UOL Cinema

08/11/2009

A barbárie de cada dia

 

A imagem chocante é da estudante saindo da faculdade escoltada pela PM, dias atrás.

Não menos chocante é saber que a Uniban houve por bem expulsar a garota.

As justificativas são, para dizer o mínimo, um acinte. Em linhas gerais é como dizer que se a mulher foi estuprada é porque provocou!

Um procedimento que nem delegados de polícia usam mais.

Acusá-la de usar trajes "inadequados" de maneira regular é simplesmente ridículo. Primeiro, porque é. Trata-se de uma maneira rudimentar de inocentar a turba (ou seja, a sua freguesia).

Segundo porque se a direção julga certos trajes inadequados tem a obrigação de definir o que se pode ou não usar numa faculdade e chamar a atenção de seus alunos para o respeito ao que foi determinado. Ou seja: se havia motivo, a advetência já devia ter sido feita.

Por fim: chamar tentativa de linchamento de "reação coletiva de defesa do ambiente escolar" beira a insânia, por mais vagabunda que seja essa faculdade.

No mais, à luz da gritaria no filmete acima, pode-se perguntar que educação recebem os alunos desse tipo de estabelecimento comercial.

A finesse de Caetano

Não era sobre esse caso que eu pretendia escrever, mas ele é sórdido demais para passar em branco.

Estava chocado, antes disso, com uma sequência de Caetano Veloso. A ordem em que soube das coisas foi essa:

1) Ele disse que o presidente da República é analfabeto e grosseiro.

2) Ele disse que lê as críticas que recebe no banheiro.

Boto todas as reservas do mundo, e gostaria que alguém me dissesse que essas versões são falsas, porque não condizem com Caetano Veloso.

A ser verdade que ele disse essas coisas, porém...

Bem, todo mundo pode pensar o que bem quiser do presidente. Mas a segunda frase merecia muito bem o Pulitzer da grosseria. Não me lembro de nenhum momento em que Lula tenha feito um tipo de comentário nem de longe grosseiro (e baixo) como esse.

Por Inácio Araujo às 09h53


07/11/2009

Anselmo Duarte (1920 - 2009)

 

Procurei uma imagem que sintetizasse o que foi Anselmo Duarte para o cinema brasileiro e para quem o conheceu.

Foi ator, galã, conversador, contador de histórias fantástico (histórias não raro inacreditáveis), diretor premiado, diretor atrabiliário.

Enfim, alguém cuja obra ocupa uns 40 anos de história do cinema, de que fazem parte Atlântida, Vera Cruz, Oswaldo Massaini, Cannes, Palma de Ouro, sucessos, fracassos, que concentra muitas coisas e se irradia para muitas partes.

Enfim, não encontrei um clip, uma foto que dessem conta desses aspectos todos da vida de Anselmo.

Sua obra é a rever.

Por Inácio Araujo às 11h54


04/11/2009

Cacá Diegues enfrenta a crítica francesa


Mesmo quando é para discordar, todas as vezes que Cacá Diegues pega da pena algo interessante acontece.

Hoje (4/11) ele publica na Ilustrada o artigo "Frodon mostra ter visão colonialista".

Ou seja, a Ilustrada está pulsando. Com cheiro de boas polêmicas (ou seja, troca de idéias), pois sem isso nada anda.

Vou retomar uma frase dele apenas, referindo-se aos críticos franceses: "Não lhes ocorre tentar entender o país através dos filmes realizados, em vez de construir um país teórico através de filmes que não foram feitos".

Antes mesmo de refletir sobre se isso é de todo verdadeiro, mas a elegância e a precisão da escrita já são arrebatadoras.

Bem, o melhor dessas coisas é que não existe verdade final, porque nenhuma visão é completa. O dia em que isso existir, o cara é Deus.

Cacá tem razão e é verdadeiro, me parece, quando observa que a intelectualidade francesa não raro divide o mundo em diferentes humanidades, "cujos papéis estão sempre pré-determinados pela força mesma das coisas". É uma tendência, talvez não uma regra (se falarmos de regra vamos incorrer no mesmo procedimento com direção oposta).

Me parece ter menos razão quando defende nossa produção (ou supõe defender) da afirmação segundo a qual sofre "de uma dependência cultural de Hollywood". Nesse ponto, Cacá sugere a existência de "um outro colonialismo cultural, mais sofisticado, [que] nos sufoca".

Bom, embora entenda a referência à sufocação, tenho a impressão de que nesse particular ele dá uma boa viajada. A dependência cultural de Hollywood, de certa forma, é mundial. No Brasil ela se manifesta fortemente, desde sempre, pela ocupação agressiva do mercado. Aqui, quem entrar numa locadora verá que filme "nacional" é um gênero, "europeu" é outro. Somos uma particularidade em nosso próprio país. A exceção a isso hoje é a produção Globo. Não sei se há grande vantagem.

Ora, a sugestão de um modelo de indústria onde o principal é a modéstia e o caráter cooperativo, me parece não uma sugestão colonialista, mas a constatação de que a independência da produção se dá mais facilmente quando o aspecto econômico é ajustado ao mercado de que se dispõe. Quando se trabalha entre amigos, e não apenas entre profissionais, melhor ainda. Não me parece nada tão diferente do que fez entre nós, por exemplo, o cinema novo.

Também não entendo muito bem Cacá quando diz que aos críticos franceses não "ocorre tentar entender o país através dos filmes realizados, em vez de construir umn país teórico através de filmes que não foram feitos".

Como assim? Que filmes foram feitos e quais não foram feitos? Há os de Fernando Meirelles e os de Andrea Tonacci, há "Viajo porque preciso ..." e há "À Deriva". Há Paulo Saraceni e as comédias do Alvarenga. Nossa produção, Cacá sabe bem disso, é diversificada. Todos os filmes fazem, de algum modo, sentido.

A questão é: qual representa melhor o país diante dessa entidade chamada "cinema"?

Quem representa a Argentina? Lucrécia Martel ou aqueles melôs chorosos que chegam aqui de vez em quando?

Quem representa Israel, a Palestina, o Irã, a China, a França?

O que retemos de um cinema francês recente: Olivier Assayas ou Luc Besson?

O que nos interessa da India? Bollywood ou S. Ray? Etc.

Então, estou de acordo com Cacá, quando diz que "estamos fazendo nossos filmes com diversidade, sem dogmas ou fronteiras intransponíveis, sem modelo único". Nem me parece que J-M Frodon esteja propondo algo desse estilo, francamente. Isso leva,noentanto, à conclusão do artigo, que, até onde eu entendo, não chega a fazer sentido: "Temos que ouvir atentamente um pensador do cinema da qualidade de Frodon e todo mundo tem o direito de gostar ou não dos filmes que vê. Mas cada macaco no seu galho - quem diz como esses filmes devem ser é quem os faz".

Afinal, existe o direito de opinar ou cada macaco deve ficar em seu galho? Ouvimos atentamente o que diz um pensador ou o cineasta, esse autista, determina o que faz e dá uma banana pra todo mundo?

Me parece que nesse ponto Cacá não tem ainda uma idéia clara.

P.S. - Quanto à nossa produção, o dado que me aterrou há pouco tempo não tem nada, ou quase, a ver com isso.  É o seguinte. Na Argentina, há pouco tempo, a proporção de público entre o filme "comercial" e o do filme "independente" era de 5 ou 6 para 1. Cada 1,2 milhão de espectadores do filme comercial significaria 200 mil para os Trapero, Burman, Martel. A relação me pareceu mais que saudável. Como anda a nossa por aqui? Alguém sabe disso? Minha sensação é de um esmagamento contínuo e sistemático (isto é, diz respeito a sistema) da produção, digamos, independente).

Por Inácio Araujo às 12h30


02/11/2009

Para que serve a crítica?

  

Essa é a pergunta que todo mundo faz aos críticos e que eles mesmos, no mais, vivem se fazendo.

Ela é muito atual neste momento, em que o marketing das grandes companhias procura, justamente, acabar com a crítica e com a troca de idéias sobre os filmes. Funciona como se todo mundo devesse ver a mesma coisa, ainda que suas experiências pessoais possam ser muito diferentes.

Jean-Michel Frodon, que foi diretor-geral dos "Cahiers du Cinéma", diz a Ana Paula Sousa, na Ilustrada, que a crítica não tem a menor influência na frequência aos cinemas (nem deve ter, acrescento eu) e que uma função da crítica é chamar a atenção para o cinema que é feito, 95% do cinema, segundo ele, que tem muita dificuldade para ser visto pelo público em geral.

Antes, ao comentar o cinema brasileiro, ele enfatiza que, na sua opinião, nosso problema não é econômico, mas de dependência cultural a Hollywood. E que o cinema brasileiro hoje lhe parece, de modo geral, decepcionante.

Aqui, há pontos a conversar. A crítica francesa sempre teve muita dificuldade para ver o que fazemos de melhor, e passou a vida ignorando, digamos, Rogério Sganzerla.

Temos hoje bons filmes, e certamente "Mutum" não é o último deles. Temos maus filmes, também, às pencas. Mas a produção de 2008, por exemplo, me espantou. Havia "Serras da Desordem", "Falsa Loura", "Cleópatra", "Deserto Feliz", todos filmes muito fortes, sem contar "Corpo", que é uma estréia cheia de irregularidades, mas muito interessante. Enfim, existe uma produção que não chega ao público e, muito menos, ao exterior.

Por que isso acontece? É complicado, envolve desde a política local até uma certa falta de curiosidade dos europeus. Vamos ser francos: o Cahiers mesmo comprou por anos a fio o que Sylvie Pierre vendia sobre o cinema do Brasil. E que era, para dizer o mínimo, extremamente parcial.

Digo isso porque acho que houve uma abertura considerável, do lado do "Libération", quando Serge Daney estava lá com Louis Skorecki e Edouard Weintrop, e ele mesmo Daney vinha aqui ver as coisas e, mesmo comigo, lembro de ter ficado horas conversando com ele num boteco perto da Folha, sem compromisso, só falando.

E estávamos diante de uma crise dos diabos, que não acontece hoje.

Voltando aos fatos. Tenho lá minhas reservas em relação a algumas afirmações dele, e sobretudo ao não reconhecimento ao jovem cinema de Pernambuco (e arredores).

Porque não é um cinema empírico, é algo que vem de uma cultura não só cinematográfica muito forte. Isso é muito diferente da maior parte do cinema recente de Rio/SP, que só pensa em fazer sucesso e aparecer na coluna social, mas parece que não leu um livro, que não viu um filme, nada.

Me parece interessante, ainda, a observação sobre o cinema asiático recente, que conheço bem mal, segundo a qual os diretores colaboram uns com os outros e com isso conseguem fazer filmes baratos. Aqui, parece, às vezes, que o objetivo não é fazer bons filmes, mas ver quem faz o filme com a maior equipe. Isso é um equívoco, uma bobagem.

Para terminar, e voltando ao papel da crítica. Me parece que é importante, não na França, onde a relação com o cinema é privilegiada (se vai ao cinema como se vai ao museu, etc.), mas aqui, sim: o crítico precisa, na medida do possível, relacionar coisas: escolas, épocas, tradições. Senão fica parecendo que o cinema vive num presente eterno, que os filmes surgem do nada. E não é bem assim.

De volta à Mostra. Alguns filmes grandes que vi nos últimos dias: "Mother", coreano, e "Vencer", do Marco Belocchio. Já vi que "Mother" está comprado pela Paris. O Belocchio, isso assusta, não. Mas é filme de mestre.

Enfim, para que serve a crítica?

Dizia o Roland Barthes que criticar quer dizer "pôr em crise". É uma boa definição. É o que desarruma o muito arrumadinho.

O Jean Douchet tem outra, de que gosto muito: é a arte de amar.

Acho que são complementares.

Por Inácio Araujo às 08h47


31/10/2009

"Chanel", uma biografia decente

 

Fui ver "Coco antes de Chanel" para descansar dos filmes da Mostra e depois de ver o espetacular "Mother", coreano.

Esperava pelo padrão habitual das cinebiografias francesas tipo "Piaf", ou seja, algo insuportável salvo por uma atriz, ou pela música, essas coisas.

Mas me surpreendi. Na primeira sequência, ela e a irmã chegando a um orfanato, temi pelo pior. Mas desde ali, o filme chama a atenção para o olhar da menina, um olhar muito perspicaz.

Mais tarde, ela já cortesã, é interessante como o filme enfatiza o tipo de moda pré-Chanel, que vai do espartilho à sobrecarga de tecidos, cores, adornos, passando pelos chapéus que ela chamava de merengues.

Existe então essa sensibilidade que adivinha um mundo que está acabando (a belle époque, o pré-Primeira Guerra), e ela vai encarnar em grande medida isso, vai encarnar para o lado da moda, que hoje é indústria de ponta, "limpando" a mulher de toda aquela traquitana.

É claro, não é filme que muda o mundo, mas os atores estão muito bem dirigidos, a direção de arte é correta e a mise en scène tem fundamento, por isso o filme não é um mero acumular de fatos, como se vê com frequência no gênero. E, coisa importante, sabe quase sempre evitar o sentimentalismo e a grandiloquência.

Alcino Leite, que além de ótimo crítico de cinema também trata de moda, diz que o filme dá umas edulcoradas na figura de Chanel, o que deve ser verdade, e que às vezes puxa a sardinha para a brasa dela, mas essas coisas são esperáveis nesse gênero de filme.

Ele também chama a atenção para o academismo da imagem. Acho que nisso há certo exagero. Eu diria que a imagem é tradicional, própria de um filme comercial. O que "Chanel" é. Mas tem essa vivacidade bem acima da média do cinema comercial francês, que, como se sabe, tende ao horripilante.

Por Inácio Araujo às 08h51


29/10/2009

"O Bandido", agora em livro


Uma festona na Mostra: o lançamento dos 38 novos livros da coleção Aplauso. Estava intransítável. Ou, para falar bem francamente, insuportável.

Sem demérito para os outros livros, o destaque para mim é, de longe, o roteiro do "Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla.

Essencial para quem queira se deter sobre a relação texto/filme, palavra/imagem. Para saber o que é um filme, afinal.

Helena Ignez deu a honra de me convidar para escrever o prefácio. Fui conferir. Antes de chegar no prefácio tem uma montanha de introduções de políticos etc. É quase metade do livro.

Ou seja: a coleção é uma bola dentro. Tenho aqui uns volumes antigos. Só têm uma introdução do Hubert Alquéres, diretor da Imprensa Oficial e olhe lá.

Agora todo mundo quer tirar uma lasquinha, entre eles os inúmeros políticos presentes à festa. (Mas se alguém tem mérito nessa história é o Rubens Ewald, que bolou e dirige a coisa).

Bem, depois que se vence as introduções todas e o meu prefácio, vem o manifesto escrito por Rogério quando fazia o filme: precioso.

Um dos itens diz mais ou menos o seguinte: "Com Orson Welles aprendi a não distinguir crime e política".

Hora de sair do Shopping: impossível pegar o elevador.

Desço até o térreo de escada, com o Cakoff, que ia apresentar o Angelopoulos sei lá aonde.

O Leon está entusiasmado com o volume "Os Filmes da Minha Vida". O lançamento vai ser dia 3, lá no Conjunto Nacional. O Leon garante que eu colaborei com o livro. Não lembro de nada, mas ele não deve estar mentindo.

Por Inácio Araujo às 13h32


27/10/2009

Desastre na Osesp

 

Aqui, um trechinho da música que Almeida Prado compôs para filme mudo de André Savage. A estréia da música foi com a Osesp, no quadro da 3ª Jornada do Cinema Silencioso, promovida pela Cinemateca Brasileira.

Desde que foi reestruturada, a grande vantagem da Osesp era ser uma orquestra pública de qualidade. Ênfase em pública.

Isso significa que permitia o acesso a espetáculos normalmente frequentados apenas por pessoas muito ricas a um outro público que não o habitual círculo de milionários das sociedades privadas de espetáculos musicais.

Pelo que escreve Marcus Preto na Folha de hoje, 27 de outubro, certas assinaturas, justamente as destinadas a estudantes e aposentados, sobem qualquer coisa como 70%.

Os ingressos avulsos são os que menos sobem: 17%, ou seja, mais ou menos 12,5% acima da inflação prevista para este ano.

As explicações da organização da Osesp (que significa Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) são, para dizer o minimo, patéticas. O aumento, diz o site da orquestra citado na matéria, refere-se uma nova taxa "para manuseio e envio do ingresso e gerenciamento do Sistema de Assinaturas e do Banco de Ingressos".

Caramba! Até onde isso pode ser compreensível, o envio de ingressos sempre ocorreu. Espero que o manuseio também, porque senão seria difícil enviá-los. O gerenciamento do sistema de assinaturas, espera-se, também já existia, ou então o caos era muito bem disfarçado.

A coisa não para por aí. Para que tintas mais kafkianas apareçam na história, "a organização" da Osesp explica ao repórter que a tal taxa diz respeito a "série de serviços e benefícios adicionais completamente desvinculados do custo das apresentações", o que inclui "a comodidade de ter lugar cativo na platéia".

Ora, isso não é um conforto adicional e nem é novo. É evidente que quem compra uma assinatura de orquestra compra um lugar fixo. Tal seria. Imagine as pessoas entrando numa sala de concerto e disputando lugar como se fosse um jogo de futebol.

Completa dizendo que "seu valor é suficiente apenas para cobrir os custos".

Que custos? Os dos serviços? O de ter um lugar marcado? Então até agora esses custos eram cobertos por quem? Há muita coisa não dita nessa história e as explicações são feitas julgando que os assinantes são retardados.

Por fim, para o aumento, também brutal, de 17% nos ingressos avulsos, a Osesp sustenta que "resolveu alinhar os seus preços e deixá-los mais próximos aos do mercado para espetáculos congêneres".

Inútil dizer: se é para ostentar preços "de mercado", para que uma orquestra pública?

Ou, em outras palavras: velhinhos e estudantes de música frequentadores da Osesp, convém aproveitar bem 2009. O futuro promete ser árduo.

P.S. - Eu agradeceria se não se visse nisso essa história de brigas políticas, a favor ou contra o governador. Tenho visto José Serra ser acusado de muita coisa ao longo da vida, mas nunca de burro ou insensato. Isso parece mais coisa de sabotador.

Por Inácio Araujo às 10h44


26/10/2009

Wajda, vivo como a vida + Ken Loach

 

A principal razão para ver “Alga Doce” é que Wajda filma bem. O que isso quer dizer? Que estamos diante do filme de um velho mestre e que a câmera parece estar sempre no único lugar possível. Filma como um mestre. Como o mestre que é. É simples e exato, isento de dúvidas ou hesitações, tudo é simples, limpo. Notável.

A segunda, que torna um tanto urgente o deslocamento a um cinema, é que eu tenho dúvidas sobre se um filme desse porte terá lançamento no Brasil (temo o mesmo por "Adam Resurrected", de Paul Schrader, mas, enfim, talvez até já tenham distribuidor). O sistema cinematográfico parece cada vez menos propenso a aceitar filmes como esse.

Por fim, existe Krystyna Janda, a magnífica atriz das duas atrozes histórias que se superpõem. Primeiro, num tempo presente, existe uma atriz de luto num quarto quase sem luz, a nos lembrar que este filme atrasou um ano por causa da doença e da morte de seu marido. Ela recita seu monólogo, em um único plano. A câmera enfatiza o efeito teatral.

Em seguida, temos a história que se passa alguns anos, dez ou quinze, depois da guerra. Ali, uma atriz (a própria Janda) viverá a mulher às voltas com o luto pela morte do próprio filho. O monólogo da primeira época (que na verdade é a atual) foi escrito pela própria Janda e diz respeito à morte do próprio marido, que era fotógrafo de Wajda.

Claro que é "pra baixo". Não sei se a tendência dos multiplexes hoje seja aceitar sensibilidades verdadeiras. As preferidas são as portáteis.

As duas épocas dão bem a idéia de um filme que se monta debaixo de nós, vivo como a vida, sofrido também. Verdadeiro a cada instante. Filme de velho mestre, com a vitalidade que os velhos mestres vêem demonstrando.

À Procura de Eric

Pensava em escrever, mas acabei esquecendo.

É o mais querido dos autores que não gosto. Isto é, tudo nele me parece um pouco antiquado, sua relação com o cinema me interessa pouco etc.

Mas é, inegavelmente, um bom homem. E isso se reflete necessariamente em seus filmes, ou na maior parte deles.

Neste, Eric é um carteiro que cometeu erros na vida, no passado, e arca com a responsabilidade deles segundo a segundo.

É também um torcedor de futebol fanático e fã de outro Eric, Cantona, jogador de futebol genial e temperamental.

Bem, é por aí que tento entender a ambiguidade dos meus sentimentos em relação a Loach. Ele se interessa tão apaixonadamente por seus personagens que tanto eles quanto as questões que suscitam terminam por nos interessar igualmente.

A hipótese de um homem se levantar, sair de seu pesadelo, ganhar uma segunda chance por efeito de uma idolatria, de uma relação com esse fantasma que são, na escala popular, os jogadores de futebol, tem alguma coisa de sublime. Por um lado nos lembra que esse tipo de relação faz sentido, é profunda (entre os fãs de futebol e seus ídolos) e pode ser construtiva.

Seu estilo me interessa pela franqueza, pela honestidade, embora não me entusiasme (prefiro Stephen Frears, para não sair da Inglaterra). Algo que me incomoda bastante neste filme, mas não é a primeira vez que me acontece em filme dele: a sensação de que a classe operária é mais objeto de reflexão do que propriamente sujeito de seus filmes. De certa forma, pode ser esse o limite de seu realismo. Acho que esse entra em cartaz.

Por Inácio Araujo às 11h29


25/10/2009

Quebrando a cara

 

 

Quanto mais vejo filmes coreanos, menos me sinto capaz de compreender a alma desse povo.

Já corrijo: quando apenas começavam a entrar no mercado mundial, vi na Mostra mesmo coisas muito delicadas.

Agora os filmes são carregados de uma perversidade alucinante, para o bem e para o mal. Em "Voluntária Sexual" (que escolhi por causa do nome), existe uma jovem estudante de cinema que faz filme sobre prostitutas, ocasião em que vai pessoalmente a um bordel, representar o papel. Se bem entendi, é nessa ocasião que acaba transando com o pai, por, digamos, orgulho profissional. A mãe dela faz trabalho de defesa e esclarecimento das prostitutas.

Mas o "plot" não é esse, e sim que a garota transa com um homem que sofre de paralisia cerebral, com as bênçãos de um padre. E, claro, há uma jornalista chata que fica atrás da menina para levantar a história e fazer o devido sensacionalismo (velha oposição cinema vs. imprensa)

A sinopse é boa, embora manifeste esse gosto pelos extremos que parece uma característica muito frequente do filme coreano. Mas o cara filma quase o tempo todo o pobre homem com paralisia cerebral. Quando não, tinha o padre chato. Quanto não, tinha uma música insuportavelmente alta.

Resultado: fui ver para fazer hora para o "35 Doses de Rum" e acabei nem vendo a Claire Denis, a sessão era à meia-noite e eu estava morto de sono.

Confio em Portugal. O que têm mostrado os filmes de lá me levaram a ir atrás de "Cinerama".

Uma roubada. Não entendi aonde a moça queria ir, temo que nem ela tenha entendido muito. Imagem sem força sempre, apesar de algumas locações muito bonitas, uma idéia inicial brilhante (alguém pendurado sugere um enforcamento que não está acontecendo, mas ao qual o filme remete) e Diogo Dória no meio disso tudo.

Apostas ganhas: "Seguindo em Frente", de Kore-Eda, e "O que Resta do Tempo" (ou "O Tempo que Resta"?), de Elia Souleiman.

Por Inácio Araujo às 11h38


23/10/2009

A Mostra 33 começa com saúde de ferro


Depois de muitos anos fui a uma abertura de Mostra, mais porque não conhecia o Auditório do Ibirapuera. Que é, realmente, um assombro. Não dá para entender, hoje, como se queria impedir sua construção: sem ele, havia algo faltando no parque.

Bem, é a Mostra 33. Se bem estou lembrado, a última abertura a que eu fui era no vão livre do Masp, com aquele filme "Assassinos por Natureza".

De todo modo, abertura é chato, cheia de atropelos, e eu gosto da Mostra porque, além dos filmes, encontro um monte de amigos que não posso ver muito durante o ano.

Parece que o mundo virou do avesso. Havia uma dezena de patrocinadores para falar. É meio chato o falatório e tal, mas, caramba, eu me lembro do tempo em que o Leon corria atrás de um, de um só patrocinio para fazer a Mostra.

Hoje as possibilidades são outras. A gente não pode esquecer que a Mostra nasce como parte de uma resistência cultural ao governo militar. À censura, etc.

Então, os tempos mudam. Todos os governos (União, Estado, Município) estavam presentes. A Mostra é um acontecimento tão oficial quanto a Bienal.

A diferença é que a Bienal já foi devidamente saqueada e, no mesmo dia, no mesmo horário, lá se promovia um jantar todo todo para arrancar dinheiro de possíveis mecenas.

Que ela encontre esse dinheiro, que se reerga, é coisa de que o ar que respiramos precisa, tanto quanto da Mostra.

Dito isso, o filme do Ken Loach, que foi exibido, é bem Ken Loach. Tem uma observação muito carinhosa da classe operária, que consegue articular a coisas como futebol de maneira brilhante. Talvez ele gonfle um pouco as coisas no final, em busca de efeitos emocionais. Mas, caramba, também o John Ford tinha essa fraqueza.

Hoje (sexta) pela manhá, a Ilustrada publica um artigo com o qual não concordo muito, a respeito de um sentimento de urgência que haveria no passado e não agora, quando sabemos que os filmes vão entrar, etc e tal.

Não estou nada certo disso. Entrei nessa conversa no ano passado e não fui ver o  "Redacted", pensando, "bah, filme do Brian de Palma não tem erro, vai entrar". Ou seja, se não fosse pela cópia baixada de internet que me emprestaram eu até hoje não teria visto este filme (o melhor de 2008, segundo "Cahiers du Cinéma").

Enfim, vamos à luta.

Por Inácio Araujo às 12h13


21/10/2009

Últimos preparativos para a Mostra


Bom, gente, na real a Mostra de S. Paulo começa depois de amanhã (sexta-feira).

Como várias pessoas pediram sugestões, posso passar os filmes que vi e achei do barulho:

SHIRIN - Abbas Kiarostami

ADAM RESURRECTED - Paul Schrader

ALGA DOCE - Wajda

SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA - M. Oliveira

VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO - Marcelo Gomes/K. Hainouz

Não vi, mas aposto:

35 DOSES DE RUM - Claire Dennis

SEGUINDO EM FRENTE - Kore-Eda

O TEMPO QUE RESTA - Elia Souleiman

Vi e acho interessante, mas não acabado:

A RELIGIOSA PORTUGUESA - Eugêne Green

Bem, isso é o que posso adiantar por agora, do que vi e do que ouvi de pessoas de confiança. Claro, há as figurinhas carimbadas, de Almodóvar a Ken Loach etc.

No geral, a Mostra deste ano me parece muito forte.

Acho que, de todos, a grande surpresa será o Paul Schrader, que há muito não tinha um filme tão forte,  se é que já teve um assim.

Por Inácio Araujo às 18h26


19/10/2009

Soderbergh trapaceia

Steven Soderbergh não me convence. Seus filmes dependem do assunto (Che), da máquina ("Onze Homens" e sequências), dos atores.

É verdade que os atores ele dirige bem e que os filmes industriais, digamos assim, são eficientes.

Mas o "Che", por exemplo, só andou enquanto era aventura.

E agora tem esse "O Desinformante". É a história de um mentiroso compulsivo, um pouco parecido com aquele filme do Spielberg, o "Prenda-me Se For Capaz".

A diferença é que Soderbergh trapaceia o tempo todo. Ele narra como se não soubesse quem é o personagem do Matt Damon. E o filme só existe porque nós, espectadores, ficamos no escuro sobre o essencial. 

Não existe nenhuma reflexão sobre o cinema, sobre a realidade, sobre as relações entre o verdadeiro e o verossímil. Ao menos eu não percebi.

Me parece que faz o inverso do Hitchcock, por exemplo, que já de cara contava quem era o assassino.

Não que se deva obrigatoriamente fazer como ele. Mas ele faz como o cinema tradicional de 1940, e vende como novo. Achei bem mal narrado, por sinal. Me perdi umas vezes em que isso não deveria acontecer.

Não sei, não me convence. E apesar do Matt Damon estar muito bem, no dia seguinte eu já tive dificuldade para lembrar do filme. Ele escapa, não tem nada de essencial, não é memorável, ao menos para mim não é. Divertido, sim, ele é.

P.S. 1 - "Distrito 9": sim, é um belo filme, muito mais do que eu esperava.

P.S. 2 - Não entendi o barulho em torno de "Deixa Ela Entrar".

P.S. 3 - Agora é a Mostra. Já vi coisas espetaculares.

Por Inácio Araujo às 17h17


17/10/2009

Adeus Rosanna Schiaffino


O dia, em definitivo, não vai bem. Leio agora que morreu Rosanna Schiaffino. Na época de ouro, o cinema italiano tinha, entre outras, atrizes de fazer o chão tremer. A gente ia ao cinema para ver Silvana Mangano, Silvana Pampanini, Claudia Cardinale, Catherine Spaak, Sophia Loren, Marisa Alazio, Maria Grazia Bucella, Virna Lisi e várias várias outras de que não lembro agora. A Schiaffino era uma dessas. Abaixo, um trechinho dela com Jacques Perrin em "La Corruzione" (1963), que não me lembro de ter visto na época. Mas a sequência é bonita, vale para lembrá-la e honrá-la.

P.S. - Só de dormir e acordar lembrei que tinha esquecido três atrizes inesquecíveis: Monica Vitti, Alida Valli, Stefania Sandrelli, Rossana Podestá. São quatro, na verdade. Há mais...

Por Inácio Araujo às 20h39


Adeus Tropicália


Acabei de saber da perda, quase integral, da obra de Hélio Oiticica.

Mal acredito no que vejo. Acho que é pesadelo. É coisa sem volta. Quase a obra inteira? Será que é isso mesmo?

É que nem a Brasil Vita Filmes pegando fogo e tudo sumindo.

Caramba, a gente não aprende nunca?

Por Inácio Araujo às 18h01


16/10/2009

Volta a circular o "Jean Vigo" de Paulo Emilio

 

A CosacNaify começou como editora de livros de arte.

De certa forma, é o que continua sendo. Mesmo quando são livros "para ler", a parte de arte é fortíssima.

Essa reedição do "Vigo, Vulgo Almereyda" e "Jean Vigo" que fizeram é uma coisa espetacular. Tem até índice onomástico, essa raridade em livros brasileiros.

Junto, vêm os filmes com as obras completas do Vigo, que já tinham saído.

A única porém decisiva mudança é que aqui foi acrescentada a edição do programa "Cineastas do Nosso Tempo" (90 minutos) dedicada a Vigo.

No mais, uma documentação iconográfica preciosa.

O problema: a caixa (2 livros com os DVDs) sai por R$ 150,00 mais ou menos.

Mas para quem precisa dar um presente de Natal belo e chique, vem a calhar. Se a pessoa quiser exibir, pega bem. Se quiser ler, melhor ainda.

Do livro de Paulo Emilio, já sabemos: é um trabalho espetacular.

O "Cineastas do Nosso Tempo" é especial, sobretudo pela participação de Nounez, o produtor de Vigo, e que resolveu produzir Vigo porque não aguentava ver tanta coisa chata no cinema e queria ver algo diferente. Figura notável.

 (Acima, uma ceninha de "Zero em Comportamento" que ninguém consegue esquecer: Vigo, alguém disse, foi o Rimbaud do cinema. Ninguém dava muita importância a ele, em vida. Hoje se sabe que foi um mestre da poesia e da rebeldia. Um anarquista que morreu prematuramente, um amador do cinema e da liberdade, do cinema-liberdade).

Por Inácio Araujo às 16h12


Sobre o autor

Inácio Araújo é crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo, autor de dois livros sobre o assunto: "Hitchcock, o Mestre do Medo" e "Cinema, o Mundo em Movimento". É escritor, autor do romance "Casa de Meninas" (prêmio APCA de autor revelação, 1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado/SP), do romance juvenil "Uma Chance na Vida".

Entre os anos 1970 e 1980, foi montador, roteirista e assistente de direção e montagem em diversas produções. Escreveu, montou e dirigiu "Aula de Sanfona", episódio do filme "As Safadas" (1982).

Sobre o blog

Quem primeiro sonhou com este título foi Jairo Fereira. Como ele o abandonou e deu a seu livro o nome "Cinema de Invenção", eu lhe disse que um dia faria alguma coisa com ele.

Que seja agora. O boca a boca foi a mais fantástica instituição do cinema. Alguém ia ver um filme, gostava, comentava com amigos. Eles iam ver e, com isso, filmes que às vezes haviam começado a carreira sem força, ganhavam bilheteria e ficavam várias semanas em exibição.

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