora, é verdade, mas é uma pena que não seja muito realista.

O filme sustenta, talvez com razão, que levará muitos anos para solucionarmos problemas como a corrupção, porque não é corrupção de uma pessoa, mas de um "o sistema".

O que é "o sistema"?

A idéia de impunidade está vinculada a ele, claro.

O cara que tem a arma na mão pode fazer o que quiser.

Ele é o começo e o fim das coisas.

Na verdade, não existe nenhuma diferença ontológica entre o Bope e os tiras corruptos das Milícias.

São duas faces da mesmíssima moeda. Ambos dispõem de um poder absoluto.

(Os políticos ficam, quase naturalmente, por trás de ambos, se equilibrando: o negócio deles são os votos.)

O fato de o Bope representar "o bem", "a pureza", não altera nada. Nunca se ouviu dizer que Stalin era desonesto (e tal seria: se dissesse alguma coisa, era eliminado no ato), mas fez o que fez e a coisa deu no que deu.

Nascimento é direito? Puro e duro? E daí? E se, com as armas e a corporação que tem na mão, ele não for direito?

Quem diz que o Bope é essa ilha de perfeição e pureza que o filme sustenta ser?

Isso não será apenas uma outra ficção?

Pela "Tropa"

Isso pode parecer que estou contra o filme, o que não é bem verdade.

Filmes como ele me parecem necessários por vários motivos, inclusive por olhar coisas que o filme brasileiro não costuma olhar, por um ângulo que costuma evitar.

Com isso, e com a ambiguidade que caracteriza, de maneiras diferentes, os dois filmes, algumas questões podem ser colocadas.

A primeira, mais urgente, é a da herança da tortura, ou seja do desmando do aparelho repressivo durante a ditadura.

O Brasil paga caro por isso em matéria moral.

Todo mundo fica em cima do cara que rouba umas galinhas, como se fosse o fim do mundo. Tudo bem. Não é certo.

Mas a carnificina que houve por aqui, a tortura, tudo isso é como se não tivesse existido.

Enquanto o Brasil não acertar contas com essa história (a Argentina fez, até o Chile fez) acho difícil derrotar "o sistema".

Enquanto não acertar as contas com Canudos, não compreenderá a si mesmo e os seus.

Fundamentalismo 

Só para terminar: o culto ao Bope e ao capitão Nascimento pode servir muito bem para catarse.

Mas não resolve nossos problemas.

Acho que foi o Simão, que vê tudo antes, quem falou que já estamos numa república em que os dirigentes são civis, mas obedecem aos religiosos.

Então,vamos parar de falar mal do Irã, de Israel.

A gente está igual.

Essa história em torno de aborto é  vergonhosa. Até Portugal, que é aquela coisa atrasada, já aceita. Até a Itália, com o Papa plantado lá dentro.

Só o Brasil... Bem, a catolicidade não se incomoda com a carnificina anual de mulheres (pobres, naturalmente) que fazem aborto e morrem ou sofrem problemas seríssimos.

A catolicidade (e acho que uma parte dos evangélicos também) se incomodam com os fetos, com os "puros" (com aqueles que certos padres e bispois tentarão transar, dali a uns anos, poderiam acrescentar).

Não acredito, francamente, que Dilma Rousseff deixou de ganhar no primeiro turno por conta disso. Mas o fato de estar no debate, como está, beira o assombroso.

Para resumir: há muitas coisas que, querendo ou não, "Tropa 2" tem a nos dizer. Não sei se o público quererá escutar.

Por Inácio Araujo às 13h36


05/10/2010

"Wall Street" e a cultura das reviravoltas

 

Quem viu "Wall Street 2" sabe do que estou falando:

é a maldita cultura dos "consultores de roteiro", dos leitores, dos produtores incompetentes.

Isso tudo aliado a certa decadência de Oliver Stone, claro.

O fato é o seguinte: todo o filme é construído em torno dos oito anos de prisão de Gordon Gekko, o magnata que havia dado mil e um golpes no primerio filme.

Aqui, desde que ele sai, é um cara crítico, escreve livros sobre a ganância, dá a entender que ninguém precisa dessa ganância para viver etc.

Claro, resta nele o fascínio pelo mercado financeiro, mas é uma coisa de natureza muito mais teórica, agora.

Bem, na última "virada", tudo vai mudar.

Ora, tudo isso que muda vai contra tudo que o personagem demonstrou ser até então.

Daí o filme desanda total. Gordon Gekko pode ser um ganancioso, um jogador ou um sentimental.

Tanto faz quanto tanto fez.

O final do filme, que ia bem até aquele momento (é um assunto que, visivelmente, mobiliza O.S., o primeiro "Wall Street" é seu melhor filme), é lamentável.

Por Inácio Araujo às 13h46


01/10/2010

"Filme Cultura" volta à cena

 

O título acima, bem ambíguo, admito, quer dizer o seguinte: "Filme Cultura" está sendo feito novamente.

 

Mas não sei se está circulando comercialmente. Volto ao assunto lá em baixo.

 

O certo é que está saindo o novo número da “Filme Cultura”, segundo da nova fase, agora editada pelo CTAv.

 

O número tem como centro o blockbuster, ou, como está na capa, o Arrasa Quarteirão.

 

Matéria em que o cinema nacional tem mostrado desenvoltura, nos últimos tempos e questão, sem dúvida, a debater.

 

Nos melhores dias de doença, aproveitei as longas sessões de inalação para ler a “Filme Cultura” original, que circulou a partir dos anos 60, ainda no tempo do INC.

 

Foi lançada agora em fac simile. Embora o papel seja mais pobre, a recuperação do pensamento crítico daqueles anos conflituados (em termos de disputa cinematográfica) é mais que interessante.

 

Mesmo que a revista expresse preferencialmente o ponto de vista de uma crítica mais próxima do INC de então, mesmo que por vezes Rossana Ghessa seja lançada como nossa grande atriz, o interesse é imenso.

 

Por exemplo: a eleição dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, naquele momento, dá resultados que hoje parecem, por vezes, mais que esquisitos.

 

As reflexões críticas eram fortes, mas em geral datadas. Vale aproveitar o lado “forte” da coisa, mas também atentar ao quanto o próprio cinema torna as idéias críticas ultrapassadas com uma rapidez por vezes penosa.

 

O único problema: onde é que se compra isso?

 

(Coisas do governo às vezes têm esse problema: se forem vendidas dá um rolo inacreditável. Pelo menos era assim no tempo da Funarte: tinha um monte de coisas interessantes que, simplesmente, não podiam ser comercializadas porque o órgão não podia vender etc. etc. etc.).

 

Por Inácio Araujo às 11h47


26/09/2010

O Último suspiro de Chabrol

 

Não sei a razão porque Imovision traz umas tralhas francesas (ou germano-turcas) e não deu a menor bola, até agora e ao que eu saiba, ao menos, a "Bellamy".

Me emprestaram uma versão internet desse belo filme.

Um rápido resumo: em férias, o Inspetor Bellamy é procurado por um homem que se diz responsável pela morte de outro homem. No fundo existe uma questão amorosa: ele queria se passar por morto, deixar uma apólice para a mulher, fugir com outra - se bem entendi.

Este homem mudou de nome e não parece mais quem era, por conta de uma plástica.

Ao mesmo tempo, ou quase, Bellamy recebe a visita de seu irmão, que é o oposto dele: esteve preso, é mau caráter, sofre horrivelmente etc.

A rigor, um filme sobre o outro que vive em nós. O irmão de Bellamy é o duplo maligno de Bellamy, assim como o outro homem, o que procura o inspetor, também se duplica, se torna dois, um vivo e outro morto, um inocente e outro culpado.

O filme me fez lembrar de "Os Primos", onde existe esse encontro entre primos tão diferentes, mas complementares. É como se este filme final rimasse totalmente com o do início da carreira (não lembro de Le Beau Serge / Nas Garras do Vício, que não vejo há seculos).

Mas no meio houve evolução, desse cineasta tão preocupado com a mise-en-scène, ele que criticava os colegas que usam a câmera "que nem vassoura", varrendo tudo o que tem pela frente.

A cena que começa com um regador no chão e termina, numa panorâmica vertical, com uma mulher morta me parece que vale o filme por si só.

A outra referência obrigatória é Fritz Lang e seu Mabuse. Obrigatória e, por sinal, evidente. Chabrol nos lembra no final aquela fuga espetacular do médico em quem vivia um outro homem (o dr. Mabuse, via escrita). Isso no segundo Mabuse, "O Testamento".

Enfim: que diabo acontece com nossa distribuição? É terrível não ter "Bellamy" por aqui.

Por Inácio Araujo às 16h03


23/09/2010

"Lula" nos levará ao Oscar?

 

A primeira reação pode ser paranóica: se "Lula, o Filho do Brasil" vai ao Oscar (enfim: é indicado pelo Brasil para concorrer) seria por interferência política, etc.

Duvido.

Entre os que concorreram à indicação é o com melhores condições de emplacar no Oscar de filme estrangeiro.

Primeiro, aborda um personagem reconhecível universalmente.

Mais, que faz unanimidade fora do Brasil como pessoa admirada, antes de tudo, por sua trajetória pessoal.

Aqui, apesar de ser um presidente muito popular, há muitas pessoas que fazem ressalvas a Lula em vários níveis, do cultural ao político.

Esse aspecto emocional (e que nos dias atuais chega à demência, o que é de certo modo compreensível) inexiste no exterior.

E é essa trajetória de vida que o filme, aliás, explicita, da infância até os tempos de sindicalismo em São Bernardo e ao combate à ditadura.

Portanto, é também uma história de vencedor.

Pode até não ser o ideal para levar o Oscar ou, eventualmente, chegar a ele (causas humanísticas mais genéricas são sempre muito bem vistas), mas é de longe o melhor que temos. Eu diria que é o melhor que temos desde "Central do Brasil" como concorrente.

Alguém poderá dizer que "Cinco Vezes Favela" tem a vantagem de ser feito por jovens da própria favela etc.

Mas isso é muito abstrato. O Oscar não gira em torno disso.

Pode-se sempre alegar que "Lula" é quadrado como "Gandhi" (e bem produzido, guardadas as proporções devidas).

Mas isso é preocupação de crítico, não de eleitor do Oscar.

Só para efeito de lembrança, "Gandhi" ganhou oito Oscars em 1982.  

Por Inácio Araujo às 12h56


20/09/2010

Duas semanas em outro mundo

 

Lembrei o nome original daquele filme, o "Two Weeks in Another Town", do Minnelli.

Passei duas semanas em outro mundo.

 

Fora de tudo. Escrevi algumas linhas sobre o Chabrol, porque não podia não fazê-lo, e porque não precisava usar nenhum raciocínio: apenas o que consegui lembrar da conversa com o cineasta mais cinéfilo com quem já conversei.

 

Um espanto: era como se vivesse dentro da tela.

 

Falava do Fritz Lang assim (meio que reinvento a conversa, mas o sentido era esse).

 

Eu – Mas vocês achavam mesmo que o Fritz Lang americano era melhor que o alemão?

CC – Claro que não. Mas é que falavam cada coisa tão absurda sobre ele, que a gente tinha que pegar pelo inverso, falar que “M” não era bom.

Eu – Mas era, claro.

CC – Lógico, é o melhor dele.

Eu – Sério? Melhor que “O Segredo de uma Alma”?

CC – Éste é um filme admirável, mas quase uma abstração. Ele não tinha os mesmos meios que na Alemanha.

 

E por aí ia.

 

Resumindo: eu estava sem forças para refazer esse diálogo.

 

Mas li um artigo muito bonito do Giannini, aqui no UOL.

 

Não li, ainda os do Zé Geraldo e do Cacá Diegues, que eu vi que saíram.

 

Não li o Estadão.

 

Quem terá escrito?

 

Olha, foram 15 dias mais ou menos. Duas semanas.

 

Desculpem, isso tudo é muito pessoal. A delícia da doença é que você lê o livro que não conseguia ler, vê o filme que precisava rever há muito tempo e está na TV, ou ainda melhor: o filme que não precisava rever, mas que no estado de doença se torna uma delícia.

 

Desta vez eu fiquei jogado. Sem comer, sem dormir.

 

Não vi o 5 X Favela. Não vi os Dzi Croquettes. Os que me parecem mais essenciais. Nada.

 

Não segui sequer o noticiário da TV a cabo.

 

Minto: li, ou quase li, nos momentos de vigília, a nova edição da “A Revolta da Vacina”, que é um livro de juventude do Nicolau Sevcenko.

 

Talentosíssimo, inteligentíssimo, como ele sempre foi.

 

Ele vê a revolta como um Canudos urbano, mais ou menos.

 

Ou seja, a revolta de pessoas que, estando no Rio, podiam não sentir-se parte da nação, parte da república. Porque não eram mesmo, porque a elite não conseguia compreendê-los. Porque a elite delirava em Canudos, não era o exército apenas, era a elite toda que se mostrava incapaz de entender o que eram aquelas pessoas, contra o que estavam, porque estavam. Só o Euclydes compreendeu e escreveu, no meu entender, o melhor livro brasileiro até hoje. Porque o Machado é uma outra coisa. Um livro só, único, que transforma um monte de pedras, de deserto, de rios secos numa épica shakespeareana, bem, esse é “Os Sertões”, o livro imperdível.

 

O Nicolau toma o Lima Barreto, outro outsider. Faz um belo trabalho. No Rio, a Revolta era das pessoas que só tinham o corpo. E que experimentavam a vacina, a idéia da vacina, como uma violação desse único bem, o corpo. E ninguém na elite, nem Oswaldo Cruz, tinha como perceber o significado disso.

 

A crueldade da reação ao episódio da "elite branca", como definiu o político Claudio Lembo certa vez, foi tão inacreditável quanto característica, uma coisa demencial.

 

Bom, chega por agora. Já falei demais e todo mundo tem mais o que fazer.

 

Por Inácio Araujo às 11h38


12/09/2010

Morreu Claude Chabrol

 

Claude Chabrol não era apenas um cineasta de primeira linha.

Era uma das pessoas mais agradáveis e felizes do mundo do cinema.

Sabia fazer filmes, sabia vê-los, sabia falar (e escrever, a seu tempo) sobre eles como poucos.

Não se levava excessivamente a sério. Tinha autocrítica bastante para, ao falar de, por exemplo, "Follies Bourgeoises", admitir, exageradamente, que era um dos piores filmes do mundo.

Mas tinha alguns dos melhores filmes franceses: Os Primos, O Açougueiro, Violette Nozíère, Um Assunto de Mulheres, Uma Garota Dividida em Dois, enfim, esses são os que lembro assim de cabeça, mas há outros, aquele em que a família é trucidada pelas empregadas, etc.

Fez alguns filmes absolutamente policiais e outros históricos, outros ainda de incrível sensualidade, como As Corças e Alice ou A Última Fuga, em que descobriu em Sylvia Kristel não apenas a mulher absurdamente bonita como uma atriz sensível.

Esteve em Paris e na Província, compôs praticamente um mapa da França a partir de um olhar penetrante e implacável, não raro, mas sempre provido de humor e simpatia pelos seus personagens.

Seus filmes eram populares, óbvios, se se quiser. Cinema sem símbolos. Aos poucos parece que é pouco compreendido.

Embora tenha filmes excelentes e outros bem ruinzinhos, essa irregularidade não o impede de ter uma obra muito viva e muito una.

Por outro lado... Aquele cara que era capaz de falar horas com um quase desconhecido sobre Hitchcock e Fritz Lang, sobre Rohmer e Nouvelle Vague, foi-se.

Uma perda para a Nouvelle Vague (mais uma), uma perda para a cinefilia, uma perda para a felicidade, no fim das contas.

Por Inácio Araujo às 19h36


09/09/2010

Relatórios do abismo


Três filmes brasileiros estrearam no último fim de semana. Vejamos os resultados dos três primeiros dias de exibição:
 
Nosso Lar.........................................562.586
Programa Casé................................252
B1 - Tenório em Pequim.....................13
 
Esses abismos impressionam, porque colocam em questão o que o público quer do cinema e o que ele entende por cinema hoje em dia.
 
Ok, "Programa Casé" deve ter entrado com uma ou duas cópias. É um documentário, e nada genial.
 
Mas para um país onde o rádio teve importância enorme, ele traz informações que justificariam ao menos o interesse de uns poucos espectadores.
 
Não falo do terceiro filme, cuja existência eu ignorava.
 
Continuações:
O Bem Amado..........................873.979
Melhores Coisas da Vida............268.734
Quincas Berro..........................268.282
400CONTRA1...........................111.044
Uma Noite em 67.......................64.197
5 X FAVELA..............................61.314
Em Teu Nome...........................35.366
Viajo Porque Preciso..................26.361
Sonhos Roubados......................25.517
Antes Que o Mundo Acabe..........22.603
A Casa Verde...........................17.470
Dzi Croquettes.........................19.976
Olhos Azuis.............................15.439
Cabeça a Prêmio.................. .....7.224
Reflexões de Um Liquidificador .....6.131
Bellini e o Demônio........................987
Fluidos........................................238
 
Aqui, a lista parece mais equilibrada, com os mais de 800 mil espectadores para essa chatice que é "O Bem Amado", mas uma chatice empurrada pela Globo, por uma antiga novela, por Marco Nanini.
 
Faz sentido os filmes que vêm a seguir, sendo animador o resultado de "As Melhores Coisas da Vida", que traz os vários lados da Laís Bodansky, da capacidade de trabalhar para um público (os adolescentes aqui) à boa direção de atores, passando pelo oportunismo no tratamento do tema. Mas ela não teve a facilidade de partir de um Jorge Amado com elenco espetacular e atingiu um público considerável.
 
Os mais de 60 mil de "Uma Noite em 67" falam certamente das virtudes desse documentário, mas, sobretudo, de como ele capta um fenômeno a que as pessoas queriam se religar, que queriam reecontrar.

Enfim, a julgar por essa lista de "Continuações" estamos bem melhor, num declive suave entre os filmes mais vistos e os menos vistos, o que é bom para criar uma cinematografia saudável.
 
(Os dados vêm do precioso "Almanaque" da Maria do Rosário Caetano)
 

Por Inácio Araujo às 17h17


05/09/2010

O filme mais caro do Brasil

Aviso desde já que sou bem simpático a esses filmes tão facilmente ridicularizáveis, como o do Padre Marcelo, o "Bezerra de Menezes" e tal.

Vejo nesses filmes, de que "Nosso Lar" é o mais recente exemplar, uma inocência pelo menos interessante.

O cinema é lugar de milagres, onde o impossível se torna possível.

Algo que está fora da nossa tradição cinematográfica pelo simples fato de que milagres, no cinema, costumam custar uma nota.

"Nosso Lar" custou uma nota. Ao que se diz, R$ 20 milhões. Seria o filme mais caro jamais feito no Brasil.

(Entre os produtores, adianto, está uma certa Cinética Filmes, o que talvez signifique o envolvimento de Cleber Eduardo e Eduardo Valente na história).

Não é um preço alto para representar um mundo paralelo, o mundo dos espíritos, para onde iríamos após morrer.

Não vejo motivo para rir disso. Cada religião responde à sua maneira à angústia da morte. A espírita não me parece pior ou melhor que as outras.

O mundo de "Nosso Lar" é um mundo futurista que ora lembra construções de Niemeyer, ora as do Metrópolis de Fritz Lang e deixam sempre a impressão muito fortes de maquetes.

Mas como estamos em outra dimensão não há mal nesse tipo de representação meio primária.

Não vou discutir o ideário do filme, mas estou seguro de que ele se defende melhor no modesto "Bezerra de Menezes", que deve ter custado umas duzentas vezes menos.

Aqui temos uma narrativa a partir do primeiro livro que teria sido psicografado por Chico Xavier a partir do espírito André Luiz.

A partir disso seria possível fazer um bom filme, mas Wagner de Assis, autor do projeto do qual consta como roteirista e diretor, se parece acreditar na magia das trucagens, não acredita na das imagens.

À parte maquetes e alguns milagres meio óbvios, como abrir muros com um toque de mãos, nada nos é informado pela imagem. Nada, literalmente.

Tudo que existe é uma falação sem fim sobre como é ou deixa de ser o além, suas práticas, sua culinária, as mudanças em relação ao mundo dos vivos.

Pode-se discutir tudo, inclusive a aparência dos espíritos, cujos trajes a mim, não raro, lembravam os de personagens de filmes tipo "Star Trek".

Mas são arbitrariedades. Tratando-se de um mundo que ninguém conhece (a rigor), a representação é naturalmente arbitrária. 

Em Swedenborg essas coisas são mais interessante, dirão aqueles com mais leitura.

Pode ser. Ainda assim, seria viável construir boas sequências a partir da existência terrena da família de André Luiz (que prosseguiu após sua morte, claro).

Com isso, haveria de se tornar poético o momento em que uma de suas filhas toca ao piano uma música que nunca aprendera antes e de que o pai gostava.

Assis arruina seu filme ao construí-lo sobre palavras. A dramaticidade escapa pelo ralo.

Seja para difundir a fé, seja por oportunismo, seja por qual motivo for, quando se faz um filme as imagens são o princípio e o final.

Ainda assim, eu vi o filme no sábado de estréia no Espaço da Pompéia. Passava em duas salas. Lotação esgotada muito antes da hora. Realmente muito cheio.

Essa saga (morrer e voltar à vida terrena, existência espiritual, etc.) convém lembrar que tem uma existência muito rica no cinema americano.

Pode vir um pouco para cá, dentro da experiência original (Chico Xavier, Arigó, mediunidades, crenças afro-brasileiras) que temos disso.

Mas é preciso que os filmes melhorem dramaticamente. Quero dizer: que o aprimoramento seja muito grande. Este filme é muito insatisfatório, e não senti que o público saísse da sala com aquela espécie de júbilo que saía do "Chico Xavier". Não basta haver vida após a morte. É preciso que haja vida após a tela.

Por Inácio Araujo às 11h45


Filme triste

 

Está um pouco difícil de entender o que pretende dizer a campanha de José Serra na televisão nos últimos dias.

De repente, aparece a imagem de Collor nos velhos tempos em que era adversário de Lula.

Depois sabemos que hoje Collor apóia Dilma Rousseff, adversária de Serra.

Somos lembrados do escândalo envolvendo a filha de Lula, na eleição de 1989, promovido por Collor (francamente já não me lembro direito o conteúdo, mas era coisa de Lula ser pai fora do casamento e, supostamente, não dar apoio à menina).

Agora, a campanha de Serra queixa-se do envolvimento da filha de José Serra.

A queixa pode até ser justa.

Mas, vamos com calma: essa publicidade dá a sensação de que pretendem nos tomar por idiotas.

A filha de Lula foi trazida a público por Collor a de fim de sujar Lula.

Talvez Dilma não devesse aceitá-lo hoje como aliado. Talvez aceitá-lo signifique que a sujeira do passado a contamina (tal qual mensalão ou aloprados).

Até aí, a cadeia associativa parece um tanto abstrata, mas vá lá.

Então começa-se a falar da filha copiosamente. O próprio Serra aparece e fala.

Mas sua filha nunca foi mencionada antes pela publicidade de Dilma.

Então, não existe o menor sinal de que Veronica Serra foi envolvida na campanha pelos adversários. Ela foi mencionada pela imprensa como tendo tido seu imposto de renda vasculhado ilegalmente.

O que a publicidade do candidato poderia, a partir disso tudo, era informar qual vantagem se pode tirar do fato de conhecer o imposto de renda de outra ligada ao adversário.

Porque enquanto não entender isso (se é que é inteligível) a população ficará mais com uma sensação de "orquestração de poderosos" contra o presidente que admira (80% dela, em todo caso), que acredita estar fazendo bem a ela e contra a candidata dele.

Essa publicidade do PSDB não me parece o caminho certo para ganhar votos.

Esse filme de terror que agora se exibe na campanha atual tem precedente em algumas campanhas de Paulo Maluf que andavam periclitantes. Já então não deu certo.

(P.S. - Pode-se alegar que, a longo prazo, esse tipo de propaganda ajudaria a "colar" no PT a imagem de partido corrupto, essas coisas. Não sei. Pelo passado recente tenho a impressão de que emplacou mesmo a idéia de que "são todos iguais, todos roubam").

Por Inácio Araujo às 11h09


03/09/2010

O cinema do Brasil já reencontrou a vitalidade?

 

" 'Às vezes, eu me pergunto se, em 20 anos, quando quisermos entender a Itália de hoje, poderemos fazer isso por meio do cinema. Não, não poderemos.'

A constatação de Gianlucca Farinelli, diretor da Cinemateca de Bologna, refere-se ao futuro, mas tem como ponto de partida o passado."

Esta é a abertura da matéria oportuníssima de Ana Paula Sousa sobre a mostra de comédias italianas que Farinelli apresenta no Festival de Veneza.

O que me intriga no que está dito no conjunto do texto é, primeiro, como se pôde destruir um cinema com a força do italiano.

Tornando-o não representativo, do momento em que a TV se impõe ao país (e se impõe tanto que faz o primeiro ministro, desgraça que nunca tivemos por aqui).

Mesmo hoje, com todos os problemas que temos, com um cinema que o público não quer ver (com exceção, justamente, daquele que vem da TV) há um vigor extraordinário na nossa produção.

Não digo que ela seja boa, mas traz uma diversidade de abordagens, de assuntos, de tentativas, de encontros e desencontros que não deixa de ser apaixonante.

Agora mesmo temos em cartaz filmes (não vou nem falar dos documentários, cujo interesse vem muitas vezes mais do objeto que qualquer outra coisa) que vão do "Liquidificador" do Klotzel ao filme espírita "Nosso Lar" (o do Klotzel não deixa de ser meio espírita), passando pelo "Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo".

Não importa o quanto eu goste ou deixe de gostar de cada um deles: é o conjunto que ora nos leva à Bahia, ao Rio, a São Paulo, ao Rio Grande (do "Antes que o Mundo Acabe", muito belo).

Enfim, há uma vida muito grande nisso tudo, que passa também por DVDs em que reencontramos filmes antigos e mesmo os recentes, que parece estar gestando, talvez, um grande cinema.

Me parece que para chegar a isso talvez fosse preciso encontrar formas da chamada meritocracia melhor se manifestar.

E que existe uma necessidade de trabalhar o marketing dos filmes, ao menos daqueles que pretendem alcançar o público.

Mas aos poucos as coisas vão se encontrando. Se a gente observa o número de boas atuações, por exemplo, que acontecem, de atores de ótimo nível que se impuseram nos últimos dez anos, isso é algo que o cinema conseguiu, mal ou bem e com todos os problemas que tem.

O que temos não é necessariamente o que faz a alegria total dos críticos. Mas nunca é. Isso é normal.

É importante ver que, com todos os problemas, quem está se impondo de fato são os cineastas de maior rigor, que sabem o que fazem, que não caíram de paraquedas no negócio.

Bem, eu vou pedir desculpas aos amigos porque este está um post meio "pra frente Brasil", mas quem me conhece sabe que não é isso. É apenas uma sensação que eu tive, observando o conjunto da produção atual.

Há alguns anos eu tinha a impressão de que nossa produção não nos representava. Seu conjunto parecia aquele "À Deriva", quer dizer, nada.

E hoje o conjunto está, talvez, perto de um momento em que seja, no futuro, possível um tanto do Brasil do século 21 (ou de parte dele) a partir das imagens produzidas. 

Por Inácio Araujo às 19h37


29/08/2010

A volta de "Liliam M"

 

Se o rótulo serve para recolocar em circulação alguns títulos, o melhor é aceitá-lo: marginal.

De resto, o pensamento cinematográfico que orienta a série de filmes que a Lume está editando é, senão marginal, ao menos minoritário.

Agora é a vez de "Liliam M".

Devemos a Eugênio Puppo o quase milagre de trazer este filme à luz. Batalhou mais de ano para resolver uma obscura questão burocrática de direitos.

No mais, a cópia está linda.

E o filme continua formidável.

Carlão Reichenbach visita todos os gêneros possíveis, ou quase, do cinema brasileiro.

Liliam começa rural, no interior. Foge para a cidade numa chanchada, com um vendedor ambulante sedutor tipo Zé Trindade.

Apanha da polícia. Experimenta a prostituição em vários níveis: o drama urbano à la Khoury, o musical, o policial.

Ser mulher é ser marginal.

 Não vou falar do final e de suas surpresas. Acho que quem gosta de cinema vai gostar.

Vai gostar mais ainda de ver um disco com belos extras, coisa que não se faz mais: vários curtas, belíssimos, estão lá.

Complementa o lote atual "Hitler Terceiro Mundo", do José Agripino de Paula, que é muito falado, é legal, mas não me impressiona tanto assim. Gostei mais dele no teatro. Mas é um filme a não jogar fora, de todo modo.

(Por fim: peço desculpas ao Puppo porque faltei ao lançamento. Faltei, não. Quando vi no convite "Livraria Cultura" fui direto para o Conjunto Nacional. Era em outra, lá no Shopping Villa Lobos. Aí encontrei o Fred Botelho e, paciência, perdi o encontro).

(Trecho: no trecho de "Liliam M", a sequência dela com Hartman, um dos homens com quem ela se relaciona - "o industrial alemão". Na verdade, pode-se pensar em Boilesen, o torturador. Uma sequência musical por excelência, regida por ritmos, com a música leve em contraponto com as imagens - representação bélica e vampirismo no final).

 

Ari Fernandes 

Ari Fernandes morreu aos 79 anos.

Vai para a posteridade como criador do "Vigilante Rodoviário".

É uma história a levantar. Sempre soube dele como um dos criadores do Vigilante. Alfredo Palacios teve sua parte nisso. O próprio Carlos Miranda.

Mas o Ari que fica, para mim, era um sujeito enormemente simpático e gentil, que driblava as muitas dificuldades do cinema nos anos 70 sempre com humor e disposição.

Para terminar: à parte ter sido inventor ou não do Vigilante, parcial ou não, dirigiu muito bem essa série, que até hoje se aguenta e mostrou que no Brasil sabia-se fazer produtos para a televisão e sabia-se fazer sucesso. Bastava um mínimo de condições.

Será, de todo modo, uma bela e merecida posteridade. 

Por Inácio Araujo às 20h42


23/08/2010

"A Origem" é um falso brilhante

 

 

“A Origem” me pareceu basicamente uma versão pedante e intimidatória de “Onze Homens e um Segredo”.

 

Pedante porque onde “Onze Homens” se apresentava como uma saudável diversão, para nós, e alegre aventura, para os personagens, desta vez existem vários aspectos cuja intenção é colocar o espectador na defensiva e colocá-lo em posição de ou gostar do filme ou se sentir uma besta.

 

Se assemelha muito, nesse sentido, daquele “Memento”, que alguém chamou, em boa hora de “Desejo de Matar de trás pra frente”. Ou seja, tratava-se de tomar uma questão simples (a vingança de um homem cuja mulher foi assassinada) e acrescentar-lhe alguns falsos problemas (no caso, a memória curtíssima do homem).

 

Aqui temos um grupo de seis ou sete pessoas, sendo uma mulher, cuja profissão consiste em penetrar no sonho dos outros, torná-lo compartilhável, e roubar segredos que existam ali (tipo segredos industriais ou de comportamento a serem usados em guerras corporativas e tal e coisa).

 

Nesse nível, “A Origem” se apresenta como uma metáfora do próprio cinema, que é uma espécie de sonho socializado, ou compartilhado.

 

Ao mesmo tempo, os sonhos, mantendo sua natureza de fenômeno psíquico, ganham uma dimensão operacional. A ciência de Freud, hoje substituída por parte da psiquiatria por drogas da felicidade, ganha assim uma função prática no mundo da competição industrial.

 

Por fim, algo bem hollywoodiano, pois não poderia faltar. Leonardo DiCaprio é o especialista em invadir sonhos que não pode voltar aos EUA, por ser acusado pela morte da esposa, nem, em decorrência, ver seus filhos.

 

Ele aceita uma última missão que vai limpar seu nome e reaproximá-lo dos filhos (todo o ar de “avant garde” do filme sucumbe à velha tradição do criminoso que precisa realizar uma última missão, por dinheiro ou para se livrar de uma chantagem etc.).

 

A missão consiste aqui não em roubar algo do inconsciente de alguém (o inconsciente é um cofre, em geral com sistema de defesa não raro armado etc.), e sim em inocular algo: uma idéia.

Operação delicadíssima, presume-se.

 

Estou suprimindo aqui dezenas de etapas intermediárias que são devidamente explicadas pelos personagens ao longo do filme e que fazem dele um filme basicamente falado, isto é: tudo o que há de mais essencial é falado e não visto.

 

2)

Ao mesmo tempo, o filme opera a herança de Jorge Luis Borges, o grande fabricante de labirintos, aquele para quem uma biblioteca seria a depositária do verdadeiro mundo, da vida real. Estou simplificando grosseiramente, mas essa relação entre realidade e imaginário é muito vinculada à obra borgiana.

 

Por fim, a lingüística tem uma presença importante nos pensamentos que Christopher Nolan agita. É dela que procede a idéia de que o mundo só é conhecível quando nomeado. Sua natureza é simbólica, ligada à linguagem.

 

Também estou simplificando brutalmente, mas daí procede o hábito contemporâneo de acreditar que não existe real, ou que qualquer camada de real, de coisa, é dominável pelo uso da linguagem. Entenda-se: já  que o branco, em si, não existe, o que existe é a palavra branco, se eu disser que azul é branco tenho alguma chance de emplacar esse sentido como realidade.

 

Estou fazendo uma espécie de caricatura, mas não é muito diferente disso que as coisas acontecem no filme.

 

3)

Christopher Nolan me parece fazer parte desse grupo de artistas que buscam questões contemporâneas, que se encontram no ar, a fim de colocá-las num figurino vendável.

 

São uma bela penca. Não raro são premiados e, com maior freqüência ainda, são incensados pela crítica (ao menos a anglo-saxã). Em vez de tornarem simples (isto é, visíveis) as complexidades da existência, tornam obscuro o que poderia ser claro (ainda que complexo).

 

Daí “A Origem” me parecer muito mais complicado que outra coisa e os atores terem que ficar se explicando uns aos outros o que acontece.

 

Entrementes, rola um monte de imagens de síntese raramente interessantes ou memoráveis. Não é que falte habilidade: essas imagens, a exemplo do filme inteiro, são muito mais feitas para impressionar do que para nos entreter, estimular, esclarecer ou enriquecer.

 

É um desses falsos brilhantes, que no primeiro momento podem prostrar o espectador, mas no instante seguinte desaparecem de suas preocupações, de suas lembranças, de seu mundo. No meu caso, pelo menos, essas imagens cheias de coisas serviram para dar sono.

 

Por Inácio Araujo às 10h17


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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